desde que o ser humano se conhece por gente, a cultura, o núcleo familiar, as interações sociais das amizades e das comunidades às quais pertencemos influenciam a formação do nosso gosto pessoal. não há sujeito fora do mundo, afinal.
ok, esse nunca foi mesmo um trabalho meramente introspectivo e individual. mas o que acontece quando praticamente todo o seu “gosto pessoal” passa a ser moldado — e manipulado — pela aba do For You?
a partir do momento em que o botão gostar/curtir (👍) foi inventado — era 09 de fevereiro de 2009 em uma terra distante chamada Facebook — alguma coisa começou a se transformar drasticamente na manutenção do que chamamos de gosto. e suas escolhas pessoais nunca mais foram as mesmas.
não podemos começar a tratar desse tema sem retomar o pensamento de Pierre Bourdieu, nome que vem sendo tão citado ultimamente por quem se propõe a tentar entender o nosso momento cultural; um sujeito que vem pensando sobre essa temática bem antes dos tempos minimamente online.
o sociólogo francês foi um dos maiores pensadores a teorizar sobre a noção de gosto. para ele, o gosto classifica e também é classificado, sempre numa profunda relação com determinado momento histórico-cultural. gosto é, acima de tudo, um instrumento de distinção social.
seu estilo de roupa. seu gênero musical ou literário favorito. o tipo de comida, de filme, de arte e estética que você gosta ou não gosta.. ou detesta. arquitetura brutalista? escutar jazz? café gourmet? decoração em tons bege e terracota? aulas de pilates, hyrox ou grupos de corrida?
os estetas vão chiar, mas Bourdieu diria que nada disso tem bom gosto em si. afinal, para o sociólogo, o gosto se dá a partir das relações sociais, nunca dos próprios objetos em sua suposta pureza. estes funcionam, na verdade, como marcadores que só têm significado porque existe uma comunidade que reconhece e legitima tais significados.
é o conjunto de conhecimentos, repertórios, códigos de comportamento e sinais de gosto que confere então distinção, legitimidade e pertencimento a determinados grupos. e tal conjunto pode estar mais ou menos relacionado à posse de dinheiro e bens materiais, diferenciando assim Capital Cultural do Capital Econômico. e nem vamos entrar agora na polêmica do Capital-Conteúdo, blza? 🫨
o século XXI se debate em uma espécie de tirania do bom gosto, uma cultura superinvestida — ou entorpecida? — pelo que seria um refinamento do gosto. são infinitas camisetas brancas ou pretas com logotipos de grifes, ou radicalmente básicas, sem falar nas tantas tote bags e bolsas dedicadas basicamente a transportar garrafas térmicas ainda mais caras que as sacolas, os blends de chás que beiram a perfeição, as playlists intermináveis. tudo pode ser mais elevado, premium e mais caro. a questão é que, nesse espesso caldo cultural, será que ainda é possível afirmar que gosto não se discute?

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