Não se entende a prosa brasileira dos últimos cinquenta anos sem Raduan Nassar. Multipremiada, com o Camões de 2016 à frente, sua obra é pequena em termos de extensão e quantidade, mas nas poucas centenas de páginas de Lavoura Arcaica e Um Copo de Cólera (também algumas de Menina a Caminho) cabe o universo. Em especial, o passado e o presente da nossa ficção.
A ficção brasileira do passado encontra na obra de Raduan uma síntese original. Moço nos anos 1950, ele estava na idade certa para sofrer de cara o impacto de duas revoluções literárias: a de Guimarães Rosa, cujas obras-primas são de meados dessa década, e a de Clarice Lispector, já no início da seguinte.
Não seria novidade identificar em cada um dos grandes livros de Raduan o influxo de Rosa e de Clarice. Lavoura Arcaica, por exemplo, se presta a vários paralelos com a poética do autor de Grande Sertão: Veredas. No livro de Raduan, André tenta fugir da sua paixão pela irmã, do controle rígido do pai e do isolamento da família de origem árabe, apenas para se deixar reconduzir à fazenda, de onde nunca escapou de verdade. Guimarães Rosa se deliciaria com essa reescrita de um mito (a parábola do filho pródigo) enraizado numa experiência histórica e social específica, numa linguagem de alta intensidade poética.
Da mesma forma, pode-se aproximar Um copo de cólera às coordenadas literárias de Clarice. Como na ficção dela, a novela de Raduan também é esparsa: o cenário é uma propriedade rural afastada; o elenco, um casal de personagens– ele, ligado à terra, e ela, ao jornalismo, à metrópole. Parece idílio amoroso, mas se revela uma briga, uma colisão de mundos inconciliáveis, não menos entre ele e ela do que entre ambos e a vida lá fora. Assim como em Clarice, a narrativa evolui no ritmo das turbulências internas das personagens, que explodem os limites do espaço doméstico e conjugal – também eles, ou principalmente eles, uma arena.
O rastreamento de fontes em Raduan Nassar costuma citar ainda o poeta Jorge de Lima, fonte de uma epígrafe de Lavoura Arcaica. Mas talvez a principal marca histórica do ambiente literário da juventude de Raduan Nassar esteja na postura anterior ao texto. Afinal, à maneira de Rosa, Clarice, Jorge de Lima e dos contemporâneos deles, Raduan Nassar escreve (e lê) como quem aposta nisso a própria vida. Como quem não diferencia os três gestos: ler, escrever, viver.
A anedota do escritor recluso, que teria abandonado a literatura para se dedicar ao sítio, é apenas a face mais óbvia e, ironicamente, mais midiática dessa postura. Chama-se a atenção para uma “desistência” que, na verdade, é uma convicção: para Raduan Nassar, vale apenas a literatura que nos exige por inteiro, não se podendo oferecer a ela (aos leitores) menos que isso. Se não for assim, escrever para quê? Publicar então...
E aqui se percebe como os livros de Raduan Nassar concentram também o presente da nossa prosa de ficção. No caso, eles se oferecem como parâmetro para um contraste negativo – em poucos escritores de hoje se vê a mesma convicção, a mesma aposta, o mesmo compromisso com a literatura. Pior: no conjunto já restrito de quem parece compartilhar esses valores, quase nada se escreveu de comparável ao vigor de Um copo de cólera e Lavoura Arcaica, à sua radicalidade de linguagem, ao abismo existencial em que se lançam.
Os caminhos divergiram faz tempo, em direções antípodas. Para voltar à anedota, Raduan se afastou dos holofotes, enquanto tantos de seus pares investiram (a palavra só pode ser esta) em se manter a todo custo em evidência, não raro com a justificativa da profissionalização do escritor brasileiro. Profissionalização que é legítima e necessária, mas será suficiente? Ainda mais num tempo de monetização absoluta e de contínuo encurtamento do horizonte intelectual? A obra de Raduan Nassar dá uma resposta muito sua, mais viva e presente do que nunca, e cada vez mais rara. De fato, não se pode falar que ele seja nosso contemporâneo. Pior para nós.
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