Talvez seja um efeito colateral de ler Machado de Assis, mas basta aparecer um narrador-defunto, que liga o alerta. Se for em música popular então...
Tem um em “Long Black Veil”. A primeira vez que prestei atenção na música foi na versão da The Band, gravada no seu clássico Music from Big Pink – o tipo de disco que justifica os caras se chamarem A Banda, e ponto. Está lá na segunda metade.
Uma joia. Começa devagar, estabelecendo a cena. Noite fria, dez anos atrás, um assassinato. As testemunhas concordam: o suspeito parecia o narrador. O juiz pergunta se ele tem um álibi, porque aí não precisa ser executado. Ele tem: estava com a mulher do melhor amigo. Mas isso é coisa que se diga? Aí já viu: é um narrador-defunto – alguém que levou ao pé da letra a ideia de levar um segredo para o túmulo. O tal “longo véu negro” é o da amante, visitando-o no cemitério, em outras noites frias, quando o vento chora e geme. “Ninguém sabe / ninguém vê / ninguém sabe / além de mim.”
Parece uma daquelas canções folclóricas, tão velhas quanto o fundo da terra. (É verdade que falar em juiz e em devido processo legal torna a música mais recente, mas você entendeu.) Na verdade, é de 1959. Na Wikipedia se lê que a inspiração foi uma mulher de véu, sempre a visitar o túmulo de Rodolfo Valentino – plena era do cinema.
A vibe ancestral talvez se ligue mais à repetição. Afinal, a música virou um standard: gravada primeiro por Lefty Frizzell, ela já tinha passado pela mão de Joan Baez e Johnny Cash quando chegou a vez da The Band. E mais uma galera gravou: The Byrds, Small Faces, Marianne Faithfull, Nick Cave & the Bad Seeds, Mick Jagger cantando com The Chieftains, Dave Matthews Band, etc., etc.
O que é que “Long Black Veil” tem? Deve ter muita coisa, para ser gravada tantas vezes, em contextos, ritmos e pegadas diferentes.
Uma dessas coisas é a história. A paráfrase ali em cima não faz jus ao seu impacto – falta a melodia, os arranjos, o jeito de entoar os refrãos... Mas, mesmo na letra fria do comentário, dá para ver que a narrativa deixa uma série de vãos. Oportunidades para o leitor especular. Como assim, todas as testemunhas concordaram? A coincidência basta? Por que suspeitariam do narrador? E essa relação amorosa? Como começou? Por que continuava? Ela concordou com a atitude dele? Ele queria tomar essa atitude? O que o motivou: a fidelidade a ela, a culpa pela traição, a vergonha? Todas as anteriores?
Impossível responder em definitivo. E aí está a graça.
Mais que a história, entretanto, a força da canção está na própria forma de narrar. A começar pela escolha do narrador-defunto, que tinge de ironia o refrão: “nobody knows, but me”. Ninguém mesmo? A quem ele se dirige, então?
A forma se enriquece pela pungência das imagens. É uma canção que se passa toda em noites frias, o que é um clichê, mas recompensado na sequência. A mulher de véu chega à noite, quando “o vento frio geme” (“but sometimes at night / when the cold wind moans”), e visita o túmulo do narrador, onde os ventos da noite choram (“She visits my grave / Where the night winds wail”). A recombinação dos sentidos de vento, frio e noite reaviva o clichê; o jogo de sons (o W de “wind”, “wail”, “where” e “when”, as nasais de “night”, “wind” e “moans”) cria correspondências que capturam a nossa atenção. Por exemplo, entre a noite fria inicial, quando houve o crime, e as noites frias das visitas recorrentes à sepultura.
Todos esses elementos criam um fundo que realça a imagem central da canção: a mulher no longo véu negro. A julgar pela lenda em torno de Rodolfo Valentino, essa imagem provavelmente funcionou como núcleo irradiador da música. Não à toa, com tamanha riqueza de associações possíveis. É um véu paradoxal, pois remete de uma vez só a casamento (“moans”) e luto (“wail”). Noiva-cadáver nos cafundós americanos.
Não bastasse tudo isso, tem ainda os pequenos detalhes de cada versão. Os acréscimos dos grandes intérpretes. Compare Lefty Frizzell e Johnny Cash, por exemplo. A mesma levada country, a mesma cadência de carroça letárgica, com o morto na boleia. Mas só a voz de Johnny Cash, grave e irônica ao mesmo tempo, parece vir de fato do além.
Gosto ainda mais dos detalhes que, salvo engano, a The Band introduz. Trazer várias vozes para o refrão, por exemplo, me soa quase como um coro dos mortos amparando o narrador – ou terminando de tragá-lo.
E isso aqui então? Na letra original, seguida por muita gente, canta-se:
There were few at the scene and they all did agree
That the slayer who ran looked a lot like me
(Tinha pouca gente ali e todos tinham assentido:
O assassino que correu parecia muito comigo)
Mas a The Band canta:
There were few at the scene and they all did agree
That the man who ran looked a lot like me
(O homem que correu parecia muito comigo)
É pouco. É uma palavra. Uma sílaba, talvez? Mas é um mundo de diferença. Para melhor.
Na versão original, o narrador – compartilhando a onisciência de um Brás Cubas – praticamente assegura a culpa da pessoa que correu da cena do crime. Na versão da The Band, o véu ganha mais um furo: uma pessoa foi morta e um homem correu, mas será que os dois fatos se ligam? Não é porque uma coisa vem depois da outra que uma causou a outra, certo?
E, nesse caso, quantas outras possibilidades não se abrem para entender o gesto do narrador? Afinal, a história se duplica: além dos motivos de quem fala, multiplicados pelo vento e pela mulher que choram, podemos nos perguntar a respeito dos motivos de quem se cala.
Podemos, apenas, nos perguntar. Ficamos com os vãos. Não há nitidez nesta história (talvez em nenhuma). É uma marca de sua força, um convite permanente a decifrar as sombras por entre vozes e véus.
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