Trinta anos atrás eu era um aluno rebelde de um mestrado em Comunicação, que cursava na Universidade de Brasília. Era rebelde porque fugia dessa disciplina para assistir aulas na antropologia e na sociologia. E não só: também na economia, na teoria literária e na história. Indisciplinado e interdisciplinar... nem sei primeiro qual.
Na verdade, eu buscava meios de entender o mundo fenomenologicamente.
Fora isso, havia a outra grande tensão, a tensão entre as duas pulsões de escrita que me envolviam: literatura e ciência.
Por muito tempo, venceu a ciência. Hoje não sei.
O tal mestrado resultou numa pesquisa, numa narrativa e num livro germinados em solo literário: minha dissertação de mestrado, A Cidade Sebastiana. Era da borracha, memória e melancolia numa capital da periferia da modernidade.
Há trinta anos, em dezembro de 1994, eu terminava de escrevê-la.
Tratava-se de uma dissertação ensaística, e não analítica. Nela, eu refletia sobre Belém e tomava notas narrativas, não incluídas no texto – necessariamente – para apaziguar a tal pulsão literária... Os críticos e analistas do futuro talvez possam entender, melhor – e quem sabe, se for de sua necessidade, perdoar – a extremada pulsão de escrita e a pulsação da vontade de narrar, do jeito que for, daquele jovem aprendiz de cientista e, talvez, de escritor...
Pois bem, essas notas eram o embrião do livro de contos que lancei pela Editora Patuá, chamado Apontamentos sobre a Cidade Imaginária de Belém.
Meu orientador teve a sabedoria e a paciência para me ajudar a compreender melhor a disputa entre minhas duas pulsões narrativas, literatura e ciência, e ajudou-me a separar esses territórios.
Não por seus exórdios, mas na pragmática da vida, passei os anos seguintes sendo principalmente cientista, até que a literatura resolveu reivindicar os seus direitos... Em 2021 publiquei o romance O Réptil Melancólico, pela Editora Record. O livro recebeu o prêmio Sesc de Literatura desse ano, foi finalista do prêmio São Paulo de Literatura e semifinalista do prêmio Oceanos.
Retornava à literatura. Em seguida escrevi outro romance – do qual logo terão notícias – muitas crônicas e este livro de contos, o referido Apontamentos sobre a Cidade Imaginária de Belém.
Tendo surgido de A Cidade Sebastiana e das tensões entre minhas pulsões narrativas literárias e científicas, este livro fala sobre Belém. Ele transita e brinca na linha tênue entre ensaio e ficção.
De certa maneira ele reinventa Belém, porque narra invisibilidades dessa cidade tão paradigmática e, ao mesmo tempo, tão anti-paradigmática.
Trinta anos depois, continua sendo necessário pensar sobre Belém. E mais do que nunca, na verdade, considerando o contexto da realização da COP 30 na cidade. Belém estará no centro das discussões sobre a Amazônia, seja como seu símbolo, seja como sua alegoria, seja como seu desastre...
Efetivamente, acredito que estamos num momento crucial para pensar o papel da cidade de Belém como narradora da Amazônia. Necessário é, talvez, questionar os estereótipos e a narrativa oficial que se impõem sobre a cidade e sobre nós, seus habitantes.
Apontamentos sobre a Cidade Imaginária de Belém, é parte de minha participação na batalha simbólica em torno da Amazônia e uma forma de reivindicar um espaço por meio do qual a história e a identidade local possam ser reimaginadas e reinventadas.
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