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Me vê mais uma newsletter, por favor · Mar 31, 2026

Ode ao meu dente torto

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Gabriela Lagemann · Me vê mais uma newsletter, por favor

Interrompemos a programação normal desta newsletter para homenagear meu dente torto que, em breve, se tornará um incisivo padrão.

Sim, caí no conto da dentista (amo vocês, Thayla e Djé <3 ) e começarei a usar aqueles alinhadores transparentes que, até onde sei, organizam a arcada dentária em pouco tempo e evitam o sorriso adolescente na boca de uma mulher com trinta (e cinco!) mais.

Estou animada com o processo? Não, nem um pouco. É caro, tem encheção de saco envolvida, tenho preguiça de escovar os dentes depois de cada refeição e ando meio apegada aos desalinhos. Acho revolucionário (e muito chique) quem pode e, ainda assim, não sucumbe aos delírios estéticos do nosso tempo.

Contudo, mesmo não tendo nada contra essa presa sinuosa no sorriso, fiquei sabendo que dentes tortos e envelhecimento não se mastigam muito bem. Segundo o Google, não corrigir os dentes pode aumentar o risco de cáries, doenças gengivais, bafo de leão, sensibilidade, dores de cabeça, estalos na mandíbula e desconforto ao mastigar.

E tu já se imaginou envelhecendo apenas à base de sopa???

Também quero prevenir possíveis perdas dentárias e, consequentemente, ter que gastar um carro zero quilometro com implantes ou, pior, não ter dinheiro para isso e depender da boa vontade de um cuidador para colocar a dentadura na minha boca todos os dias.

Velhinha desbocada, sim. Desdentada jamais!

um dente à frente do seu tempo

Por mais que o bonitinho continuará no mesmo lugar após esse processo, sinto que preciso me despedir da sua personalidade transloucada. Não lembro quando o mimoso se revoltou contra os seus irmãos retilíneos, mas tenho admiração pela coragem que teve ao dançar sozinho como se ninguém estivesse olhando.

Para celebrar essa despedida alinhada com uma bocada poética, escrevo aqui uma Ode, que não segue a regra de estrofes simétricas, àquele que se uniu ao meu universo bucal para morder pescoços, beijar bocas duvidosas, morder pescoços, lamber pic…olés, engolir sapos, soprar olhos ciscados, mostrar a língua, comer vento, fazer fofoca, segurar risadas impróprias, fazer careta e até melhorar meus textos quando os leio em voz alta na surdez da minha casa.

Ao meu dente torto, oblíquo e dissimulado, ofereço essa prazerosa e suave mordida:

gosto de morder superfícies
para depois ficar encarando
a marca tortinha do meu dente
dentro da carne brevemente ferida

analisando essas arcadas
volto à cozinha onde cresci
saboreando a lembrança da cumbuca na mesa
apinhada de frutas de cera

enquanto jurávamos amizade eterna
as amigas e eu mordíamos
essas maçãs, peras e laranjas
sentindo o gosto velado das primeiras vezes

as frutas de mentirinha
mais mordidas do que inteiras
foram jogadas no lixo pela minha mãe
assim como a distância fez com os laços ainda verdes

alguns dentistas pretendem
desentortar meu sorriso oblíquo
mas me recuso com a vaidade
de um sorriso de poucas amigas

afinal
sem a marca angulosa da dentada que dou nas superfícies
é capaz do meu paladar distraído esquecer
que nem tudo que é gostoso deveria ser colocado na boca

  1. Assistir vídeos de pessoas experimentando ovos de páscoa é a minha atividade preferida para passear pela quaresma.

  2. Organizei umas fotos antigas (e espalhadas caoticamente dentro de uma gaveta na casa dos meus pais) em um único álbum de fotografias azul bebê. A Marie Kondo que habita em mim saúda a Marie Kondo que habita em você!

  3. Comecei a fazer aulas de Rebolation e estou descobrindo o poder de uma pelve marombada.

  4. Depois de muitos anos na seca, o carnaval de rua foi retomado na cidade onde moro. Não é nenhuma Sapucaí, claro, mas foi muito divertido vibrar com as baterias, assistir as escolas de samba desfilando e voltar para casa com aquela dor gostosa nas pernas, que só quem brinca carnaval sabe como é.

  1. O homem que mais incomoda durante o ano é o que mais se empenha nas homenagens do Dia da Mulher.

  2. Realizando exames de rotina, ainda fico boba com a criatividade do plano em dificultar o acesso aos serviços básicos de saúde.

  3. O dia mais fraco no grupo do meu condomínio:

  1. Equador (Miguel Sousa Tavares) - agradar ao rei e perder-se entre duas ilhas.

  2. Ressuscitar mamutes (Silvana Tavano) - pisar forte para amassar as dores de um luto.

  3. Rinha de galos (María Fernanda Ampuero) - o horror mais chocante é aquele que acontece longe do sobrenatural.

Lembrar de respirar fundo e, assim, manter os dentes dentro na boca.

O áspero das faltas é meu primeiro livro e foi indicado ao Prêmio Jabuti 2025. Além de chique e gostosinho de ler, ele ficará belíssimo na sua estante. Você pode comprá-lo aqui ou falando diretamente comigo pelo Substack ou Instagram.

Se você também se interessa por poesia em tempo (quase) real, clique aqui.

Read the original on gabilagemann.substack.com

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