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A newsletter do GetOutside · Mar 29, 2026

A gente precisa aprender a respeitar

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Ale & Duda - GetOutside · A newsletter do GetOutside

Lay it on me de Vance Joy rolando no fone enquanto escrevo pra vocês!

Recentemente a gente participou de uma cerimônia muito tradicional na Zâmbia.

Até chegarmos na Zâmbia a gente nunca tinha ouvido falar desse evento, do seu povo, do seu líder e do que acontece lá. Ao chegar na Zâmbia a gente foi pesquisar o que poderíamos viver por lá e aí apareceu a Nc'wala, uma cerimônia onde um touro preto é sacrificado na frente de todo mundo, o sangue do touro é recolhido em uma tigela e levada até o chefe supremo para que ele beba o sangue quente.

Essa cerimônia é uma tradição do povo Ngoni, um povo que migrou do sul da África há algumas centenas de anos em razão de guerras entre os povos da região.

Quando eles estavam na região entre a Zâmbia e o Malawi, avistaram um eclipse solar e entenderam aquilo como um sinal de que eles haviam chegado no lugar onde deveriam se estabelecer.

A cerimônia Nc'wala, que envolve o sacrifício do touro preto e seu sangue ser bebido pelo chefe supremo é uma celebração à primeira colheita do ano. O sacrifício do touro é o ritual conhecido como Mlumunzu. Um touro preto, símbolo de pureza e força, é sacrificado diante de milhares de pessoas. O Rei Mpezeni, o soberano dos Ngoni, bebe o sangue fresco para sinalizar que ele é o canal entre os vivos e os ancestrais. Ele absorve a força do animal para garantir que a terra seja fértil e que o seu povo tenha o que comer. É um pacto de sangue com a natureza e com o passado.

Nós dirigimos da capital da Zâmbia, Lusaca, até a cidade de Chipata, que fica quase na fronteira com o Malawi. É lá que acontece a Nc'wala.

Nós não encontramos muitas informações sobre como funcionava o evento. Tem que comprar ingresso? É só chegar? Quanto tempo dura? Que horas começa?

No caminho até Chipata a gente achou um fotógrafo no Instagram que tava em Chipata e fazendo fotos muito legais do evento e seus preparativos. Enviamos uma mensagem e ele nos passou muitas informações, inclusive recomendou que fossemos muito cedo caso a gente quisesse entrar na arena. Sigam ele! Além de um baita fotógrafo é muito gente boa!

Achamos um camping, passamos a noite e no dia seguinte partimos cedo para o evento. Tinha muita gente, caos! Descobrimos lá que, na verdade, só convidados podem participar, que você precisava apresentar um cartão pra indicar em qual das duas partes do evento você ficaria, o VIP I ou VIP II. A gente não tinha cartão algum.

Depois de muita conversa, Brasil pra lá e pra cá, hello my friend etc, entramos no VIP I, o lugar onde a coisa toda acontece.

E lá ficamos por muitas horas vendo os guerreiros Ngoni e suas roupas de pele de leopardo se apresentarem em danças que imitam batalhas.

Tudo leva a esse momento. E tudo é bem visceral.

Durante as muitas horas de dança o touro preto já estava lá, amarrado em uma árvore. Quando a hora chegou, uns 8 homens começaram a provocar o touro até que um golpe fatal o atinge.

Eu não vou dar os detalhes, porque muita gente pode se incomodar. O sangue é levado até o chefe supremo para que ele beba, assim como um pedaço da carne, que é rapidamente assada em um fogo ao lado.

Eu poderia falar e mostrar muita imagem do que vimos por lá, mas vou parar por aqui.

Ontem foi pro ar o vídeo dessa experiência em nosso canal no YouTube e os comentários são variados e é aqui que quero entrar na parte do respeito.

Os comentários no YouTube e no Instagram são variados. A grande maioria elogiou o vídeo e como retratamos o evento, mas algumas pessoas não gostaram.

"Que cultura horrível", "Desnecessário”, “Eu passaria longe de tal cerimônia. Gente maluca!!”, “Desnecessário este vídeo, o canal de vocês parecia ser tão leve, achei que não precisava gravar este tipo de vídeo...”

Aí eu fiquei refletindo se responderia esses comentários e como responderia.

Dizem que a cerimônia existe desde o século 19. Em 1898 ela foi banida pelos colonizadores britânicos pelo receio do poder de mobilização dos guerreiros (deu medinho, é? haha) e só foi retomada em 1980.

Cabe ao Ale do Brasil chegar lá em 2026 e dizer que tá tudo errado? Eu acho que não. Faz sentido em 2026 ainda existir esse ritual? É necessário mesmo matar o animal na frente de todos? Faz sentido beber o sangue? Será que isso faz bem pra saúde?

Tem muitas perguntas das quais eu não tenho a menor capacidade de ter a resposta.

Há alguns anos eu escrevi um texto onde dizia que viajar te torna uma pessoa melhor, porque te faz ver o mundo de maneira menos preconceituosa. Aquela sua visão de mundo é só mais uma e estar na Zâmbia no meio de centenas de pessoas vestidas com pele de leopardo fazendo movimentos que eu não consigo replicar esperando um touro ser morto para que um velho sentado em um trono beba o sangue dele ilustra perfeitamente isso.

Eu fiquei com dó do bicho ao ver ele ser morto? Sim. Se você assistiu e também ficou, eu te entendo (só lembrando que a carne é aproveitada também, tá? Aquela picanha que você ama no churrasco vem do mesmo bicho e ele também precisa morrer haha).

Eu acho que faz sentido que um homem beba sangue de um bicho pra celebrar a primeira colheita do ano e que isso vai trazer fartura? Claro que não.

Mas quando eu assisto algo assim, seja presencialmente ou pela tela, concordando ou não, eu me coloco numa posição de respeito. Talvez em algum momento esse ritual seja banido novamente, dessa vez por respeito ao animal e não pelo medo de um colonizador, mas isso deve partir do próprio povo Ngoni.

Chamar as pessoas de maluca é um preconceito muito grande. Chamar a cultura de horrível também. Eu entendo o choque, eu respeito a opinião de achar desnecessário, mas eu prefiro me colocar numa posição de respeito e observar, entendendo que o mundo é muito mais do que aquilo que eu posso entender e conhecer a partir da minha visão.

Sobre achar que nosso canal era leve e que foi desnecessário gravar o vídeo: A gente viaja o mundo pra conhecê-lo e compartilhar as boas histórias pelo caminho. As vezes essas histórias são sobre como eu lavo roupa morando em um carro. Outras vezes são sobre cerimônias ancestrais no continente africano. O que a gente tenta mostrar é um pouco da nossa vida e um pouco do mundo e acho importante que isso fique claro (as vezes o óbvio precisa ser dito).

Você não vai gostar de todos os nossos vídeos, isso é natural e é um pouco o reflexo da vida. Nem tudo o que a gente vê na vida a gente gosta, nem tudo a gente concorda, mas precisamos respeitar.

Dito tudo isso, eu recomendo que você assista ao vídeo e tire suas conclusões com muito respeito. O link tá aqui:

Fora das telas, tem muita coisa acontecendo!

Lá na Comunidade GetOutside a coisa é muito movimentada e eu sempre vejo as mensagens que me mostram o que é uma comunidade. Você quer saber como tá o diesel na Argentina? Manda lá! Você quer saber onde alugar um motorhome na Espanha ou na Itália? Manda lá! Você quer saber até a cola pra usar no teto do seu motorhome? Não tem problema, manda lá! Eu sempre me surpreendo como as pessoas se ajudam com cada assunto.

Se você quer entrar na nossa Comunidade, clica aqui! É o lugar pra quem ama viajar, que sonha viver na estrada e em breve vamos ter uma baita novidade por lá!

A turma 5 do nosso curso de YouTube teve a dinâmica de análise às cegas e eu pude analisar o canal do Surf du Du. Ele tá compartilhando a jornada de um surfista iniciante até chegar ao Havaí. Eu analisei esse vídeo aqui e depois da análise ele postou um novo vídeo, esse aqui. Vai lá ver a diferença nos dois!

É isso galerinha, a gente vê vocês na próxima newsletter com algum assunto que bater por aqui de alguma forma!

Boa semana pra vocês!

Read the original on getoutsidebr.substack.com

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