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HIPER-REQUADRO · Jul 20, 2026

24. CONCEITO ABSOLUTO.

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Lucas Fazola Miguel. · HIPER-REQUADRO

Há alguns meses, chegou aqui em casa um exemplar da primeira edição da revista Comics! The Magazine, que adquiri por intermédio do pessoal do Baú das HQs. Estou lendo-a a conta-gotas desde então, com calma, matéria por matéria, sem pressa de terminar.

Sinto falta desse tipo de publicação periódica por aqui, pois considero o formato ideal para aprofundar conhecimento e ampliar repertório com leveza, sem rigor acadêmico erudito. Ainda sou saudoso da premiadíssima revista digital Panel x Panel, editada pelo letrista Hassan Otsmane-Elhaou, então dá pra sacar que fiquei bem contente de ter contato com uma nova publicação do tipo né?!

Pois bem, a matéria de capa se faz notar logo de cara por trazer um papo com a equipe responsável por um dos títulos que ocasionaram o mais recente chacoalhão nas vendas do mercado estadunidense de gibis: Absolute Batman.

A HQ concebida por Scott Snyder, Nick Dragotta, Frank Martin e Clayton Cowles recentemente começou a ser publicada no Brasil, e vem repetindo por aqui o sucesso que angariou lá fora.

Nas redes, vejo diariamente pessoas compartilhando suas impressões sobre o gibi, muitos inclusive retornando às muitas vezes esquecidas bancas de jornal para ficarem em dia com esse arrasa-quarteirão da DC Comics. Fenômeno semelhante vem ocorrendo com os demais títulos da linha Absolute.

Em How to make Absolute Batman, entrevista conduzida por Joseph Keatinge, temos depoimentos tanto dos artistas quanto dos editores responsáveis pelo gibi, explicando o contexto em que o projeto surgiu, as pessoas que o viabilizaram e o tanto de planejamento que foi colocado em prática até que uma ideia inicial se tornasse um empreendimento complexo e bem-sucedido.

Por sinal, muito do sucesso dessa linha editorial começou a fazer sentido pra mim após esse bate-papo, sobretudo por conta dessa resposta de Scott Snyder, quando perguntado sobre o processo de criação do universo Absolute:

Então, de cara, comecei a pensar que, se toda essa linha editorial tem como objetivo reinventar esses personagens de um jeito que pareça empolgante, pessoal, urgente e realmente novo, então a missão é reduzi-los à essência do que eles são. Levá-los à essência de seu DNA. Reduzi-los aos seus princípios mais básicos e, a partir daí, reconstruí-los de uma forma que os faça parecer ainda mais heroicos para o público de hoje.

Quando reduzi o Batman à sua essência, como um personagem com quem trabalhei por muito tempo, cheguei à conclusão de que ele é, no fundo, apenas um garoto que sofreu um trauma terrível e que usa esse trauma como motivação para tornar o mundo um lugar melhor. Se você o reduz apenas a isso, à menor equação possível, à sua versão mais atomizada, e então começa a reconstruí-lo, de repente todas essas características passam a poder ser refeitas de maneiras completamente novas.

É exatamente esse fundamento que sustenta a coesão interna de Absolute Batman, e tal conceito foi utilizado enquanto elemento basilar para as demais HQs da linha, evidenciando a força absoluta de um argumento bem fundamentado como sustentáculo de uma linha de publicações desde seus primeiros passos.

Todas partem dessa premissa, mas possuem linguagem e estilos próprios, criando gamas de sensibilidade ímpares e que fogem da mediocridade em que vinha imerso o cenário de gibis das majors nos últimos anos.

Há muito de mangá na narrativa visual de Nick Dragotta em Absolute Batman, enquanto Snyder reinventa a mitologia de Gotham e faz um “Sobre meninos e lobos” embebido em ficção científica com pitadas de Chainsaw Man.

Hayden Sherman brinca com os layouts de páginas em Absolute Mulher-Maravilha de forma inventiva e instigante enquanto Kelly Thompson remonta a trajetória de Diana retirando-a de quase todas as premissas reconhecíveis de outrora, com muita influência de Berserk na faceta guerreira da princesa das amazonas.

Javier Rodríguez flerta com Keith Giffen e José Muñoz numa viagem pela pop art enquanto Deniz Camp delineia uma trama conspiratória intrincada e sofisticada em Absolute Caçador de Marte, daquelas que requerem releituras constantes de cada edição mensal.

Rafa Sandoval é quem traz uma narrativa gráfica mais convencional, se adequando à proposta de Jason Aaron, que bagunça sobremaneira todos os aspectos já cristalizados no imaginário coletivo para as origens do homem de aço em Absolute Superman, trazendo um Kal mais revolucionário e protetor dos vulneráveis do que nunca.

Nick Robles é arrojado e criativo no intuito de desenvolver uma pegada jovial, chamativa e urgente em Absolute Flash, de modo a acompanhar a trama familiar de Jeff Lemire, que nos brinda com um belo conflito entre pai e filho, bem ao estilo que o autor canadense sabe bem como fazer.

A arte de Jahnoy Lindsay em Absolute Lanterna Verde me causou estranheza a princípio, mas Al Ewing é um nome em que eu confio, e o desalinho inicial com a narrativa visual passou tão logo a trama se assentou diante de meus olhos e consegui entender a (boa) proposta narrativa.

Todos esses títulos, tão diferentes estética e tematicamente entre si, se norteiam por aquela diretriz mencionada por Snyder. Dá pra dissecar cada personagem e identificar que em sua base conceitual restaram os elementos fundamentais para que esses personagens sejam identificados de bate-pronto: o jovem órfão em busca de justiça, a princesa guerreira que quer provar seu valor, o alienígena que resolve lutar pelos fracos e oprimidos etc.

São arquétipos muito bem estabelecidos e reconhecíveis que facilitam a imersão de novos leitores, ávidos por um contato com personagens tão icônicos – agora numa roupagem mais convidativa –, e do leitor assíduo, já cansado das repetições esquemáticas e procedurais dos gibis da linha tradicional.

Até o momento em que esse artigo foi redigido, já li os primeiros arcos de cada Absolute mencionado, além dos segundos arcos de Batman e Superman, e devo começar em breve o da Mulher-Maravilha. Todos são acima da média, embora eu tenha certa predileção por uns mais do que por outros.

(Quero muito ver o que as pessoas dirão de Abominação, arco de histórias no qual Batman enfrenta Bane. Foi uma das leituras de supers que mais me empolgou nos últimos anos. A edição da Panini que traz o desenlace desse embate ainda não saiu por aqui, mas sinto que quando sair, veremos relatos ávidos das pessoas pela gibisfera afora.)

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Na linha tradicional, como sabemos, Bruce Wayne sempre foi um playboy bilionário de Gotham City, enquanto o Batman atuava como uma representação da busca por ordem na sociedade. Na concepção da linha Absolute, Scott Snyder optou por retirar o fator “riqueza” do background do personagem à medida que identificou, a partir das opiniões de seus filhos (das quais este articulista comunga), que é complicado enxergarmos bilionários como heróis no mundo em que vivemos.

Assim, o autor percebeu que atualmente há um maior apelo na figura do herói underdog, o azarão, aquele que joga contra as probabilidades apenas por saber que aquilo é o certo a se fazer, e partiu desse viés para delinear seu protagonista para essa nova era. Desse modo, o Batman desse universo é construído enquanto um agente disruptivo, disposto a colocar a mão na massa e se tornar um alvo público para tentar mudar um sistema corrompido, enquanto o Coringa se configura enquanto seu exato oposto, um agente disposto a tudo para manter o status quo doentio da sociedade inalterado.

A partir dessa dicotomia devidamente estabelecida, o roteirista conseguiu estabelecer as bases do conceito norteador dessa linha, utilizando seu Batman como exemplo para ilustrar para os demais quadrinistas convidados para o projeto qual seria a abordagem pretendida para a linha Absolute.

Bem, já podemos dizer que essa estrutura primária funcionou muito bem até aqui né?!

Enfim, a entrevista é enorme, traz muitos pontos de vista e é muito elucidativa acerca desse novo fenômeno pop. Se fôssemos comentá-la na íntegra por aqui, esse artigo quadruplicaria de tamanho. Por isso, optei por focar no aspecto que considerei mais interessante para a discussão aqui proposta.

E você, já leu algum gibi da linha Absolute? Se sim, o que está achando? Se não, o que está esperando para começar?

  • Olha, me atualizar na cronologia atual dos supers vem se revelando um verdadeiro esquema de pirâmide…

  • Passei o mês de junho quase que todo lendo HQs dessa iniciativa All In da DC Comics, como Batman & Robin: Year One, JSA, Challengers of the Unknown, New History of the DC Universe, Justice League Unlimited, entre outros, até que resolvi fechar leituras que estavam em aberto, como as fases de Saladin Ahmed em Daredevil e Jason Aaron em The Avengers

  • Não preciso nem dizer que daí em diante fui emendando encadernado atrás de encadernado e, quando me dei conta, já estava em julho lendo Moon Knight de Jed MacKay e Captain America de Ta-Nehisi Coates né?!

  • Nessa semana li Daredevil: Cold Day In Hell, uma minissérie em três capítulos de um Demolidor já idoso e vivendo em uma NY desolada. A inspiração nítida em Elektra Vive, de Frank Miller, já me faria gostar de imediato desse gibi, mas o que Soule e McNiven conseguiram desenvolver nessa história me cativou demais. Desde a fase de Mark Waid que eu não lia uma HQ desse nível do advogado cego de Hell’s Kitchen. Mal posso esperar pela edição brasileira dessa HQ…

  • Comecei a leitura do Fantastic Four de Ryan North e, imediatamente, o mundo voltou a ser um lugar ensolarado. Ler gibi BOM é gostoso demais!

N. do E.: Quando cito o título de uma HQ em inglês por aqui não é por frescura, mas sim pra indicar que a li no idioma original. Do contrário, mencionaria o nome dos tradutores e o título adotado nas publicações nacionais.

Oi! Tudo bem? Me chamo Lucas Fazola Miguel e sou pesquisador de Histórias em Quadrinhos.

Esse foi o texto de hoje da HIPER-REQUADRO, uma newsletter para se ler nas horas vagas e, sobretudo, nas pagas!

Deixe seu like, comente suas impressões e, se possível, compartilhe na bolha gibizeira em que você habita.

Te vejo no próximo post.

Até a próxima!

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