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Plataforma D1 · Jul 20, 2026

Porque tá todo mundo igual?

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Helena Merlo · Plataforma D1

Estava conversando com uma amiga sobre mudanças profundas e como elas impactam no meu jeito de vestir. Sempre curti elementos do armário masculino, desde muito nova, então meus lookinhos sempre tinham um tênis ou um boné, antes mesmo de eles serem considerados elementos fashion. Crescendo eu fui tentando compreender isso melhor e cheguei a conclusão de que eu amo contraste, então essas misturas mais “inusitadas” fazem com que eu me sinta mais eu mesma dentro do que visto. Como sempre fui uma menina que carregava nos aspectos físicos, coisas julgadas como padrão: magra, branca, olhos claros e cabelo liso. Eu consigo entender que era fácil criar esse tipo de “estranhamento” na minha aparência, exatamente por que o resto dela comunicava muito bem com o que socialmente era esperado na época. [e ainda é, infelizmente].

No início da vida adulta eu comecei a ganhar peso e hoje sou uma mulher adulta, que segue tendo os traços que citei acima, mas, tô lá nos primeiros números dos tamanhos grandes. E isso certamente tem consequências na forma que eu e as outras pessoas me enxergam, ou seja, uma pessoa gorda. Eu poderia escrever todo um texto só sobre isso, mas é apenas uma introdução para entendermos, eu e vocês, que minha escolha da adolescência de não querer me vestir tão “feminina”, também foi e é uma espécie de performance, ou seja, uma escolha com intenção e desejo por trás. Estou trazendo esse raciocínio para dizer que também faço parte das contradições. Não queria que essa reflexão soasse como se eu estivesse imune das pressões estéticas ou que eu sou contra procedimentos.

Sabrina Sato de “madame do exagero” no Halloween da Sephora / Outubro 2025 - Reprodução da internet

Uma vez escutava não inviabilize, podcast de histórias reais, o episódio era sobre uma traição que foi descoberta quando familiares viram o bebe fruto da traição e pelo nariz dele e as circunstâncias, mas prioritariamente pelo nariz, eles entenderam que aquela criança era filha do tio X. Tenho dois sobrinhos e uma sobrinha e é recorrente escutar que eles são muito parecidos com meu irmão e minha irmã. A gente sabe que é comum que quando nasce um bebê as pessoas se perguntarem com quem ele parece da família? É legal a gente pensar que a consequência de juntar duas famílias, que podem ser fisicamente completamente diferentes, gera pessoas com aparências físicas complemente novas, feitas dessa mistura, ou mais parecidas com a família do pai ou da mãe.

E aí vem o padrão de beleza, algo profundamente problemático, racista, machista, pra dizer que alguns desses traços, que veem dessa junção de universos, é errada. A tecnologia da medicina é muito brilhante, estava lendo um trecho de um livro sobre bactérias no nosso corpo que falava sobre as evoluções no campo e que antes as pessoas morriam com 35 anos, eu, dentro dessa estatística morreria esse ano. Mas, o que vivemos hoje é mais parecido com o caso da minha avó materna, que faleceu ano passado, um mês antes de completar seus 103 anos. O que também evoluiu muito nos últimos anos foram os procedimentos e cirurgias estéticas. E eu não consigo nem imaginar a importância de algumas dessas cirurgias para pessoas que realmente sofrem quando veem sua imagem refletida e lidam com isso durante anos. Também não é sobre isso.

Quando eu penso que o excesso de procedimentos estéticos, principalmente aqueles que seguem uma moda do padrão do momento, está deixando as pessoas iguais entre si. Mesmas bocas, mesmos formatos de rosto, mesmos narizes, testas, peitos, bundas, bochechas e cinturas. Ao mesmo tempo, completamente diferentes das suas famílias e dos seus ancestrais. E pode piorar, quando pensarmos que tudo isso é cultura e que a cultura é viva e está em movimento, sabemos que a boca de hoje é uma e a de amanhã será outra. Eu fico pensando quanto tempo dura o desejo e quanto custa se parecer com a última foto que viralizou no seu instagram?

Vou reforçar, eu não quero cagar regras sobre o que as pessoas fazem com seus próprios corpos, principalmente mulheres, porque já tem muita gente fazendo isso todos os dias, eu sou uma mulher gorda e eu vivo isso o tempo todo. Mas, eu fiquei pensando se quando buscando uma aparência que está na moda hoje, será que não estamos nos distanciando de quem somos? Será que não estamos apagando os traços da nossa história? Porque será que quando nasce um bebê a gente quer tanto que ele pareça com a família, mas quando chegamos na vida adulta a gente quer ficar diferente e distante dessa mesma aparência que um dia foi comemorada e desejada? Como costuma dizer Michel Alcoforado “Tudo é culpa da cultura” e eu acho que as respostas devem tá por aí mesmo, mas queria deixar as reflexões abertas …

Nós vemos por aqui e por aí …

Beijos, abraços e sorrisos

Helena

Em abril Marina Sena fez um pronunciamento em suas redes sobre sua imagem, após ser questionada por vários usuários porque ela não fazia um procedimento pra clarear sua gengiva, a cantora explicou pq não quer fazer procedimentos, mesmo já até indo procurar médicos em algum momento e completou dizendo:“No momento em que eu entendi que minha identidade era a coisa mais importante que eu tinha, eu me senti muito mais bonita”.

Read the original on helenamerlo.substack.com

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