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Flávia da Lousa · Mar 24, 2026

Fama e relevância

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Flávia Holanda Gaeta · Flávia da Lousa

No início do ano, o presidente da Liga Independente das Escolas de Samba declarou que Virginia Fonseca era a mulher mais relevante do Brasil naquele momento. A frase causou controvérsia imediata. O que ele quis dizer, como o contexto deixava claro, era relevância midiática: nenhuma outra mulher concentrava aquele nível de engajamento e exposição. A Grande Rio a escolheu como rainha de bateria por exatamente esse critério. E não há dúvida de que ela domina esse jogo com competência.

Mas a palavra relevante utilizada praticamente como sinônimo de fama gerou um desconforto.

Fama é escala de exposição. Relevância é profundidade de impacto. As duas podem coexistir, e às vezes coexistem, mas seguem lógicas distintas. Alguém pode ser visto por milhões e não alterar em nada a trajetória de quem o assiste. E alguém pode ter um alcance menor e reconfigurar completamente a forma como uma pessoa pensa, decide, age.

O problema não é a Virginia. O problema é o que o episódio revela sobre o critério que usamos para eleger quem merece atenção.

Quando elegemos como mais relevante alguém cuja estratégia é baseada em consumo, exposição e ganho fácil, estamos fazendo uma escolha. E toda escolha tem consequências, especialmente quando ela se repete diariamente, em pequenas doses, dentro de um feed.

Existe algo que tenho pensado com frequência: os lugares que frequentamos com regularidade nos educam pela repetição. E o ambiente virtual, ao contrário do que muitas vezes imaginamos, funciona da mesma forma que o ambiente físico.

Quando você escolhe seguir alguém, está escolhendo uma companhia. Uma companhia com quem você interage diariamente, mesmo que de forma unilateral, mesmo que sem nunca ter trocado uma palavra. Você absorve a linguagem, os valores, as prioridades, os padrões de comportamento daquela pessoa. Sem perceber, vai sendo educado por repetição. Educado?

Se você acompanha alguém que compra muito, uma ansiedade de consumo vai se instalando. Se você acompanha alguém com rotina de leitura e pensamento estruturado, algo nessa direção vai se tornando mais natural para você também. O ambiente molda. Sempre moldou. A novidade é que agora esse ambiente é escolhido ativamente, todos os dias, na palma da mão.

O que fazemos repetidamente nos forma. O ambiente virtual é um gerador de hábitos que opera abaixo do nosso nível de consciência. A maioria das pessoas não percebe que está sendo moldada. Mas talvez perceba os efeitos: uma inquietação difusa, uma sensação de inadequação, um desejo de consumo que não existia antes, ou, no outro extremo, uma motivação crescente, uma curiosidade que se alimenta, um senso de direção que vai se afirmando.

Elizaveta Porodina

A diferença está em quem você escolheu seguir.

Não estou propondo ascetismo digital nem uma hierarquia de quem merece ser famoso. Estou propondo uma pergunta simples: as pessoas que você acompanha diariamente te aproximam ou te distanciam de quem você quer ser?

Essa pergunta muda a lógica da escolha. Deixa de ser uma questão de gosto e passa a ser uma questão de projeto. De intencionalidade sobre o que entra na sua cabeça, todos os dias, em pequenas doses.

O ambiente virtual também tem que ser tratado como uma companhia que escolhemos ter. E como toda companhia, ele nos transforma, nos dá forma, define parte do que vamos nos tornar.

Escolher melhor é, em alguma medida, viver melhor.

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Read the original on flaviadalousa.substack.com

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