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Cartas do Fábio · Jan 25, 2025

Anotações sobre o cinema de David Lynch

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Fábio Fonseca Horácio-Castro · Cartas do Fábio

“É impossível contar a vida de uma pessoa. O melhor que se pode fazer é capturar o Rosebud, o mistério, de cada um”, escreveu David Lynch, na conclusão da sua biografia.

Rosebud”, como se sabe, é a palavra pronunciada pelo “cidadão Kane” instantes antes de morrer e que origina a invesrigação jornalística tematizada no filme de Orson Welles.

A respeito de Lycnh, o que dizer? Qual o seu Rosebud? Bom, é claro que não vou desenvolver nenhuma teoria sobre isso. Não sou especialista e nem mesmo um grande admirador de Lynch, então, não poderia acrescentar nada de mais a respeito do que se já sabe.

Porém, quero partilhar uma impressão a seu respeito: a ideia de que um dos fundamentos da obra desse cineasta é a sua atenção em relação aos detalhes da vida quotidiana, ou, mais precisamente, em relação aos objetos ordinários e às maneiras de estar no mundo presentes no modo de vida das pessoas comuns dos Estados Unidos, seu país.

Uma atenção tão importante, um olhar tão demorado sobre esses objetos e maneiras de estar que acaba-se tendo a sensação do insólito.

Se não fosse a demora da câmera de Lynch sobre pequenas coisas ele, provavelmente, não seria considerado um cineasta “surrealista”. Para mim, é isso que é o surrealismo, a demora de um olhar sobre algo, o que provoca uma sensação de incômodo. E David Lynch faz exatamente isso, na sua obra. Em outras palavras, um elogio da imanência.

Em relação a mim, à minha percepção de Lynch, preciso dizer que vi Duna sem saber de quel se tratava e achei uma bosta de filme. Depois, vi O Homem Elefante e fiquei impressionado com a densidade daquele preto e branco. Em seguida, assisti Veludo Azul e gostei muito. Ao menos nestes dois últimos filmes se vê a importância dos detalhes no seu olhar.

Depois disso, assisti, na televisão, Twin Peaks. E achei uma coisa maravilhosa. Na verdade, assistir é modo de dizer, porque quando a Globo exibiu essa série, hoje clássica, em 1991, eu lutava contra o sono, domingo à noite, para conseguir acompanha-la. Mas posso dizer que Twin Peaks me marcou profundamente. O insólito, o onírico era a pura tradução, para a arte do cinema, daquilo que sessenta anos antes era o surrealismo em artes visuais e na literatura – não que não tenha havido um cinema surrealista antes dele e Vertov é o grande clássico dessa linguagem – mas Lynch tem um papel de atualizar essa forma de expressão. Mas, é claro, não se pode classificar a obra de Lycnh nem a de ninguém, sem praticar reduções. O que se deve dizer é que há diálogos com o surrealismo na sua obra.

E, junto com isso, uma acidez notável. Sobretudo, a crítica ao cinismo norte-americano... Quando o assassino de Laura Palmer, em Twin Peaks é, finalmente, desvelado, alguém, diante da solução sobrenatural assustadora do crime, indaga:

“Vamos mesmo acreditar que essas coisas existem?”.

E outro personagem responde: “A outra possibilidade seria acreditar que uma pessoa é capaz de fazer isso por vontade própria”.

É o próprio enigma de Twin Peaks sendo esclarecido. O surreal/sobrenatural ou acreditar na violência profunda que existe na realidade norte-americana...

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Read the original on fabiohoraciocastro.substack.com

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