Ponto de vista talvez um pouco polêmico: a gente tá chegando num ponto onde pessoas acham que ler um resumo é a mesma coisa que entender.
Estamos chegando num ponto onde pedir pra IA condensar uma ideia parece significar que você aprendeu alguma coisa de verdade.
Recentemente, eu esbarrei em algumas pesquisas falando sobre como as pessoas - especialmente crianças e adolescentes - parecem ter cada vez mais dificuldades com leitura (aqui, aqui e aqui pra notícias e aqui, aqui e aqui pra pesquisas).
E decidi escrever esse texto, porque a parte que assusta não é sobre a leitura, e sim sobre o que está por trás dela: leitura exige atenção, paciência, interpretação.
Mais ainda, a leitura exige sentar por um tempo bem maior que a duração de um Reels pra conseguir entender e extrair significado das coisas.
Eu já escrevi um texto aqui falando sobre o que chamei de “inteligência artesanal” onde defendo que a IA vai tornar a leitura e a escrita ainda mais importantes: quem lê bem consegue desconfiar, interpretar e corrigir; quem escreve bem consegue guiar a IA com contexto.
A tese central é que a inteligência artificial só vira vantagem real quando combinada com essa “inteligência artesanal” que a leitura e escrita criam.
Eu também já escrevi um outro texto aqui falando sobre como nós vivemos hoje em um ambiente que foi literalmente desenhado pra esfarelar nossa atenção.
Não entenda esse texto como uma crítica às novas gerações ou algo assim, porque não é. Não acredito que as pessoas ficaram menos capazes. Acredito que o ambiente tá ficando cada vez mais eficiente em fisgar sua atenção.
Hoje quase tudo é curto, imediato e viciante e a vida tá virando um arrastar de dedos pra cima atrás do outro, buscando o próximo estímulo rápido e barato.
E o problema disso é que a gente vai perdendo a tolerância pro silêncio, pra profundidade, pro raciocínio que demora pra se formar e pra recompensa que não chega na hora.
A gente tá chegando num ponto onde pessoas não conseguem ficar sem pegar o Instagram pra rolar a tela enquanto estão assistindo um filme de 1h20. What the f*ck?
A gente tá chegando num ponto onde as pessoas se perdem numa conversa mais longa, desistem de uma ideia mais densa e travam ao encontrar as nuances da vida.
A gente tá chegando num ponto onde, agora mergulhando no mercado de trabalho, as pessoas não conseguem ler um documento inteiro sem perguntar pelos “3 principais takeaways”, onde as pessoas se preocupam mais em responder do que em entender e onde conclusões são tiradas a partir de pequenas amostras de informação.
Uma ideia resumida tá quilômetros de distância de uma ideia compreendida.
Ouvir o resumo de 15min de um livro ou o carrossel com os 10 principais ensinamentos nunca vai ocupar o lugar do trabalho de você se debater sozinho com aquelas informações até que se tornem aprendizado, por conta de um principal fator:
O entendimento mora no esforço.
É literalmente com o atrito que a ficha cai a e a gente aprende.
Os poucos que lêem treinam concentração e os muitos que só rolam o feed treinam dispersão. São músculos mentais sendo exercitados todos os dias e eu acho que a gente tá subestimando o tamanho do estrago que isso vai causar no médio pro longo prazo.
Você já imaginou como vai ser o dia em que a sociedade perder a capacidade de mergulhar fundo e de aguentar a complexidade?
Já imaginou como vão ser as coisas quando tudo tender a escorregar pro superficial?
O aprendizado já tá indo pra esse lado, a mídia e a política também… Já imaginou nossas relações também indo pra esse lado?
É triste imaginar isso.
E sabe qual parece ser o pior de tudo isso?
É que quem tá perdendo essa profundidade dificilmente vai perceber, porque quando estar distraído é o normal, ninguém repara que isso é um problema.
Oh, shit.
Só agora, às 23h34 e bem no final do texto, percebi que essas pessoas que estão perdendo a capacidade de lidar com o que é profundo e complexo provavelmente não lêem minha newsletter. Risos.
Se você chegou até aqui, talvez você seja um dos últimos leitores da sala e consiga fazer uma coisa que está ficando rara: atravessar uma ideia inteira sem pedir um atalho. Isso vale muito mais do que parece.
Muito obrigado por ler até aqui.
Vamos juntos,

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