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Prescrita · Jul 2, 2026

A taça do mundo é nossa!

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Hupokhondría · Prescrita

Mariana Virgílio

Em ano de Copa do Mundo, eu me lembro muito de uma história que meu pai, de forma cômica, me contava.

Nascido em 1951, ele dizia que sua primeira lembrança de uma Copa do Mundo era de 1958, ano que nossa seleção verde e amarela levantou a primeira taça em Copas do Mundo. No ano seguinte, de 1962, o Brasil garantiu o bicampeonato em cima da Tchecoslováquia, consagrando, inclusive, Garrincha como grande destaque da seleção, uma vez que Pelé enfrentou uma lesão no segundo jogo do campeonato.

Mas, voltando à história, o fato é que o menino José Alberto (meu pai) convivia com a realidade de uma seleção que acumulava vitórias (dá saudade, né?). Porém, no ano seguinte, em 1966, já com seus 15 anos, ele viu a seleção que buscava o tricampeonato cair ainda na fase de grupos, ano que ficou marcado como um dos piores resultados da Amarelinha em Copas.

Indignado, meu pai contava que demorou para compreender aquela derrota porque na cabeça dele, na época, o Brasil sempre ganhava a Copa do Mundo, não existia uma realidade em que ele perdia. Até que ele viu.

Confesso que tive inveja. Nascida em 1996, minha lembrança de 2002 é bem remota, só de algumas buzinas na rua, onde assistíamos alguns jogos no comércio do meu pai.

Se, atravessando o tempo e o espaço, eu encontrasse o menino José, hoje, certeza que ele me perguntaria: “Como assim o Brasil não é hexa?”.

Gustavo Burla

Meu avô se ajoelhou diante da minha avó, embora nenhum dos dois soubesse ainda que teriam esse parentesco, abriu a caixa com o anel e fez o pedido. Já namoravam, claro, e dividiam o mesmo teto no trabalho, na Prefeitura de Juiz de Fora, por isso dividir em casa seria um passo possível. Ela se emocionou, aceitou e ele saiu correndo.

Não dela, mas para não perder o ônibus que o levaria ao Maracanã.

A história dele começa aqui, a de antes ela que contava, com raiva transformada em remorso.

Ele chegou ao Maracanã naquele domingo para ver o que foi considerada a final da Copa do Mundo de 1950. Foi um campeonato diferente, com grupos, então não era como se vê hoje, mas bastaria ao Brasil um empate com o Uruguai para ser campeão do mundo pela primeira vez. E em casa!

Num estádio com capacidade para pouco mais de 150 mil torcedores havia 200 mil. Palavras inquestionáveis do meu avô porque (a) eu não estava lá, (b) tinha a Geral, assim mesmo, com G maiúsculo, com capacidade mais dilatável do que coração de mãe e (c) foi meu avô que disse e ponto.

O estádio vibrava com o primeiro gol do Brasil e não perdeu a pulsação quando a Celeste marcou um, empatando o certame. Foi no segundo gol dos vizinhos sul-americanos que instaurou-se o que antes era apenas um conceito abstrato buscado pela Filosofia, pelas religiões e pelas artes: o silêncio.

Uma mosca podia ser ouvida naquele estádio lotado com 200 mil pessoas.

Cresci ouvindo essa história, a história do meu avô e da mosca.

Um dia li “O romance morreu”, único livro de crônicas de Rubem Fonseca. Essa mesma história estava lá. Ele e meu avô fizeram aquele mesmo silêncio. Viveram aquela mesma História.

O que Rubem Fonseca nunca soube é que o resultado do jogo foi causado pela raiva da minha avó.

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Maristela Meireles

Nessa semana, transformei o mapa da América Latina em um livrinho de colorir para aplacar o nervosismo dos jogos da Copa. Era nada afeita a esse tipo de distrações, mas não tive como ficar imune ao mata-mata, especialmente com a derrota da Alemanha para o Paraguai. Não é apenas uma distração, é uma catarse!

A prescrição dessa edição é fazer o L de Latinas e torcer sem moderação.

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Gustavo Burla

Todo evento global pode ser literário, é uma questão de critério. Há quem adote como meta ler um livro de cada país (desafio ampliado em um certame com 48 seleções), outro o de conhecer as obras que enfrentam o Verdelindo, ainda quem se contente em ler os finalistas.

Qualquer que seja a lista, desde que democrática, costuma-se recorrer a traduções.

Como nesta Copa de três países, com três línguas diferentes: tecla SAP indispensável.

Este texto começou a nascer junto com o primeiro gol do México sobre o Equador do clássico Estádio Azteca. Tudo ali ocorre em espanhol, é clima de Libertadores, como disse o narrador.

Quem ganhar (México fez outro gol) vai lidar com traduções ao enfrentar a Inglaterra ou a República Democrática do Congo na rodada seguinte, seguindo poliglota até a final, se chegar. O México, mesmo que vença1, ainda que sede da Copa, não joga em casa na final. Vai para os Estados Unidos nas quartas de final, país que joga futebol com a mão.

Nem sempre a gente consegue ler um livro no original, tem muito mais línguas no mundo do que compreende a nossa vã poliglotia (existe isso?), mas existem boas traduções. O garimpo pelas palavras justas (justo as palavras) é quase tão estratégico quanto enfrentar uma seleção na Copa.

E as línguas fazem falta e gols, mas as boas traduções driblam com categoria e chegam ao posto mais alto da competição: sua prateleira.

Táscia Souza

A Maris já prescreveu o remédio mais importante ali em cima, mas vou me atrever a mais uma diquinha de mãe. Sempre fui dessas de ai-futebol-é-chato-porque-é-um-esporte-lento-e-de-muitos-jogos-sem-nenhum-gol-e-digo-isso-de-forma-arrogante-pra-disfarçar-que-não-entendo-nada-do-que-estou-falando. Só que aí abri o Substack para postar esta edição da Prescrita e o cientista político Rafael Cardoso Sampaio, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), esfregou minha ignorância na minha cara.

Continuarei assistindo só na Copa? Provavelmente. Mas com bem entusiasmo.

Valeu por esse texto, professor!

Leiam o post dele e entendam a paixão por futebol.

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Venceu, assim como a Inglaterra. Se estivermos vivos ainda depois do jogo do Brasil no domingo, a gente assiste.

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Read the original on hupokhondria.substack.com

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