Oi oi,
Quando li pela primeira vez que Byung-Chul Han, o filósofo sul-coreano residente na Alemanha, mantém três pianos em casa e toca todos os dias, fiquei pensativa por algum tempo. O que me marcou foi a frequência da prática: ele teria executado as Variações Goldberg, de Johann Sebastian Bach, mais de dez mil vezes ao longo da vida. Quando alguma viagem ameaça interromper a prática por tempo demais, ele simplesmente cancela e fica.
Na época, eu vinha lendo o ensaio Bom Entretenimento, do próprio Han, no Clube de Leitura Lousa®. , e tudo no livro pareceu, de repente, fazer um sentido novo. Um filósofo contemporâneo, conhecido pelas críticas duríssimas à velocidade da nossa época, organiza a própria vida ao redor da repetição lenta de uma mesma peça musical de quase trezentos anos. A coerência pessoal é, ela mesma, o argumento do livro.
A pergunta que me ficou foi simples e severa: quantas coisas, na minha vida, eu repito tantas vezes? O que, hoje, qualquer pessoa de fato repete com consistência?
A tese central do Bom Entretenimento é a seguinte: o tempo deixou de ser apenas o cenário em que as coisas acontecem e passou a funcionar como fator cognitivo, parte da operação mental pela qual o pensamento se torna possível.
Pensar, sentir, compreender, tudo isso exige tempo. E o tipo de tempo necessário aqui é específico: é o tempo de decantação, aquele intervalo em que algo que tocou na superfície da nossa atenção desce, lentamente, até as camadas em que o pensamento de fato se forma. Sem esse intervalo, nada decanta.
Falta-nos algo mais elevado que informação: o tempo entre uma informação e a próxima. Vivemos uma vida em que o intervalo foi suprimido pela engenharia do estímulo. Os vídeos encurtaram, os áudios aceleraram... E nessa velocidade, paradoxalmente, paramos de viver: começamos apenas a consumir.
Tomo emprestada uma imagem das conversas do nosso Clube que me ajuda a pensar isso. Quando algo nos toca, ele entra primeiro na camada de cima da nossa atenção, aquela camada reativa em que o estímulo provoca uma resposta imediata: riso, lágrima, raiva, comoção breve. Se nada interrompe o fluxo, esse toque escorre. A camada de cima é projetada para deixar escorrer, porque precisa estar livre para receber o próximo estímulo, e o próximo, e o próximo.
Para que algo desça até a camada de baixo, a camada cognitiva, em que o pensamento se forma e a memória se constrói, é preciso interromper o fluxo. Parar. Permitir que aquele toque inicial decante. Quando o Han descreve a vida contemporânea como uma vida em que ninguém mais toca o chão, ele está dizendo isso.
Costumo usar uma expressão que vai longe nas conversas do Clube: a nossa época sofre de obesidade digital. Comemos muito conteúdo e nos nutrimos pouco. Ao final do dia ficamos saciados de estímulo.
A obesidade digital tem um sintoma característico: a sensação difusa de ter passado horas absorvido em alguma coisa, sem sequer saber falar a respeito disso. Você sai do feed sem nem lembrar do que assistiu, termina um episódio sem conseguir resumi-lo no dia seguinte: consumiu sem que nada tenha decantado.
E aqui está o ponto que considero mais sério: essa obesidade não fica restrita à esfera do entretenimento. Ela contamina a forma como lemos, conversamos, amamos, trabalhamos. Lemos por cima, sem deixar o texto descer. Conversamos por cima, sem deixar o outro nos atingir. Trabalhamos por cima, executando muito e construindo pouco. A velocidade que aprendemos a ter dentro das redes vai se tornando a velocidade que aplicamos na vida inteira.
Tudo o que vale a pena na vida humana exige decantação: os afetos profundos pedem anos de convivência decantada; o pensamento original, horas de leitura decantada; a arte que toca, tempo de gestação decantada; e a profissão que se torna sólida – essa observação aprendi a defender com firmeza ao longo dos anos – demanda tempo de prática, de erro, de aprendizado decantado em estrutura.
A construção não admite atalho. O que se constrói rápido tem prazo de validade rápido. O que se constrói com tempo dura, porque foi alicerçado em algo que de fato penetrou no chão antes de subir até a superfície.
Costumo dizer que a independência, em qualquer dimensão da vida, é uma conquista diária. Quem espera que ela chegue em uma única decisão, em uma única virada, em uma única revelação, vai esperar a vida inteira. Quem entende que ela se constrói em camadas, em pequenas escolhas decantadas ao longo de meses e anos, vai chegar lá. Talvez devagar. Mas chega com solidez.
E a pergunta que esta edição prefere deixar com você é dupla: o que você está construindo com tempo? O que está apenas consumindo de passagem? Onde está, na sua semana, o intervalo em que algo importante decanta?
Para pensar.
Um abraço,
Flávia Gaeta.

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