Era um homem muito feio que gostava de fazer casas para os passarinhos.
Odiava o próprio rosto, sua feiura, mas insistia em acreditar que sua aparência não impediria as pessoas de enxergar quem ele era.
Certa manhã, desejou bom dia a duas senhoras idosas que passavam pela rua. Elas se assustaram ao vê-lo, mas responderam ao cumprimento enquanto apressavam o passo.
Aquilo doeu. Ainda assim, pensou que não havia muito a fazer. Era feio. Sua aparência assustava. As pessoas sempre se assustariam.
Seguiu para o que fazia todos os dias: varrer a rua. Não tinha emprego. Por ser tão feio, jamais lhe davam trabalho. Vivia da aposentadoria da mãe, que carregava a culpa de ter colocado no mundo um filho tão horrendo.
Não tinha nariz. A boca era torta. O rosto parecia ter sido moldado por mãos cruéis.
Procurara inúmeros cirurgiões. Alguns confessavam nunca ter visto alguém tão feio. Diziam que não havia solução. Apenas um lhe ofereceu esperança: talvez fosse possível construir um nariz.
O homem sorriu.
— Talvez, com um nariz, eu consiga sentir melhor o cheiro das flores.
O médico respondeu que não. O nariz seria apenas estético.
Então desistiu da cirurgia.
Na quarta-feira, voltou a varrer a rua.
Uma criança correu em sua direção, gritando por socorro.
Sem pensar, colocou-se entre ela e o perseguidor. Sua figura grotesca, a vassoura erguida e a determinação em seu corpo bastaram para assustar o outro homem, que fugiu.
A criança o abraçou e, entre lágrimas, disse:
— Obrigada. Eu via o senhor todos os dias.
Quando souberam do que havia acontecido, os pais da criança foram pessoalmente agradecer ao homem. Ao vê-lo, perceberam que o filho não exagerava.
A mãe não se importou. Foi a primeira pessoa a olhá-lo nos olhos. Chorou e o abraçou.
Ele lhe ofereceu uma flor e tentou sorrir.
O marido, porém, sentiu um nojo que fez questão de esconder. Como aquele homem ousara tocar sua esposa? Ainda assim, não quis parecer ingrato.
— Sou grato pelo que fez. Mas é melhor mantermos distância.
O homem muito feio não entendeu. Apenas olhou nos olhos da mulher e aquilo fez nascer estrelas dentro do seu peito.
Dias depois, porém, o homem que perseguira a criança voltou acompanhado pela polícia. Apontou para o homem muito feio e fez acusações.
Ele apanhou.
Foi preso.
Julgado.
Condenado.
Mesmo entre criminosos, permanecia sozinho. Ninguém queria dividir a cela com um rosto como o seu.
Ainda assim, por detrás das grades, na solidão, murmurava, com sua boca torta, um canto. Lá fora, os passarinhos esperavam que seus amigos saíssem das grades.

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