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Flávia da Lousa · Apr 7, 2026

O trabalho invisível como condição para o resultado visível

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Flávia Holanda Gaeta · Flávia da Lousa

Oi Oi,

A leitura do Frankenstein de Mary Shelley e a produção cinematográfica de Guillermo Del Toro tem ocupado minhas semanas e quero compartilhar com vocês excertos de pensamentos.

Jacob Elordi tem 27 anos e acaba de entregar uma das performances mais comentadas do cinema recente. No Frankenstein de Guillermo del Toro, aparece como criatura com uma fisicalidade surpreendente, na combinação de ternura e violência que parece ter sua própria lógica interna. Sobre isso, em entrevista, Jacob responde com naturalidade: a irmã é bailarina. Dançou dos 2 aos 26 anos, na Alemanha. Ele cresceu dentro desse movimento. Absorveu, sem perceber, uma gramática do corpo que anos depois apareceria em um set de filmagem, em um pântano coberto de neblina, com um figurino de criatura. A formação que mais dura raramente acontece por instrução direta. Ela vem por imersão, por repetição, por convivência prolongada com algo que admiramos antes mesmo de compreender. Pois muitas das nossas reações e comportamentos invadem o universo oriundos de camadas do subconsciente, daquilo que não sabíamos que nos ocupava.

Frankenstein (2025)

Foi lendo Esperando Godot, venerada peça de Beckett, que Jacob descobriu que queria atuar. Uma peça em que dois personagens aguardam alguém que nunca chega, numa estrada, sem saber exatamente pelo que esperam. Um texto sobre o vazio, sobre o que fazemos com o tempo enquanto a vida passa, e que também me impactou quando li nos meus 20 e poucos anos. Esse encontro, sozinho com um livro, reorganizou tudo para ele. Enquanto a irmã dançava no palco e Beckett trazia o silêncio da espera, Jacob se tornava o ator que apareceria anos depois. A formação invisível tem essa característica: ela se estrutura na observação de si mesmo, sem anúncios e pirotecnias.

Mas demanda solidão criativa. Mary Shelley escreveu Frankenstein isolada no campo, em um ambiente de introspecção e diálogo intelectual denso. Tinha 18 anos. O Victor Frankenstein, personagem principal do livro, constrói sua obsessão nos anos de reclusão dos estudos, naquela vida bucólica. Walton, o marinheiro que abre e fecha o romance, escreve cartas para a irmã de dentro de uma solidão que deseja profundamente ser partilhada. O livro inteiro é habitado por figuras que pensaram sozinhas e produziram a partir disso.

A entrevista de Jacob sobre a bailarina e a descoberta da profissão converge com outro momento decisivo sobre o qual muito penso: a experiência de prometer algo a si mesmo e bancar essa promessa no tempo. Aos 15 anos, Jacob diz à mãe que um dia a levaria à cerimônia do Oscar. Quando o pai questiona sua escolha em ser ator, reconhecendo que é uma profissão que pode simplesmente não se tornar factível, se ele tem um plano B, responde que o plano B é… o Oscar. O que soa como bravata adolescente é, na verdade, uma formulação radical de foco. O plano B é abolido não por arrogância, mas por coerência.

É a partir de tudo isso que me pergunto: o que fazemos quando ninguém está vendo?Um plano A não se confirma no momento do prêmio, da estreia, da capa de revista. Mas nos anos em que quase nada acontece para o olhar alheio: nas manhãs em que o texto não anda, nos treinos em que o corpo não responde, nas audições que terminam em silêncio. O trabalho invisível é meio para nossos sonhos.

Frente a isso, como você encara a solidão? Jacob se descobre ator lendo Beckett. Mary Shelley transforma uma temporada de isolamento em um romance que atravessa séculos e inaugura uma linhagem inteira de ficções científicas. Victor Frankenstein passa anos encurvado sobre estudos e experimentos, e desse mergulho faz o maior avanço (repleto de uma pauta moral e ética) da filosofia natural, nasce uma criatura que rompe qualquer cognição sobre o poder e a natureza humana. Walton escreve cartas de um mar gelado na tentativa de traduzir para alguém o que está vivendo, desejando de seu âmago um amigo sensível com quem dividir o que lhe transborda. Em todos esses casos, a solidão é um espaço-laboratório.

É nesse laboratório que o plano A se define. Há momentos da vida em que a pergunta “e se não der certo?” parece inescapável. Ela vem da família, de amigos, de colegas que observam de fora. O que diferencia a complacência de um compromisso verdadeiro não é o grau de otimismo, e sim o tipo de decisão que fazemos a partir dessa pergunta. Complacência é acomodar o sonho à medida do possível. Compromisso é ajustar o método à altura do sonho.

Quando digo que não tenho plano B, falo exatamente disso. Toda a energia intelectual, emocional e prática está concentrada em um projeto de vida que reconheço como vocação. As dúvidas chegam, o cansaço chega, as contingências chegam. E ainda assim, o que existe é exclusivamente o plano A, em versões mais difíceis, mais lentas, mais exigentes, mas ainda e só ele.

As redes sociais entram nessa discussão pela porta da consistência. Jacob diz que não tem relação com as redes sociais, sua relação é realizar projetos, fazer acontecer. Há uma recusa da performance estritamente midiática, do entretenimento descolado da vida real. A presença pública passa a ser extensão do trabalho, não um teatro elaborado e paralelo para fazer parecer sucesso.

Gosto da imagem que se forma aí: um feed que se repete, um enquadramento recorrente, uma pessoa que aparece sempre nos mesmos lugares, falando dos mesmos temas, insistindo na mesma pesquisa. A monotonia pode ser, no fim das contas, a marca de um plano A em curso.

Jacob Elordi

O trabalho invisível é isso: repetição consciente a serviço de um projeto que ainda não se vê inteiro. A bailarina que todo dia revisita o mesmo movimento, o ator que volta ao texto quando o entusiasmo já abaixou, a autora que reescreve um capítulo inteiro porque aquela versão não está à altura do livro que imagina: horas que formam quem trabalha.

Mary Shelley sabia que escrevia algo que a ultrapassava. Jacob intuiu, ainda adolescente, que seu lugar era o palco e a câmera. Beckett construiu uma peça inteira sobre o que se passa enquanto se espera, não sobre a chegada de quem é esperado. Em todos esses casos, a mesma pergunta retorna:

o que você faz enquanto ninguém está vendo?

Quando um resultado aparece, tende a ser interpretado como ponto de chegada. A verdade é que ele é apenas a parte iluminada de uma estrutura que permanece em sombra. O prêmio, o convite, o reconhecimento, a cena bem executada: tudo isso é consequência.

Plano A é o nome que dou a esse compromisso. Quem vive nessa lógica reconhece que haverá hesitações, perdas, tentativas que não avançam. Reconhece também que não existem alternativas realmente equivalentes. O plano B, nesse contexto, não é uma possibilidade.

A pergunta que fica, então, é menos sobre o tipo de resultado que você deseja e mais sobre a qualidade do trabalho que está disposto a realizar quando ninguém estiver olhando. Porque é na solidão dos processos, nas repetições, nas escolhas diárias que ninguém monitora, que o plano A se torna, de fato, a única opção.

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