Que toda adaptação altera, sabemos todos. Com a Odisseia não seria diferente. Ninguém entra numa sala de cinema esperando hexâmetros, por isso a acusação de infidelidade é a mais preguiçosa da crítica: serve para qualquer adaptação literária para o cinema e não explica nenhuma. Esse parágrafo de saída eu imito de 90% das críticas que li sobre a pedrada do Nolan, (essa aqui é a melhor de todas) sintoma complicadíssimo do nossos tempos, em que o crítico precisa se desculpar junto à massa de influencers chateadíssimos com qualquer coisa que exceda ao balbucio adjetival de suas impressões miseráveis sobre literatura. Eis-me aqui a gastar essas linhas para nada…
Voltando ao ponto: cortar Nausícaa não é um crime. Inventar uma viagem que Homero não escreveu, tampouco. O que eu estou cobrando de quem pega uma história que é patrimônio nosso há quase três mil anos, que atravessou a queda de Roma, os séculos em que o Ocidente latino já não sabia ler grego, a invenção da imprensa, e chega inteira ao século XXI, não é fidelidade e sim altura. Essa, sim, é uma tarefa homérica: fazer com o material narrativo alguma coisa que justifique tê-lo tocado. Nolan falhou nisso miseravelmente e transformou a Odisseia em um espetáculo de tecnolatria sem alma, sem humor e sem poesia. No resumo geral, tudo é ruim. Vou explicar abaixo, em alguns pontos, porque tive a sensação que esse filme me parece um troço de incel. Eu chamo de incel não como xingamento (mentira, é sim), mas porque é o nome exato dessa arquitetura. Ela tem três colunas.
A primeira: o desejo do homem nunca é dele, é sempre algo que lhe fizeram. Sequestrado por Calipso, enfeitiçado por Circe, atraído pelas Sereias, arruinado por Helena, cobrado por Penélope, o herói percorre o Mediterrâneo sendo uma vítima em turnê e cada mulher é a causa de um dano do qual precisa se recuperar. Não há um só momento em que ele queira alguma coisa e pague por querer. Perdemos, assim, o herói dividido de verdade entre a vida eterna e a cama de oliveira, entre ser deus e ser gente. Um herói que não escolhe não pode ser humano, porque a humanidade dele reside na escolha. Sobra para o público a jornada de um traumatizado cheio de culpa. Hollywood, desde Oppenheimer, não distingue mais complexidade de culpa, então vocês imaginam como Odisseu é apresentado durante três longas horas.
A segunda: as mulheres não narram. Em Homero, Helena droga o vinho de Telêmaco e conta uma Troia em que reconheceu Odisseu disfarçado e o protegeu; Menelau, em seguida, conta outra, incompatível, em que ela rondava o cavalo imitando a voz das esposas dos gregos escondidos para azedar a arapuca equestre, sem que o poema jamais resolva esse impasse. Nolan tira dela a história e, consequentemente, uma Helena que não conta sua história é uma Helena a quem só resta ser culpada, porque a culpa é o único lugar em que uma mulher fica quando lhe retiram o relato. Circe, por sua vez, não é aquela bruxa do 71 mequetrefe que mora em um casebre medieval (não tinha grana pra contratar uma direção artística não, gente?) Circe é quem sabe o poema, é quem instrui Odisseu sobre como chegar aos mortos, é ela, afinal, quem adverte sobre as Sereias, Cila, Caríbdis… Sem Circe não há segunda metade da Odisseia, porque é ela quem detém o roteiro. Reduzi-la a feiticeira velha de clichê de historinha medieval é retirar da narrativa a personagem que conhece a narrativa. Já as Sereias são aquelas que oferecem cantar tudo o que aconteceu em Troia, ou seja, elas oferecem a Ilíada. O perigo desse episódio é o grande perigo do saber. Não nos restou no filme nada além de uma alusão meio soft porn das Sereias.
Calipso, por sua vez, virou simplesmente a personagem de Giulia Gam em Mulheres Apaixonadas: a mulher que ama demais, e que retém o homem amado contra a vontade dele — só que com uma ilha em vez de um apartamento no Leblon do Maneco. Quanto a Atena, motor do enredo homérico, some porque não sobrou função: um herói que já é bom por dentro e se cura sozinho não precisa de deus nenhum. É talvez a coisa mais descabida de todo o filme.
A terceira: o expurgo do eros. Telêmaco sai de Ítaca e volta sem ter ido a lugar nenhum, o que é notável, porque a Telemaquia é uma iniciação: o rapaz vai a Pilos e a Esparta aprender a ser filho de alguém, e encontra Pisístrato, filho de Nestor, companheiro ao lado de quem dorme, com quem chora, de quem se despede. Chamem de homoerotismo ou não; o dado é que Homero forma um homem jovem através de outro homem jovem. Nolan devolve o menino ao pai, intacto e virjão. E aqui as colunas sustentam o mesmo teto: o filme quer intensidade masculina, quer a viagem final, inventada, em que Odisseu volta aos mortos para ser perdoado pelos homens que perdeu. Solidariedade entre homens como sacramento, mas sem eros, porque o eros entre homens desmoronaria a masculinidade que o vínculo incel fabrica para se escorar. Mary Beard resumiu essa constatação em uma boa frase: esta é uma Odisseia sem sexo. Chorem juntos, meninos, mas ninguém se encosta.
A maior falta, porque é incel, insisto, é a falta da alegria e do riso. A Odisseia é um poema glutão: come-se o tempo inteiro, bebe-se, ri-se alto. Na corte dos feácios, o aedo Demódoco canta, diante do rei e dos convidados, o adultério de Ares e Afrodite: o corno, Hefesto, arma uma rede invisível sobre a cama, pega os dois em flagrante e chama todos os deuses para virem ver. E os deuses vêm, e olham, e gargalham — Homero usa a expressão riso inextinguível. É piada de corno num banquete, no canto VIII do texto fundador da literatura ocidental. É Costinha no Olimpo. Nolan filma em cinza: não há mesa, não há comida, não há bebedeira, não há piada. Sem riso não há comunidade, e sem comunidade o herói não tem para onde voltar, só de onde fugir. Nostos é o retorno para casa, casa sem banquete não é casa. O resto segue: Antínoo é vilão de filme do Batman, Agamêmnon anda de armadura constrangedora como quem está farmando aura usando uma armadura emprestada dos espólios do guarda-roupa do Batman do mesmo Nolan.
Temos também a catábase que não desce. Concedo de saída que em Homero ela também não desce: o herói cava uma cova na borda do Oceano, derrama sangue e são os mortos que vêm até ele. A topografia não está em cheque e sim o fato de que Odisseu encontra a mãe no Hades. Ele tenta abraçá-la três vezes, e três vezes ela lhe escapa das mãos como fumaça. Isso é ir ao Hades: não o subsolo, mas o terror de tocar alguém e não encontrar corpo. Em um filme que fez do luto a sua matéria,o o protagonista atravessa o reino dos mortos sem descobrir o que é perder alguém como a mãe. A despeito do número excepcional de mulheres com quem Odisseu conversa no canto XI, Nolan focou apenas nas interações rancorosas entre machos. Como é que se forma um herói assim?
Chegamos ao ponto em que o maravilhoso foi trocado pelo equipamento. Odisseia é o primeiro longa inteiramente filmado em câmeras IMAX 70mm, e foi essa a manchete durante um ano: vejam na IMAX 70mm, é assim que deve ser visto. Muito bem. Existem quarenta e uma salas no planeta capazes de projetá-lo assim — vinte e cinco delas nos Estados Unidos, e nenhuma na América Latina, na Ásia ou na África. Você, que lê isto em português, não pode ver o filme de que estou falando. Nem eu. Vimos outro, cortado nas bordas, cópia degradada da obra verdadeira que existe em quarenta e uma catedrais do hemisfério norte, para as quais fiéis viajam de avião. Para chegar a esse número, a IMAX passou mais de um ano caçando projetores quebrados pelo mundo, canibalizando peças e treinando sessenta projecionistas do zero. Houve mesmo uma epopeia nessa produção e ela foi a de proporcionar ao incel aquilo que ele mais ama: brinquedinho tecnológico caro sem função e fruição.
Técnica, Τέχνη, em grego, é arte. É a palavra de que vem técnica, e é o que Odisseu tem no lugar de força: o cavalo de madeira, a mentira bem contada, o nome falso, a cama esculpida no tronco de uma oliveira viva. A Odisseia é um poema sobre a superioridade da técnica narrativa sobre o músculo. Nolan trocou τέχνη por hardware, e o resultado, com toda a exatidão da ironia, é um filme sobre um homem que sabe contar histórias feito por um diretor que não está interessado nela. Homero rodava em qualquer lugar: um sujeito, uma voz, um salão, gente comendo e rindo em volta. Nenhum equipamento. E o filme está lá, inteiro, há dois mil e oitocentos anos, disponível em todas as salas do mundo, sem cortar as bordas, de graça, e ninguém precisa pegar um avião.

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