Vi um post do Arnaldo Gunzi essa semana que me bateu. Ele escreveu que Analytics e Data Science não servem pra nada se não mudar processo. E pra mudar processo, não basta entregar análise. Tem que comunicar, mostrar, entender as dores, encher o saco do pessoal. A frase que ele usava com o time dele de Projetos Analíticos era “Analytics é só uma desculpa pra mudar o processo.” Hoje, ele incluiu AI na frase.
Achei honesto demais. E me lembrou da buzzword mais usada do LinkedIn nos últimos anos. O famoso Insight acionável. Tá em toda descrição de vaga de analista. Todo gestor diz que quer. E quase ninguém sabe o que tá pedindo.
Insight é quando o número não bate com o que tu esperava ver (e pra saber o que esperar seu processo precisa ser previsível, conectando com o conceito de Deming). “Vendas caíram 12%” é só número. “Vendas caíram 12% num mês em que historicamente sobem 4%” começa a ser insight.
Sem contexto, número é só número. E contexto vem do frame que o analista trouxe pra mesa. Frame é o que tu acredita que devia tar acontecendo no negócio. Sem isso na cabeça, todo dado parece igual.
Acionável é outra coisa. Parece propriedade do insight, mas é propriedade de quem recebe. O mesmo número pode ser ouro pra uma pessoa e inerte pra outra. Quem recebe precisa de alavanca pra mexer no processo, permissão pra intervir, e jeito de convencer os outros. Sem essas três, o insight vira slide.
Por isso quando alguém pede insight acionável, na real tá pedindo cobertura. Cobertura é o número que tu segura pra mostrar quando alguém perguntar “por que tu fez isso?”.
É a blindagem antes da reunião difícil. Stakeholder já decidiu o que vai fazer. Mexer no preço, mudar fluxo, demitir time. Precisa do dado pra justificar antes que apareça alguém pra criticar.
O analista pasteleiro entra achando que tá descobrindo coisa. Tá montando álibi. Por isso ele se frustra quando entrega número limpo e nada acontece. Análise sozinha não move ninguém. Quem move é a comunicação, mostrar o desvio, sentar com o operador, encher o saco do stakeholder. A análise é o álibi. A comunicação é o motor.
Maior parte dos analistas inverte a proporção. Gasta 90% polindo álibi e 10% rodando motor. Depois reclama que nada acontece com os insights deles. Acontece exatamente o que eles plantaram.
A AI no discurso corporativo dos últimos dois anos parece evento histórico. Estruturalmente é repetição. Modelo preditivo, automação, agente, decisão AI-powered. Tudo entra no mesmo lugar do organograma que analytics ocupava antes. É só o próximo nome da cobertura.
O Gunzi tá certo. Analytics, AI, tudo isso, é desculpa pra mexer no processo.
Heitor Sasaki
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