Oi oi,
Em 1727, em uma Sexta-feira Santa, foi executada pela primeira vez na igreja de São Tomás, em Leipzig, na Alemanha, uma obra que mudaria a relação da música com o sagrado. A Paixão Segundo São Mateus, composta por Johann Sebastian Bach. O escândalo foi imediato: ministros e damas se entreolharam; uma viúva devota, segundo o relato da época, teria dito “Deus, protegei vossas crianças”; e o Conselho da cidade, pouco depois, decidiu reduzir os honorários de Bach. O novo contrato passou a prever que a música nas igrejas devia ser breve, simples, e jamais se parecer com ópera.
Recupero essa cena porque ela contém uma intuição importante sobre o nosso próprio tempo. Por que tantas instituições, ao longo dos séculos, tentaram limitar aquilo que hoje chamamos genericamente de entretenimento? A resposta é inquietante: quanto menos controle uma instituição tem sobre uma comunidade, pior para a doutrinação dessa comunidade. A música, o riso, a dança, todo estímulo que despertasse no fiel sensações capazes de escapar à liturgia, era visto como ameaça à autoridade. A música, portanto, precisava ser pequena para não rivalizar com a palavra.
Quem hoje nos oferece essa leitura é Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano residente na Alemanha, em seu ensaio Bom Entretenimento, lido há alguns meses no Clube de Leitura Lousa®. Han mostra como, a partir desse conflito entre Bach e o Conselho de Leipzig, a história do entretenimento ocidental se construiu como disputa permanente. De um lado, a instituição tentando proteger sua mensagem dos estímulos que pudessem desviá-la. De outro, o estímulo encontrando, época após época, formas cada vez mais sofisticadas de capturar o desejo humano.
Durante séculos, a estratégia de controle das instituições passou pela ausência. Proibir a música, a ópera, a comédia, a dança. Limitar todo estímulo que pudesse desviar o fiel da palavra. Era pela escassez de entretenimento que se mantinha o público obediente.
Hoje a engrenagem se inverteu. O controle agora se faz pela presença total do entretenimento, pela ubiquidade, palavra que Han usa logo na primeira linha do livro. O entretenimento está em todo lugar ao mesmo tempo, oferecido em todas as plataformas, em todos os formatos, durante todas as horas do dia. Não cabe mais, no cotidiano contemporâneo, o tédio criativo, a pausa sem estímulo, o tempo vazio em que o pensamento pode finalmente acontecer.
Aqui está o ponto que me parece mais difícil de aceitar: já não dá para viver fora do entretenimento. Desde o século XVII, a fuga deixou de ser uma opção real, e nestes nossos anos ela se tornou ainda menos viável. Quem se isola fica invisível, quem não aparece nas plataformas não é lembrado, quem não produz alguma forma de presença pública não é identificado, nem profissionalmente, nem afetivamente, nem socialmente.
Diante desse cenário, a pergunta antiga sobre estar dentro ou fora perdeu o sentido. Estamos dentro. Todos.
E quando aceitei isso, passei a defender que o questionamento certo para o nosso tempo é outra: em que medida estou dentro? Em que medida me deixo capturar pelo próximo estímulo? Quanto da minha pausa, da minha escolha consciente ainda me pertence? Sigo decidindo o que vejo, o que consumo, o que repito, o que reproduzo, ou já fui rebaixada àquilo que Han chama de existência pré-reflexiva, aquela que apenas responde ao estímulo seguinte sem mediação alguma do pensamento?
A pergunta sobre a medida é a única que ainda nos pertence porque é a única em que ainda podemos efetivamente agir. Não podemos sair do mundo. Podemos, com algum esforço, ajustar a nossa posição dentro dele.
A resposta que venho amadurecendo, e que se firmou em mim ao longo dos anos, passa por uma palavra que uso com cuidado: lucidez.
Lucidez não é dom, nem estado natural, não é privilégio de quem tem mais tempo livre ou mais formação acadêmica. Lucidez é conquista. Constrói-se, cultiva-se. Exige o trabalho deliberado de quem decide que não vai entregar inteiramente o próprio tempo, o próprio desejo, a própria capacidade de pensar, ao primeiro estímulo que aparecer na tela.
Conquistar lucidez significa aceitar que o entretenimento é parte irreversível da vida contemporânea, que dele saem vantagens reais para quem aprende a usá-lo, e ao mesmo tempo recusar a entrega total. Significa permanecer dentro com pensamento próprio, em vez de cair fora por nostalgia ou pose. Significa usar o instrumento sem se converter no instrumento.
A lucidez é, no fundo, a única forma de liberdade que ainda nos cabe construir em um mundo em que quase tudo já foi capturado de antemão.
Han fala do homo dolores, o homem da dor, aquele que penhora a própria felicidade em troca de uma bem-aventurança qualquer. A imagem é dura e necessária. Penhoramos, todos os dias, alguma coisa em troca de outra: atenção em troca de dopamina, profundidade em troca de visibilidade, tempo de vida em troca de presença online, a paz do dia comum em troca da promessa contínua de algo melhor logo na próxima rolagem da tela.
A pergunta que Han deixa em aberto, e que prefiro deixar com você nesta edição, é dupla: o que você está penhorando hoje? E considerando o que recebe em troca, vale a pena?
Seguimos na próxima.
Um abraço,
Flávia Gaeta.

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