Sábado de manhã, meados de setembro, na costa do Pacífico, estado da Califórnia, o sol se esconde por trás das nuvens que deixam alguns raios chegarem a nossa pele mesmo sem senti-los. As montanhas que parecem proteger a pequena praia que escolhemos para passar o dia adicionam beleza ao lugar. O vento sutil chega para nos lembrar o movimento do ar, que nem tão forte, nem tão fraco, compõe o ambiente perfeito para experimentar frescobol em terras americanas pela primeira vez. Convido minha sobrinha para jogar uma partida daquilo que pouco pratiquei na vida, mas que é parte da minha cultura e com muito orgulho trouxe para os lados de cá. Ensino o que sei e decidimos nos aventurar nesse experimento de nos colocar em coisas novas. Isso foi, no mínimo, divertido. Entre bolas tão altas que saltos eram incapazes de capturar e jogadas tortas com raquete voando junto, nos rendeu boas risadas e um bom exercício pro corpo e pra coordenação motora. Como duas amadoras que não passavam de três ou quatro jogadas consecutivas sem deixar a bola cair, chamamos a atenção de um senhor que passava e se aproximou dizendo: “desculpa incomodar, posso dar uma dica?". Olhamos uma para a outra e concordamos que certamente precisaríamos de ajuda. Ele então, muito empolgado e com tom professoral, começou a nos falar sobre o ângulo do punho, a pegada na raquete, a atenção na bola, a força requerida, a posição dos pés, com base aberta e perna contrária a da mão que segurava a raquete na frente, para auxiliar no equilíbrio e na distribuição de força. Ele realmente parecia saber sobre o que falava, então pergunto: então você joga frescobol? ele disse: sei um pouco sobre tênis. Entendi então que ele assumiu que estávamos jogando tênis na praia, e suas dicas, inclusive a de deixar a bola bater no chão, representavam diferenças importantes no nosso jogo que ele não se deu conta. E fazendo uma pausa aqui na história para te contar sobre o frescobol, ele surgiu em Copacabana no Rio de Janeiro na década de 40. Um jogo adaptado do tênis, mas com raquete de madeira para sobreviver à maresia, com diversas teorias sobre sua criação, ganhou adeptos rapidamente ao longo da orla carioca. De acordo com uma rápida pesquisa que fiz sobre o assunto:
“O nome Frescobol é derivado do lugar onde se Joga, ou seja: a “beira d’água”, o lugar mais “Fresco” da praia.
O Principal Objetivo deste jogo é fazer sequências de jogo sempre mantendo a bolinha no ar pelo maior tempo possível Em um Jogo de Frescobol, ambos ganham e, ninguém perde, porque do outro lado não existe adversário e sim um Parceiro”
Achei bonito isso da parceria, da não competitividade entre os envolvidos e do que é necessário para jogar o jogo: muita presença.
Mas voltando ao senhorzinho que nos parou na praia para nos ensinar sobre tênis. Ele dizia que deveríamos segurar a raquete em um ângulo de 45 graus, a bolinha tinha de ser tocada com gentileza, mas com precisão, o espaço entre os jogadores deveria ser maior à medida que as habilidades eram maiores. Primeiro joguei com ele, de fato, conseguimos mais sequências do que tinha alcançado antes. Depois foi a vez da minha sobrinha, que fez 18 sequências como recorde em todo o dia! No retorno ao jogo com ela, não passamos de 12, mas notamos o quanto fomos aprimorando não só a forma como tocávamos na bola, mas como nos conectávamos uma a outra. E penso como é isso realmente que acontece quando vamos repetindo as coisas, seja atividades ou encontros com pessoas, a dinâmica muda, a relação muda, o vínculo muda e as coisas parecem mais fáceis (na maioria das vezes). Ele continuou nos acompanhando por um tempo, com palavras motivacionais e estímulos para prosseguir. Em um momento ele fez uma pergunta: “Quanto tempo vocês acham que a partida mais longa de tênis levou? Eu, como uma pessoa que sei zero sobre o assunto, disse: duas horas! Ele para por alguns instantes, procura em seu bolso sua carteira como quem busca um alfinete em meio a um palheiro. Depois de alguns minutos ele encontra o que procurava e nos apresenta um cartão do Guinness Book, o livro dos recordes, com o seu nome como recordista mundial em 1997. Sim, o cara jogou por 9 horas e 15 minutos, um total de 15.464 toques na bola com o seu parceiro da época. Naquele momento fui tomada por um maravilhamento pelo fato aleatório de ter encontrado um recordista mundial de tênis enquanto jogava frescobol em um domingo de manhã. Eu tinha muitas perguntas, minha curiosidade borbulhou como água fervente e eu queria saber mais da vida dele, mas ele estava de passagem e me contetei pela aula e pela oportunidade de conhecer alguem com tamanha determinação a ponto de manter uma sequência de mais de 9 horas jogando (eu pensei, como que ele bebia água? e se tivesse que atender suas necessidades e ir ao banheiro? ele comeu nesse tempo? o que o levou a tamanha disciplina? como ainda é pra ele ter isso como legado?) … Enfim, guardei essas perguntas e agora fantsio as suas respostas. Mais tarde fui procurar sobre ele na internet e descobri que ele começou a jogar aos 19 anos e aos 22 precisou abrir mão do seu futuro promissor como atleta profissional devido a um trágico acidente que sofreu. Desde então ele vem ensinando sobre tênis (inclusive a duas desconhecidas que tentavam descobrir como manter a bolinha entre as raquetes sem cair rs). Depois de ler sobre sua história, entendi um pouco mais sobre sua paixão pelo esporte e sua moticação em compartilhar o que sabe…As vezes a vida nos coloca em situações devastadoras e como lidamos com isso faz uma diferença danada…
Em meio a tanta coisa digna de ser escrita, contada e registrada, escolhi esse encontro pra trazer aqui no diário…escolhi falar sobre as surpresas inusitadas (e aleatórias) que a vida nos guarda e de tantas histórias interessantes que as pessoas constroem com as escolhas que fazem. Isso pra mim me convoca a uma atitude de muito respeito a quem encontro, mesmo sem conhecer, pois certamente todos nós temos um tanto para contar, se orgulhar e ensinar.
Semana passada publiquei mais um episódio do encontrafluxo, o podcast onde encontro amigos e converso sobre a vida e temas que atravessam nossa existência. Meu convidado da vez foi um amigo querido que conheci 18 anos atrás, Rêncio Bento, que dividiu comigo anos do curso de fisioterapia que nos permitiu construir memórias deliciosas de lembrar. Falamos sobre amizade na vida adulta e a conversa ta gostosa demais de ouvir… se quiser conferir você pode ouvir aqui e assistir aqui .
Deixo aqui uma foto da praia testemunha do encontro inusitado. A foto é de outro dia, em um pôr do sol, com céu limpo e sem nuvens que me deixou em estado de awe por uns instantes. aprecie.

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