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Cartas do Fábio · Jan 24, 2025

Cartas do Fábio, n° 3

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Fábio Fonseca Horácio-Castro · Cartas do Fábio

Trinta anos atrás eu era um aluno rebelde de um mestrado em Comunicação, que cursava na Universidade de Brasília. Era rebelde porque fugia dessa disciplina para assistir aulas na antropologia e na sociologia. E não só: também na economia, na teoria literária e na história. Indisciplinado e interdisciplinar... nem sei primeiro qual.

Na verdade, eu buscava meios de entender o mundo fenomenologicamente.

Fora isso, havia a outra grande tensão, a tensão entre as duas pulsões de escrita que me envolviam: literatura e ciência.

Por muito tempo, venceu a ciência. Hoje não sei.

O tal mestrado resultou numa pesquisa, numa narrativa e num livro germinados em solo literário: minha dissertação de mestrado, A Cidade Sebastiana. Era da borracha, memória e melancolia numa capital da periferia da modernidade.

Há trinta anos, em dezembro de 1994, eu terminava de escrevê-la.

Tratava-se de uma dissertação ensaística, e não analítica. Nela, eu refletia sobre Belém e tomava notas narrativas, não incluídas no texto – necessariamente – para apaziguar a tal pulsão literária... Os críticos e analistas do futuro talvez possam entender, melhor – e quem sabe, se for de sua necessidade, perdoar – a extremada pulsão de escrita e a pulsação da vontade de narrar, do jeito que for, daquele jovem aprendiz de cientista e, talvez, de escritor...

Pois bem, essas notas eram o embrião do livro de contos que lancei pela Editora Patuá, chamado Apontamentos sobre a Cidade Imaginária de Belém.

Meu orientador teve a sabedoria e a paciência para me ajudar a compreender melhor a disputa entre minhas duas pulsões narrativas, literatura e ciência, e ajudou-me a separar esses territórios.

Não por seus exórdios, mas na pragmática da vida, passei os anos seguintes sendo principalmente cientista, até que a literatura resolveu reivindicar os seus direitos... Em 2021 publiquei o romance O Réptil Melancólico, pela Editora Record. O livro recebeu o prêmio Sesc de Literatura desse ano, foi finalista do prêmio São Paulo de Literatura e semifinalista do prêmio Oceanos.

Retornava à literatura. Em seguida escrevi outro romance – do qual logo terão notícias – muitas crônicas e este livro de contos, o referido Apontamentos sobre a Cidade Imaginária de Belém.

Tendo surgido de A Cidade Sebastiana e das tensões entre minhas pulsões narrativas literárias e científicas, este livro fala sobre Belém. Ele transita e brinca na linha tênue entre ensaio e ficção.

De certa maneira ele reinventa Belém, porque narra invisibilidades dessa cidade tão paradigmática e, ao mesmo tempo, tão anti-paradigmática.

Trinta anos depois, continua sendo necessário pensar sobre Belém. E mais do que nunca, na verdade, considerando o contexto da realização da COP 30 na cidade. Belém estará no centro das discussões sobre a Amazônia, seja como seu símbolo, seja como sua alegoria, seja como seu desastre...

Efetivamente, acredito que estamos num momento crucial para pensar o papel da cidade de Belém como narradora da Amazônia. Necessário é, talvez, questionar os estereótipos e a narrativa oficial que se impõem sobre a cidade e sobre nós, seus habitantes.

Apontamentos sobre a Cidade Imaginária de Belém, é parte de minha participação na batalha simbólica em torno da Amazônia e uma forma de reivindicar um espaço por meio do qual a história e a identidade local possam ser reimaginadas e reinventadas.

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Read the original on fabiohoraciocastro.substack.com

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