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HIPER-REQUADRO · Aug 3, 2026

25. NADA FLORESCEU NO MEU QUINTAL.

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Lucas Fazola Miguel. · HIPER-REQUADRO

Você deve ter notado que a periodicidade da HIPER-REQUADRO vem oscilando mais do que o preço da gasolina nos rincões desse país ao longo dos últimos meses.

Na impossibilidade de garantir um artigo por semana, venho tentando optar por postagens quinzenais, para não entrar em fórmulas esquemáticas e engessadas, já que o tempo vem andando exíguo diante do tanto de atribulações que 2026 vem me reservando.

Portanto, sem mais delongas, vamos para o texto de hoje!

Em Nada floresceu em 99, Djeison Hoerlle e Eduardo Ribas concebem um encontro entre Conta comigo e Turma da Mônica: Laços no sul do Brasil. O enredo gira em torno de Rafael e seus amigos, que passam a procurar por Gustavo, um ex-amigo que desapareceu misteriosamente, causando alarde na cidade.

O protagonista, em sua versão já adulta e atormentada por problemas em seu relacionamento, faz as vezes de narrador reminiscente e reflete sobre como o desaparecimento desse amigo marcou uma chave de virada em sua infância. Assim, de forma melancólica e contemplativa, ele olha para sua infância enquanto discorre sobre as dores do crescimento, constatando a dureza da realidade de um Brasil tão desigual.

Nessa vocalização de questões que alternam entre o desabafo intimista e a decepção diante dos problemas que assolam a vida em sociedade na contemporaneidade, Hoerlle traz uma distinção de tons bem evidente entre as contrapartes de Rafael. Se o garoto traz consigo um ar mais leve e despojado, o adulto carrega sobre si as dores do crescimento e as inseguranças inerentes a quase todo jovem adulto. A narrativa visual de Ribas, por sua vez, carrega consigo muita influência dos mangás, tanto por sua expressividade quanto pela fluidez na composição de páginas.

Desse modo, temos em certo ponto um pequeno descompasso entre a proposta descontraída do eixo pictórico da trama quando levamos em conta a proposta mais reflexiva do eixo verbal. Esse aspecto não causa qualquer prejuízo para a dinâmica proposta pela HQ, porém, traz um pouco de estranhamento em um primeiro momento.

Gosto muito das marcas de oralidade presentes nos diálogos desse gibi. O Brasil é um país riquíssimo em sua pluralidade linguística, com sotaques, gírias e maneirismos próprios de cada região, por isso é tão reconfortante ver tais distinções da língua portuguesa serem trabalhadas de forma tão naturalista e orgânica dentro de uma narrativa situada fora do eixo Rio-SP.

Assim, é possível identificar aspectos que remontem às referências que citei no primeiro parágrafo, mas Hoerlle e Ribas conseguem imprimir uma identidade própria para a HQ, equilibrando humor e drama com eficiência em um ponto de convergência ideal.

Muitas narrativas por vezes se perdem no contato com suas referências e acabam se desvirtuando de sua lógica interna no decurso da narrativa, e felizmente isso não ocorre com Nada floresceu em 99, que conserva sua coerência até o último requadro.

A HQ, publicada pelo selo independente Dom Mordaz, está à venda nesse link.

No mais recente gibi de Luckas Iohanathan, Enterrei todos no meu quintal, publicada pela Comix Zone, temos a vida da fotógrafa Júlia Ruas contada da infância à velhice. Em um primeiro momento, a sinopse me lembrou da HQ O dia de Julio, de Gilbert Hernandez, sobre a qual falei recentemente.

Porém, se há um ponto de contato na premissa inicial, o desenvolvimento das duas HQs não poderia ser mais distinto. De forma fragmentária e dispersiva, a vida de Júlia se descortina pelo virar das páginas, com seus erros e acertos expostos entre requadros e elipses.

Assim, Iohanathan desenvolve sua personagem em meio às dores e delícias do crescimento, sem qualquer idealização, seja do passado, do presente ou do futuro, e empreende um estudo fascinante de sua protagonista no decurso da HQ.

Hermético e altamente experimental, esse gibi traz um leque novo de estratégias discursivas do quadrinista, que já havia impactado público e crítica sobremaneira com Como Pedra, O monstro debaixo da minha cama e Ouroboros.

Um aspecto fundamental dessa HQ é a solidão que acompanha a protagonista ao longo de toda a sua vida, mesmo quando ela se encontra acompanhada. É a partir dos momentos sozinha que Júlia processa suas memórias, enterrando metaforicamente em seu quintal todos aqueles que contribuíram ao longo dos anos para seu crescimento. É através dos silêncios que esse gibi mais fala, sobretudo quando se propõe a tocar nos momentos mais traumáticos da vida de Júlia.

Gosto de como Iohanathan não se prende a uma única estrutura de composição de páginas nessa HQ, mas opta por alternar por diferentes layouts de modo a deixar a narrativa viva, pulsante e imprevisível, tal como é o próprio desenrolar de nossas vidas. Tamanha versatilidade expõe como o autor evolui a passos largos em cada novo trabalho, exibindo pleno domínio da narrativa gráfica sem prescindir do esmero com que talha seu texto com tanto esmero.

Ao escolher falar sobre vida e amadurecimento, incidindo sobre a finitude e a perenidade, o quadrinista potiguar foge da tensão que marcou seus trabalhos anteriores, notórios por trazerem histórias brutais e pesadas em meio aos conflitos ali contidos.

Há alguns pontos de contato com suas obras pregressas, certos temas que se repetem, mas o cerne dessa HQ difere fundamentalmente delas. Em Enterrei todos no meu quintal, a brutalidade maior é a inclemência e dureza que a vida nos impõe diante da difícil tarefa de meramente existir, fazendo do ordinário algo extraordinário.

Desse modo, o gibi fala do acúmulo de tempo, de erros, de acertos, de tudo o que faz de nós quem somos e como somos. Com um texto maduro e afiado, que não idealiza ninguém em momento algum e coloca uma lente de aumento incidindo sobre cada atitude de sua protagonista e daqueles que a cercam, Iohanathan desenvolve uma protagonista forte, relacionável e intrigante, sem jamais dar nada de mão beijada para seu leitor.

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Achei curiosa essa confluência, pois li Nada floresceu em 99 e Enterrei todos no meu quintal em sequência, sem qualquer planejamento, e ambas coincidentemente acabam tocando em um mesmo tema. Acho interessante ver como duas abordagens tão distintas podem trabalhar um mesmo aspecto a partir de diferentes perspectivas.

Da melancolia do protagonista da HQ de Hoerlle & Ribas surge a esperança, enquanto da vida pulsante e repleta de acontecimentos da protagonista da HQ de Iohanathan surge uma melancolia desalentadora que aborda a vida e seus excessos sob um prisma bem menos esperançoso.

As duas, porém, logram êxito ao destacarem como determinados momentos de nossas vidas nos marcam profundamente e moldam muitos de nossos caminhos nos anos que se seguem.

Afinal, não há como crescer sem sentir o peso da vida sob os ombros, sem lidar com vida e morte, escolhas e consequências. Não há amadurecimento que surja imune ao caos inerente à imprevisibilidade da existência.

Portanto, esses dois gibis, longe de trazerem qualquer “lição de vida” piegas e artificial, evidenciam como o viver, além de perigoso (como diria Guimarães), é desafiador e nos exige coragem a todo instante.

Vivamos, então!

  • Depois de quase um mês, finalizei a leitura de Helen de Wyndhorn, de Tom King, Bilquis Evely e Mat Lopes. Estou longe de ser um hater de Tom King, mas preciso informar que os brasileiros carregam esse gibi nas costas. Sem uma dupla tão talentosa na narrativa visual, a HQ não teria nem 10% do apelo que possui;

  • Na última edição da HIPER-REQUADRO eu mencionei a leitura da fase de Ryan North à frente da HQ Fantastic Four, certo? Pois bem, já li os quatro primeiros volumes e é realmente tão boa quanto todo mundo sempre comentou comigo;

  • Nesse final de semana li a nova HQ de Criminal, intitulada Five Gears in Reverse, de Ed Brubaker, Sean e Jacob Phillips. Talvez eu fale mais sobre nas próximas newsletters;

  • Estou enfim iniciando hoje a leitura de EIGHTBALL, de Daniel Clowes. As expectativas estão lá no alto!

Oi! Tudo bem? Me chamo Lucas Fazola Miguel e sou pesquisador de Histórias em Quadrinhos.

Esse foi o texto de hoje da HIPER-REQUADRO, uma newsletter para se ler nas horas vagas e, sobretudo, nas pagas!

Deixe seu like, comente suas impressões e, se possível, compartilhe na bolha gibizeira em que você habita.

Te vejo no próximo post.

Até a próxima!

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