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o diário · Nov 22, 2025

Fui a India conversar sobre IA com budistas e cientistas

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Geissy Araújo · o diário

“No alto de uma montanha recortada por caminhos sinuosos, os Himalaias se abriram diante de nós. Era uma imagem de uma beleza tão impressionante que parecia que mãos haviam me sacudido para despertar — um convite a fazer uma pausa em admiração, a respirar, a lembrar da quietude que carregamos dentro de nós, mas que tantas vezes perdemos na correria dos dias. Lembro-me de sentir, com imensa gratidão, que eu estava ali

Foi assim que comecei a escrita de um texto dedicado à experiência que tive na Índia em Outubro, quando participei do Diálogo entre ciência e tradição budista em Dharamshala promovido pelo instituto Mind & Life. Resolvi trazer alguns recortes traduzidos desse texto pra cá, pra tornar acessível aquilo que produzi baseado na minha vivência. Trago também novas reflexões, que não fazem parte do texto original em inglês, e que me permitem ir além na elaboração de pensamentos e sentimentos que compuseram esses momentos.

Tendo como pano de fundo o ano de 90º aniversário de Sua Santidade o Dalai Lama, fomos chamados a abraçar seu legado e seus esforços de vida em prol do florescimento humano, e a explorar como a ciência e a espiritualidade podem servir à humanidade. No primeiro dia do Diálogo, também fomos convidados a honrar aqueles que vieram antes — líderes e visionários que, ao lado de Sua Santidade, plantaram as sementes do Instituto Mind & Life: o cientista e filósofo Francisco Varela e o advogado-empreendedor Adam Engle. Juntos, sua visão e seu trabalho árduo ampliaram os horizontes da investigação científica, criando espaço para o surgimento de um campo inteiramente novo: a ciência contemplativa.

Como cientista e praticante, fazer parte desse evento foi um grande privilégio, não só pela possibilidade de discutir temas importantes como inteligência artificial e ética, mas por estar junto de amigos queridos, líderes no campo das ciências e tradições contemplativas e também por ter tido a honra de conhecer pessoalmente o Dalai Lama..e mais sobre isso virá abaixo…

Cada dia de nossa semana juntos em Dharamshala me convidou a uma contemplação mais profunda — desde as práticas matinais que iniciavam o dia até as caminhadas ao longo da trilha na floresta conhecida como kora, conversando sobre ciência, meditação e vida. Parávamos constantemente para apreciar as montanhas e seu poder de nos trazer de volta ao aqui e agora. Dharamshala é um lugar onde o fluxo de pessoas, carros, motos e animais se entrelaça — onde, à noite, as ruas fervilham de motoristas e comerciantes, freiras caminhando para casa, macacos saltando pelos telhados, vacas descansando nos cruzamentos e cães feridos à espera de um olhar compassivo. É um lugar onde os contrastes revelam o sofrimento e o florescimento humanos lado a lado.

Os dias começavam cedo e terminavam tarde, e a diferença de fuso horário (12:30h pra frente do meu fuso habitual) foi sentida muito mais na volta pra casa do que na ida. Seguindo prescrições rigorosas em relação à alimentação na tentativa de não adoecer, só comíamos comida bem cozida e evitávamos qualquer contato com frutas, verduras e comida de rua.

Na tarde do segundo dia do evento, Peter Hershock nos lembrou que “a existência individual é uma ilusão.” Somos constantemente e profundamente impactados pelos outros e por tudo o que nos cerca, incluindo a tecnologia e a inteligência artificial, mesmo quando tentamos, deliberadamente, não usá-las. Sua fala foi, para mim, um lembrete oportuno de nossa interconexão, interdependência e unidade num tempo em que é tão fácil sentir-se separado, diferente, fragmentado e com medo. Esse dia ficou especialmente marcado em minha memória pela poderosa prática de meditação conduzida por Jack Kornfield, que promoveu o encontro com versões atuais, passadas e futuras de nós e de uma outra pessoa na qual dedicamos um olhar atento e profundo por um tempo que pareceu impossível de ser medido.

Foto por Santiago Arau

Claro que essa noção de não-separação é uma das principais mensagens que Sua Santidade Dalai Lama ofereceu ao longo de sua vida. Em todos os Diálogos anteriores, ele esteve fisicamente presente todos os dias, no coração das conversas com cientistas e filósofos. Neste ano, sentimos sua ausência — e, ao mesmo tempo, sua presença através dos monásticos que carregam seu legado adiante, como Sua Eminência Khangser Rinpoche, Geshe Lodoe Sangpo, Geshe Thabkhe e Venerável Ani Choyang. Foi uma grande honra receber sua sabedoria compassiva sobre o tema deste ano. E, ao encontrar Sua Santidade no último dia, sentimos que ele estivera conosco o tempo todo.

Como neurociestista e psicóloga, o tema desse ano toca profundamente em aspectos da minha prática clínica e de pesquisa, já que a inteligência artificial faz parte da nossa vida sem nem mesmo percebermos ou até mesmo escolhermos, modificando como estudamos, trabalhamos e nos relacionamos (conosco e com os outros). Parece modificar conceitos, disposição afetiva e como pensamos sobre nós e sobre o mundo. E principalmente, ao mesmo tempo que parece nos conectar com tantas possibilidades, também pode nos afastar enquanto humanidade, tornando difícil estar perto lidando com a complexidade e as frustrações que vem das relações humanas.

Em uma cultura de urgência, a disponibilidade instantânea de respostas pode reforçar a ideia de que esperar é desnecessário. Eu me pego pensando na importância de esperar — de nutrir a vitalidade e o mistério que vivem no espaço entre a pergunta e a resposta, ou na pausa entre o momento de vulnerabilidade de um cliente e a resposta do terapeuta.

Mas em uma sociedade em que a eficiência e a produtividade imperam valores considerados de sucesso, a espera e o se demorar sobre as coisas perdem espaço. A impaciência passa a fazer parte da vida. Já reparou que até para abrir uma página na web alguns segundos incomodam? A tecnologia faz isso com a gente, nos acostuma a um novo ritmo, uma nova forma de se relacionar com o tempo que temos. E na sociedade do desempenho, como colocado pelo filósofo Byung-Chul Han em sua obra “Sociedade do cansaço", faz com que nossa capacidade de contemplação se perca em meio a necessidade de performar sempre mais, em menor tempo, na busca da melhor versão de si, como máquinas, não como seres humanos.

A tecnologia — e especialmente a IA — pode ter o potencial de aliviar o sofrimento e trazer grandes benefícios, sobretudo à medida que enfrentamos demandas crescentes sobre nosso tempo, atenção e corpos. Ainda assim, os monásticos nos desafiaram a considerar como essas tecnologias também podem nos privar do crescimento mais profundo que nasce da investigação dedicada e do pensamento crítico.

Ouço o medo entre colegas do campo da substituição do ser humano por IA e, dentro da clínica psicológica, os perigos de emaranhamento com essa ferramenta a ponto de promover quadros graves de saúde mental e ameaça a vida humana são reais. No entanto, há certos atributos humanos que máquina nenhuma (até os dias de hoje) pode alcançar. O uso de chatbots pode ser bastante útil para psicoeducação ou até mesmo para desenvolvimento de coping skills. Parece ser interessante em promover questões reflexivas e até dar um amparo a curto prazo, mas nós, enquanto humanos, precisamos mais do que uma conversa com uma máquina que soa empática, compreensiva e disponível.

Afinal, o que é fundamental nas relações humanas? O que promove mudança em quem busca ajuda em momentos de sofrimento? A relação terapêutica, alicerçada em empatia, compaixão e confiança, continua essencial. Anat Perry nos contou sobre sua pesquisa sobre empatia e IA. Em um dos seus trabalhos, ela elabora sobre Empatia e como ela pode ser compreendida em 3 dimensões: cognitiva, envolvendo o reconhecimento e compreensão do estado emocional do outro; emocional ou afetiva, que envolve não só a compreensão, mas o compartilhar os afetos, mantendo ainda uma diferenciação de si e do outro; e motivacional., geralmente associada a compaixão, que pode nos mobilizar para ações destinadas a aumentar o bem-estar daquele que sofre. IA parece entregar uma experiência de empatia cognitiva, mas falha nas outras dimensões, talvez por faltar aquilo que temos de mais humano: presença, experiência vivida, subjetividade e recursos atencionais limitados.

Ao recordar aquela semana em Dharamshala, volto a um dos momentos mais inefáveis da minha vida, que diz muito sobre a força de estar em presença de um ser humano que cultiva compaixão como bússula da sua existência: o meu encontro com Sua Santidade, o Dalai Lama. Nesse encontro, regado ao silêncio e a um olhar profundo nos olhos um do outro, recebi um dos maiores ensinamentos que vão além do que qualquer linguagem poderia conter ou descrever. Naquele momento, em que tive a sensação de que o tempo parou, o espaço se expandiu, fui inundada por um profundo sentimento de amor e compaixão, me relembrando da nossa natureza infinitamente amorosa e compassiva, que muitas vezes é esquecida em meio ao barulho dos dias.

Deixei o Diálogo com mais perguntas do que respostas — mas uma coisa me parece clara: se a IA deve servir ao florescimento humano, talvez o chamado ético à ação não seja apenas regular a ferramenta, mas proteger o que nos torna humanos — trabalhar nossa liberdade de atenção e intenção, e cuidar de nossas mentes e dos valores que estão moldando essas tecnologias. Me pergunto também como integrar e manter tudo aquilo que aprendi naquela semana, especialmente no último dia, com esse encontro que me tocou profundamente e me convida a olhar melhor e reconhecer o que já somos, não o que falta. Falei sobre isso no último episódio da segunda temporada do encontrafluxo, no qual compartilho algumas reflexões dos últimos encontros do podcast.

Por fim, em nossa pressa para dominar o poder da IA, espero que não percamos nossa capacidade de pausar, esperar, sentir, nos relacionar, nos comover, estar com o desconhecido. Que possamos preservar a profundidade e o mistério que nenhum algoritmo é capaz de replicar.

Read the original on geissy.substack.com

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