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Lalita Lopes · Jul 24, 2026

Eu sempre me impressiono com a capacidade que tenho de conhecer gente idiota.

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Lalita Lopes · Lalita Lopes

Eu sempre me impressiono com a capacidade que tenho de conhecer gente idiota.

Durante muito tempo, achei que o problema era o ambiente. Com muito trabalho, mudei de ambiente, mas os idiotas permaneceram.

Depois, achei que era machismo. Embora ele explique muita coisa, descobri que meu marido e outros homens também colecionam histórias parecidas.

A conclusão foi decepcionante: os idiotas não frequentam um lugar. Frequentam a humanidade. E alguns de nós parecem ter um talento especial para cruzar com eles.

Mas, como já diriam os Mamonas Assassinas, na perspectiva masculina: “Mais vale um na mão do que dois no sutiã.”

É por aí.

Aprendi a lucrar com os idiotas. Viva a internet. Hoje eles rendem engajamento. Transformam a própria frustração em comentário, o próprio ressentimento em hate e, às vezes, a própria mediocridade em opinião.

Mesmo assim, por mais seguros que sejamos, por mais conscientes que estejamos de quem somos, ainda dói descobrir que alguém escolheu gastar um pedaço da própria vida tentando machucar você.

Lembro de quando defendi o aborto depois de ver uma menina de 12 anos ser obrigada a dar à luz, fruto do abuso cometido por seu “companheiro” de 40 anos.

Um homem que se dizia meu amigo e trabalhava comigo me escreveu:

— Sua mãe deveria ter te abortado.

Segundo ele, era isso que faziam com anões na Idade Média.

A tentativa de me ofender por causa do nanismo foi tão ridícula que acabou indo direto para a descarga. O que ficou foi outra coisa.

O que me feriu não foi a frase.

Foi vê-lo entrar no trabalho no dia seguinte como se nada tivesse acontecido. Cumprimentar as pessoas. Tomar café. Rir. Trabalhar. Como se a crueldade pudesse simplesmente ser arquivada na pasta das opiniões.

Comentei o episódio com alguns colegas e ouvi:

— Ah, mas você também fez por onde. Pra que colocar sua opinião na internet?

Naquele momento percebi que, para muita gente, o problema nunca é a violência. É a mulher que ousou falar.

Odeio vitimismo. Mas há uma diferença enorme entre se vitimizar e reconhecer quando a régua da justiça mede pessoas diferentes de maneiras diferentes.

O tempo passou.

Na época do Snapchat, recebi muito hate. Hate gratuito, vindo de desconhecidos.

Durante anos me perguntei por que alguém perderia tempo indo até um perfil apenas para dizer algo horrível.

Hoje acho que a pergunta estava errada.

Talvez aquilo nunca tenha sido sobre mim.

Talvez algumas pessoas simplesmente precisem acreditar que diminuíram alguém para suportar a própria vida.

Recentemente publiquei meu segundo livro.

Recebi muitas mensagens bonitas. Até que uma pessoa resolveu equilibrar a balança.

— Você já escreveu dois livros, mas ninguém te conhece.

Eu estava na TPM.

Foi um dia especialmente iluminado para a falta de paciência.

Respondi:

— Você não escreveu nenhum. E ninguém te conhece também.

Ela então disse que o verdadeiro legado da vida dela eram os filhos e que eu nem filhos tinha.

Ri.

Não porque despreze a maternidade. Pelo contrário. Quero ser mãe um dia, se a vida permitir.

Livros sobrevivem aos autores.

Filhos também podem sobreviver aos pais.

Mas nenhum deles nasce com a obrigação de provar que a vida de alguém valeu a pena.

Não continuei a discussão.

Meu pensamento já tinha feito todo o trabalho.

O comentário que realmente me desmontou veio depois.

Veio de alguém da minha família.

De alguém que sempre amei e continuo amando.

Essa pessoa me disse que eu tinha uma energia pesada.

Fiquei em choque.

Talvez essa pessoa nem seja uma idiota. Talvez tenha apenas cometido uma grande idiotice.

Porque o peso das palavras não depende apenas da intenção de quem as diz, mas também do lugar de onde elas vêm.

Um estranho pode nos xingar.

Quem amamos tem outro privilégio: consegue nos fazer duvidar de nós mesmos.

Discorde.

Aliás, faça isso.

Discordar é saudável.

Talvez devesse vir junto com a prescrição médica.

O problema começa quando uma ideia deixa de ser respondida e passa a ser substituída por um ataque à pessoa que a pensou.

É curioso como tanta gente chama isso de debate.

Também já fui idiota.

Acho que todo mundo já foi.

Enquanto é fase, tudo bem.

Um adolescente fazendo babaquice?

Terça-feira.

Agora, transformar a babaquice em personalidade...

Aí já é projeto de vida.

Hoje, quando percebo que magoei alguém, tento pedir desculpas.

Quando admiro alguém, digo.

Quando posso ajudar, ajudo.

É infinitamente mais difícil construir do que destruir.

Mas também é infinitamente mais interessante.

Os idiotas continuarão existindo.

A única meta realista é não oferecer companhia. E tentar não ser um idiota você mesmo.

Read the original on escrevonasvisceras.substack.com

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