Se você prefere ouvir podcasts, vou voltar a gravar as versões em áudio dessa newsletter com eventuais comentários extras nesse link aqui.
Esses dias, em um momento raro de me desconectar de tudo (minha cabeça estava precisando), eu cheguei à conclusão de que eu normalizei uma overdose de conteúdo na minha vida.
Eu fico planejando quais podcasts vou ouvir enquanto lavo a louça.
Eu não gosto de sair pra caminhar ou correr sem ter uma lista do que exatamente vou ouvir.
Eu acumulo compulsivamente dezenas de abas no meu computador com conteúdo que eu gostaria de consumir, o que só eleva meu nível de ansiedade pra “estar por dentro de tudo”.
Cara, eu comprei uma bicicleta ergométrica aqui pra minha casa e, curiosamente, só uso ela quando o iPad tá com bateria pra pegar um vídeo de 30-60min no YouTube e, por algumas vezes, já levei até o computador na bicicleta.
E confesso: vou ao banheiro e abro o Instagram pra dar risada com os meus perfis preferidos de piadas, sustos e cia no Instagram.
Eu não fui feito pra consumir tanto.
Mas eu escolhi escrever sobre isso, porque eu aposto que a maior parte do mundo (sem exagero) normalizou essa overdose de conteúdo.
Sendo bem sincero, eu ainda luto com a ideia de que essa minha “busca exagerada por consumir conteúdo útil” seja ruim, tenho dúvidas, porque eu sei que é um conteúdo vai me ajudar pra alguma coisa na minha carreira e no business que estou construindo. Eu sou muito chato com o que leio/ouço/assisto.
Talvez isso seja só uma justificativa sofisticada minha, porque independente de “consumir muito conteúdo a toda hora pra aprender”, continua sendo “consumir muito conteúdo a toda hora”.
Mas eu vou um passo além.
Comecei esse texto com esse incômodo pessoal, mas acho que ninguém vai discordar de mim aqui se eu falar que parece que as pessoas parecem ter medo do próprio pensamento, porque ninguém dá uma pausa pro próprio cérebro.
Tem gente que não consegue jantar sem assistir Netflix e se não tem Netflix, tem Instagram.
Tem gente que não consegue assistir um filme sem se interromper e pegar o celular no meio.
Tem gente que não consegue ficar no silêncio de jeito nenhum e durante 23 segundos no elevador pega o celular pra apertar algum botão enquanto a porta não abre.
É foda, mas também tá muito óbvio: você não foi feito pra consumir tanto. Você foi feito pra criar, executar, construir, realizar. Nós fomos.
Hoje, são 4.241 pessoas que lêem essa minha newsletter. Eu também aposto que são pessoas com algum tipo de ambição grande, seja na vida profissional ou pessoal. É gente que quer construir coisas, mas também é gente que vive num mundo onde é quase inevitável não se distrair.
E vou ainda mais fundo: o problema não é só que nos distraímos, é que nós não percebemos que estamos distraídos e, com isso, a nossa vida se desregula pedacinho por pedacinho…
Porque você não foi feito pra consumir tanto.
Uma das piores e menos óbvias coisas que o ser humano pode sentir é a nossa energia criativa não ser usada. É frustrante e é destrutivo, porque quando essa energia não é usada, ela implode. Ela vira um tipo de veneno.
É quando você vê a pessoa que tem o potencial de construir coisas estar focada em criticar o trabalho dos outros. É quando você vê a pessoa que poderia te dar um elogio descartar ele e te criticar, porque ela não teve a coragem de criar em vez de só consumir.
Tem sempre uma frase que ecoa na minha cabeça quando passo perto desse assunto: “o inferno é quando você, no último dia da sua vida, encontra a pessoa que você poderia ter sido”.
Você não foi feito pra consumir tanto.
E não me entenda errado aqui, quando eu falo de “criar”, eu não estou falando de empreender. Definitivamente é um caminho, mas não o único.
Eu vou trocar aqui o verbo “criar” por “executar” e vou dar um exemplo real, bem tangível, com base em algo que todos nós estamos vivendo: o sensacionalismo quase ilógico da Inteligência Artificial.
Você vai gostar dessa analogia que vou trazer:
Independente de onde ou com o que você trabalha, você tá sendo inundado hoje sobre conteúdos sobre IA e tudo que as pessoas dizem que dá pra fazer com ela.
É IA de tudo quanto é lado. Isso já aconteceu tanto, que as pessoas estão pegando birra do assunto, mas o ponto é exatamente esse: enquanto a gente tá sendo inundado por esses conteúdos de IA, a gente vai se sentir cada vez pior e mais ansioso com esses conteúdos…
A não ser que a gente comece a criar, construir, executar. Isso é o que vai dar vazão à sua ansiedade.
A melhor analogia que eu consigo pensar é a da panela de pressão: hoje, nós vivemos em uma sociedade que contribui demais pra aumentar a pressão que sentimos com nós mesmos, porque ela esfrega na nossa cara um monte de coisa que deveríamos estar fazendo (pode ser no exemplo da IA que eu estava falando, como pode ser sobre CLT vs. empreender, sobre wellness e muito mais).
Na analogia da panela de pressão, nós só temos duas possíveis saídas pra ela não explodir:
A mais simples é sair do consumir e ir pro executar (o que equivale na analogia a levantar aquele pino da panela e deixar a pressão sair)
A segunda saída é bem mais complexa: é desligar o fogo (o que equivale a trabalhar seu autoconhecimento, porque aí você não sente a pressão como sentia antes, mas isso é assunto pra outra newsletter).
Quer mais uma referência legal?
Sêneca percebeu isso 2.000 anos atrás. Na Carta 108 de Cartas a Lucílio, ele descreve a turma que frequentava as aulas de filosofia somente para se entreter: “alguns vêm para ouvir, não para aprender”.
Ele diz que essas pessoas anotavam palavras só pra depois repetir elas, produzindo tão pouco benefício pros outros quanto tiveram pra si mesmas.
Você não foi feito pra consumir tanto.
Talvez as coisas estejam tão difíceis ou chatas por aí, porque sua mente está sendo puxada em tantas direções diferentes, vendo tanto como as outras pessoas vivem e o que elas fazem, que você perde o contato com a sua própria vida.
E minha última provocação aqui nesse texto não é “largar o celular”. Minha última provocação aqui é você escolher uma coisa relevante pra criar/executar e terminar ela, porque a sua mente precisa se lembrar de como é ser direcionada pra algo em vez de ficar sendo puxada.
Você não foi feito pra consumir tanto.
Muito obrigado por ler até aqui e até semana que vem.
Vamos juntos,
Já que você chegou até o final, toma aqui uma música pra você colocar no carro, abrir o vidro e deixar o vento bater na cara. A playlist é de presente. 😉

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