RSS Amplifier

RETROVISOR // · Jul 13, 2026

Quando Pac-Man virou Come-Come

0
Sign in to vote or save

Rodrigo Salsa · RETROVISOR //

O Odyssey foi um videogame concorrente do Atari que fez muito sucesso no Brasil. A turma por aqui já estava acostumada com a pirataria pesada de Atari, mas o Odyssey chegou de forma oficial, com garantia e assistência técnica, alguns meses antes do Atari da Gradiente/Polyvox, em 1983.

A Philips sabia o que vinha pela frente e apostou numa abordagem muito bacana. Teve muita propaganda na TV, propaganda nas lojas, propaganda em revistas. Muitos jogos vinham em caixas de acrílico, com manuais coloridos em papel brilhante e nomes brasileiros. Foi assim que apareceram títulos como Duelo no Velho Oeste, Senhor das Trevas, Didi na Mina Encantada, Abelhas Assassinas e por aí vai.

Como tudo ainda estava começando, os conceitos dos jogos eram copiados à exaustão. Dá para dizer que boa parte da biblioteca do Odyssey era formada por jogos parecidos com os de fliperama e com os do próprio Atari. Um desses jogos foi K.C. Munchkin, um clone de Pac-Man, o lendário jogo japonês de fliperama lançado pela Namco, que popularizou o gênero de labirinto.

Acontece que a Atari tinha adquirido os direitos de Pac-Man e estava fazendo a versão para o seu videogame. Quando viu o jogo do Odyssey lançado, não gostou nem um pouco. Entrou na Justiça para suspender a venda nos Estados Unidos, perdeu inicialmente, mas acabou ganhando no final. O jogo foi proibido por lá.

O mais interessante é que o jogo do Odyssey tinha muito mais novidade em cima de Pac-Man do que dezenas de outros clones que saíram em fliperamas e em outros consoles. E, para piorar, a versão do próprio Atari era uma porcaria. Ao contrário do fliperama original, era um jogo feio, lento, sem cor e sem graça.

K.C. Munchkin, no Odyssey, tinha labirintos com paredes móveis, modos de edição, fases no escuro, ação frenética e muitas cores vivas. Era um jogo que copiava uma ideia conhecida, sim, mas também mexia na fórmula, acelerava o ritmo e tentava criar alguma identidade própria dentro de um formato que todo mundo estava explorando.

Para contornar a situação nos Estados Unidos, a Philips encomendou outro jogo, chamado K.C. Crazy Chase, com o mesmo personagem. Dessa vez, ele corria atrás de uma lagarta dentro de um labirinto, com árvores comestíveis, outros dois inimigos atrás dele e tudo mais.

Aqui no Brasil, a Philips lançou esse segundo jogo antes, com o nome Come-Come. O primeiro saiu depois, como Come-Come II. Reza a lenda que, quando o pessoal da empresa sentou para batizar o jogo em português, alguém do marketing pediu para explicar como ele funcionava. A resposta teria sido simples: era um personagem no labirinto que come, come, come. Então esse virou o nome: Come-Come.

O jogo foi um sucesso. Teve até bonequinho de pelúcia. E, como as propagandas apareciam em todo lugar, até quem não sabia direito o que era videogame acabou gravando no inconsciente que aquele estilo de jogo de labirinto era Come-Come.

Depois, quando o Atari oficial chegou ao Brasil, era muito comum as pessoas chamarem Pac-Man de Come-Come. O nome já tinha pegado. Dava para ouvir gente pedindo Come-Come nas locadoras e ver até algumas máquinas de fliperama com esse nome no topo da tela.

Nessa altura do campeonato, a Atari já estava quebrando lá fora, enterrando cartucho no deserto, enterrando no quintal. Mas, na época do processo, é difícil imaginar que eles pudessem prever o tamanho da ironia: aquele joguinho do Odyssey contra o qual criaram tanto caso acabaria batizando o jogo deles aqui no Brasil.

Pac-Man virou Come-Come.

Nenhuma publicação

Read the original on estudioretrovisor.substack.com

Comments

Nothing yet. Say the first thing.

    Sign in to join the conversation.