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Plataforma D1 · Aug 3, 2026

Os começos são fáceis e felizes?

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Helena Merlo · Plataforma D1

A vida adulta de uma mulher pode ser recheada de pequenas descobertas, eu poderia dizer que qualquer vida é assim — e é mesmo! Mas, o que quero dizer quando escrevo isso? É porque eu estou levando em consideração que a misoginia e o machismo tem forças suficientes pra que nós criemos uma série de opressões com a gente mesma. E quando você se aproxima de alguns níveis de independência, me parece mais fácil não ser sua própria algoz. Ou não, vai saber. Mas, se tem um campo em que temos muitas descobertas é o campo do amor, dos relacionamentos e da paixão. Não só porque amadurecemos, mas porque temos que lidar com o fato de que homens e mulheres são ensinadas a formas completamente diferentes de amar e isso vira um caos, com grandes chances de ser bem ruim pra gente. [eu inclusive já escrevi sobre isso aqui].

Hoje eu queria pensar sobre aquelas frases que ouvimos constantemente quando iniciamos uma relação, algo como “ah pq no começo é tudo uma maravilha” e abaixo trago uma lista que o chatgbt gerou pra mim:

  • “No começo é tudo flores.”

  • “A fase da paixão é a melhor parte.”

  • “No início, tudo parece perfeito.”

  • “Quando a paixão é nova, qualquer detalhe vira motivo para sorrir.”

  • “O começo de um amor tem gosto de descoberta.”

  • “Os primeiros meses de um relacionamento parecem uma lua de mel.”

  • “No início, a gente enxerga mais possibilidades do que defeitos.”

  • “Todo amor começa com borboletas no estômago.”

  • “No começo, até o silêncio parece conversa.”

  • “Apaixonar-se faz o mundo parecer mais bonito.”

Recentemente eu tive um insight que mudou um pouco esse senso comum que me habitava há muito tempo. Inclusive algumas frases dessas já saíram da minha boca. Mas, eu estava me questionando, baseada em minhas próprias experiências e também no que escuto em podcasts, vídeos e pessoalmente das minhas amigas. De que na verdade os começos são difíceis. Porque são nesses momentos que a gente pega toda nossa bagagem de anos e coloca pra conviver com uma outra pessoa que também tem uma grande bagagem. Que geralmente inclui a personalidade, as formas de fazer, viver e enxergar a vida, traumas e tudo que a gente pode imaginar que contorna a existência de alguém. [não só a forma de amar]

Eu fiquei me questionando se esse conceito de começos felizes não faz parte de uma ideia romântica, lá do mesmo lugar de onde saiu metade da mesma laranja, tampa da panela ou mais profundamente, o casamento, os filhos, o amor pra vida inteira. O desejo de ser escolhida pra desenvolver esses papeis. A ideia tortíssima, de que vamos “consertar” os homens. Pra mim, fazia sentido de que no começo tudo tinha que ser bem legal, mas vivendo as últimas relações e acompanhando amigas em seus relaciomentos [claro que eu falo aqui do meu lugar, heterossexual, apesar de achar que vale pra outras relações também] eu tenho percebido que os inicios na real são bem difíceis. Pq a paixão pode até te fazer querer estar o tempo inteiro com uma pessoa, mas é na construção diária da relação, recheada de muitas drs que vamos construíndo um nós.

Reprodução da internet

Eu sou uma eterna apaixonada, daquelas que transforma qualquer básico em uma pessoa muito interessante. O que eu aprendi com isso é que toda pessoa muita apaixonada é também uma pessoa que tem uma criatividade muito boa. E que boa parte de tudo que é incrível, na real mora dentro da nossa imaginação, dentro de nós mesmas. E só me dando conta desse traço que eu mesma tenho, comecei a perceber que na vida adulta juntar mundos particulares dá muito trabalho. Depois disso eu pensei: poxa, então na verdade os começos são difíceis e não fáceis como eu tava uma vida inteira repetindo pra mim mesma.

Acho que é óbvio imaginar que no começo vamos ter mesmo que contar pro outro como somos, entender como o outro é, criar acordos, explicar o que funciona pra gente, ver se estamos dispostas ao que funciona pro outro. Mas, não sei se era tão óbvio pra mim que tudo isso é difícil pra caralho. Escrevendo eu até me sinto meio tola, mas vou seguir. Também sei que se relacionar é difícil, mas entender que é a partir do dia um que os desafios vão existir, tem me dando mais segurança pra expor meus desconfortos. Contraditório né, vou explicar.

Acho que essa ideia de começos fáceis, também me privou de colocar limites, até mesmo em relações casuais. Não tô falando de coisas simples e básicas, como camisinha, por exemplo. Tô falando de expor pro cara do sexo casual, que quando ele não me responde isso gera uma angústia. A trocar ideias bem cedo sobre o que me incomoda. Pq talvez, antes eu acharia que eu só poderia falar sobre isso com alguém que eu tinha uma relação. E que só a partir do momento que tivéssemos algo a mais [eu nunca sei definir como chama o “algo a mais”, mas a gente sabe vivendo] que eu poderia conversar sobre os desconfortos. E pensar que existe afeto sempre, e que é difícil desde o ínicio, me faz acreditar que também deve existir espaço pra conversar sempre.

Tendo relações dessa maneira eu percebo que os começos são difíceis e é exatamente nesses sentimentos que temos no ínicio que descobrimos se estamos dispostas ou não a aquelas dificuldades ali expostas. É gostando de alguém ao mesmo tempo em que vemos tudo que também não gostamos que a gente consegue se apaixonar pela pessoa e não por uma invenção ou uma projeção do que acreditamos ser ideal. Talvez o primeiro ano de uma relação seja essa grande luta de acordos e dificuldades. E imaginar que deveríamos estar vivendo uma relação fácil é exatamente o que não nós permite nos colocar de verdade pro outro. Ou enxergar o outro de verdade.

Reprodução da internet

Assisti uma série da netflix esses dias que se chama Treta, são aquelas séries que cada temporada tem um elenco diferente e uma história nova. Na segunda temporada o conflito gira em torno de dois casais heterossexuais, um mais jovem, de vinte e poucos anos e o outro um pouco mais velho, de quarenta e poucos. Numa cena em que a mulher mais velha conversa com o cara mais novo sobre brigas ela diz a seguinte frase: “Na verdade nos casais que não brigam, alguém sempre esconde alguma coisa. O lado ruim precisa aflorar em algum lugar.” [se vc assistiu a série sabe que a briga desse casal mais velho não é exatamente uma briga OK, mas achei interessante essa fala]. Porque em algum lugar sua sombra precisa existir, se ela não tem espaço em uma das suas relações mais íntimas, onde será que ela está?

Eu saí das minhas últimas relações, nenhuma delas virou um namoro exatamente, mas já nesse princípio de envolvimento, percebendo que os começos muito fáceis escondiam muitas sombras. E que os começos mais difíceis me deram muito mais combustível pra entender se aquele parceiro é alguém que vale construir um nós. E também foi dessas relações que eu saí mais lúcida. Eu não tô falando de paixão, de sofrer ou não com o fim, tô falando de enxergar o cara como ele realmente era. Ainda é um sentimento em descoberta, então eu pergunto pra vc, qual sua experiência? O que você acha sobre começos? Você acredite que eles são tão difíceis quanto os fins? Eu tenho acreditado que sim.

[observações importante: o corpo sente, o corpo fala, se escute sempre! Quando eu escrevo sobre relações, acho importante colocar essa observação: aqui falo de conflitos OK, as famosas dr’s, se vc se sente podada, oprimida, desacreditada e desconfortável. Grandes chances de vc estar numa relação tóxica e nesse tipo de relação não temos reflexão, procure ajuda, fale com alguém. Os começos são difíceis, mas eles também devem ser recheados de paixão, amor e sentimentos bons, se isso não acontece, então vc tem que considerar um outro começo.]

Nós vemos por aqui e por aí …

Beijos, abraços e sorrisos

Helena

Reprodução da internet
Ilustrei esse texto com pixações porque sinto que elas exemplificam muito a intensidade de escrever grandão o que vc sente e fazer o outro pensar.

Read the original on helenamerlo.substack.com

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