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Psi da Massa · Feb 11, 2025

Delírio

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Gustavo Firmino | Psi da Massa · Psi da Massa

DELÍRIO

O delírio, muito pouco compreendido em sua essência e em suas formas de manifestação, parece ganhar mais espaço na espécie humana, especialmente no mundo habitualmente chamado de “Ocidental” do século XXI, através da maior liberdade em se falar sobre saúde mental. Segundo o DSM-V, manual de referência estatística e descritiva para transtornos psíquicos; delírio se caracteriza como “uma crença fixa e sem relação com a realidade, que acaba se tornando inalterável e sem fundamento para as faculdades racionais do indivíduo. É como se a pessoa em estado de delírio vivenciasse sintomas de perseguição, mania de grandeza, dentre outros, e os vivenciasse como se fosse a própria realidade. A pessoa em fase de delírio vive imersa dentro de seu próprio universo, que muitas vezes se vê ameaçado por tudo o que está de fora desse universo.

Diante da ideia anteriormente construída a respeito do conceito de delírio, podemos concluir que sua primeira definição faz menção a respeito de um transtorno psiquiátrico que merece atenção integral prestada a pessoas que possam vir a desenvolver episódios delirantes.

Mas veja, não é desse gênero de delírio que eu gostaria de tratar nesse texto. O que eu gostaria de tratar aqui é sobre o delírio cotidiano, o delírio da vida no século XXI. Gostaria de tratar de um delírio – que foi habituado a ser chamado de dia a dia – onde indivíduos humanos sequer têm assegurados os mínimos direitos, como o direito a dignidade, direito a segurança ou até mesmo o direito de existir. Quer dizer, humanos simples, humanos que não são “fidalgos”, pois estes últimos... ah, a coisa com eles é diferente.

Não é um delírio que em nossa época, com tantas tecnologias, saberes, riquezas etc., ainda haja indivíduos humanos que literalmente precisam revirar o lixo para terem o que comer? Sim, eu vejo isso como um grande delírio. Viver em um mundo onde se goza de privilégios desde o berço enquanto há quem sobreviva de revirar restos de comida é um grande delírio.

E veja como essa concepção de delírio, principalmente uma categoria de delírio bastante comum – o delírio coletivo – é bem semelhante a definição descrita no início do texto, que traz o desenvolvimento de uma ideia pautada na questão do transtorno e do sintoma. Vamos lá: “crença fixa e sem relação com a realidade”. Ora, quer exemplo melhor de pessoas com crenças fixas sem relação com a realidade do que multimilionários que nunca sequer souberam quanto custa um quilo de carne, ou até mesmo um quilo de café, ditarem os rumos de mais de 200 milhões de pessoas? Ou ainda pessoas que se deixam guiar pela mentalidade desses sujeitos apartados da sociedade, seguindo-os cegamente, com a vã esperança de um dia talvez chegarem a este patamar caso sigam toda a cartilha proposta por estas pessoas?

Prossigamos: “[...] que acaba se tornando inalterável e sem fundamento para as faculdades racionais do indivíduo.” Nesse estágio, o indivíduo em delírio perde completamente a noção racional de realidade. Transforma-se num ser que não consegue mais enxergar nada além de sua própria alienação, de sua própria realidade artificialmente projetada, e geralmente essa realidade nem sequer pertence a essas pessoas de fato, pois esse modelo de realidade é apenas mais um produto disponível no mercado, e de muita rentabilidade, diga-se de passagem. São terceirizadas, são produtos advindos de outros lugares. Essa mentalidade é incutida lentamente para que acreditem que o delírio também é problema delas, ou melhor, para que acreditem elas fazem parte da raiz do problema e ao mesmo tempo têm as ferramentas para resolver tais problemas. Ora, e não tem sido assim durante décadas, talvez séculos neste país? Elites que se perpetuam no poder causando delírios coletivos através da utilização de ferramentas ideológicas para estas finalidades de poder... ora, mas isso não é novidade no Brasil, não é mesmo?

E é assim que vivemos neste absurdo delírio coletivo. Onde se normaliza e se aceita o status quo de um país rico, que concentra a riqueza e condena os menos favorecidos a uma pobreza tão gritante e a uma dependência tão vil que ninguém é capaz de explicar ou de resolver. É um sistema feito justamente se maquiar de democracia, porém trucidando seu povo aos moldes dos piores sistemas autoritários do mundo – um verdadeiro delírio do qual não temos saída a não ser uma grande revolução cultural e social nesse país.

Esta revolução virá apenas com a união entre os povos. Quando todos perceberem que há problemas comuns a todos e resolverem se unir para que esses problemas sejam solucionados. A grande revolução cultural e social virá quando as pessoas se derem conta de que depende delas a grande mudança que esperam, ou melhor, o grande despertar desse delírio trágico.

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Read the original on gustavofirminocosta.substack.com

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