Toda literatura que desce ao mundo dos mortos parte da mesma recusa: aceitar que a morte seja o fim da conversa. Descidas ao inferno, viagens ao mundo subterrâneo, homens que atravessam a fronteira que não se atravessa e regressam para contar — há muito tempo meu ouvido se afinou para esse tipo de narrativa. Talvez por isso, entre tantos lugares onde um leitor possa morar dentro da Odisseia, o meu é no canto XI, quando Odisseu abandona por algumas horas o mundo dos vivos e se aproxima daquilo que os gregos chamavam de invisível.
Meu último texto aqui no Hospício das Palavras foi sobre a adaptação equivocada que Christopher Nolan fez da Odisseia. Diga-se o que se quiser do filme, fato é que ele devolveu Homero ao debate público. Enquanto durar a polêmica, haverá gente discutindo o poema; quando ela passar, Homero continuará onde sempre esteve. Histórias que atravessaram quase três mil anos aprenderam a sobreviver às modas muito antes das redes sociais. Foi lendo alguns textos publicados por aqui que me animei a voltar ao poema: O Bráulio Tavares escreveu sobre as Sereias, o Cristhiano Aguiar prometeu uma leitura do encontro entre Odisseu e Polifemo na FLIP, a Noemi aproximou Dante de Homero ao seguir Ulisses pelas lacunas do Inferno. Enquanto os lia, percebi que eu retornava sempre ao mesmo lugar, como se toda viagem pela Odisseia acabasse me conduzindo de volta à descida ao Hades.
Esse fascínio, na verdade, começou antes de Homero. Começou com o menino que eu fui, uma criança católica daquelas que decoravam as orações menos por devoção do que pela música das palavras. Havia nelas uma solenidade que me parecia maior do que eu compreendia. Durante o Credo, em toda missa, existia um verso que eu esperava como quem espera o refrão de uma canção: “desceu à mansão dos mortos”. Eu não fazia ideia do que aquilo significava. Gostava da gravidade da frase, daquele movimento de descida que parecia abrir um alçapão no meio da oração. Só muitos anos depois descobri que aquela mansão tinha um nome mais antigo do que o próprio Credo: Hades.
Rimbaud veio depois. Minha primeira prova de fogo como pesquisador foi atravessar Uma temporada no inferno, autobiografia feroz do menino que a literatura francesa inventou antes de lhe dar tempo de envelhecer. O caminho até aquele inferno, contudo, começara muito antes, na frase repetida aos domingos sem que eu soubesse exatamente para onde ela apontava. Hoje suspeito que os livros que nos marcam às vezes chegam antes da leitura. Permanecem durante anos na música de uma palavra, numa imagem mal compreendida, numa passagem que a infância guarda sem ainda possuir os instrumentos para decifrá-la. Quando enfim os encontramos, temos a impressão de reconhecê-los.
No canto XI, Circe envia Odisseu ao Hades por uma razão bastante prática. Ele precisa consultar Tirésias, o adivinho morto, para descobrir o caminho de volta a Ítaca. Odisseu chega às margens do Oceano, cava a fossa ritual, derrama leite, mel, vinho e sangue. Aos poucos, os mortos começam a subir para beber e recuperar, por um instante, a memória da linguagem. Tirésias aparece e profetiza, mas o curioso é que quase nada do que diz serve à navegação. Quem ensinará a rota será a própria Circe quando Odisseu regressar. Do ponto de vista da viagem, a expedição ao mundo subterrâneo fracassa. O herói desce em busca de uma resposta e retorna sem o mapa que julgava necessário.
A descida, porém, nunca foi apenas uma consulta. É ali que Homero realiza uma de suas descobertas mais extraordinárias: o Hades é o único lugar da Odisseia onde os deuses não entram. O próprio nome anuncia essa ausência. Em grego, A-idēs designa o invisível, o lugar que escapa ao olhar. Ali o Olimpo perde sua jurisdição. Os deuses disputam cidades, decidem batalhas, desviam ventos, distribuem glórias e castigos, mas permanecem do lado de fora daquele reino. Há um silêncio divino sobre o Hades, e talvez os mortos finalmente possam falar porque, pela primeira vez no poema, os deuses não estão presentes para interpretar suas histórias.
Eles falam de outra maneira. Já não precisam sustentar a grandeza da epopeia nem confirmar a ordem estabelecida pelo Olimpo. Falam como mortos, e o Hades guarda aquilo que o heroísmo precisou esquecer para continuar sendo heroico: a morte acidental, o arrependimento, o ressentimento que sobrevive à guerra, a dor que não se converte em glória. No mundo subterrâneo, as histórias deixam de pertencer inteiramente aos vencedores.
O que Odisseu faz no lugar que não se vê? Vê. O poema insiste nisso quase obsessivamente. O verbo reaparece sem cessar: Odisseu vê os mortos, a mãe, as mulheres do passado, os heróis da guerra, os condenados. Vai ao reino do invisível e regressa como testemunha. Sua autoridade já não vem apenas do homem que sobreviveu ao mar ou derrotou monstros; vem de ter contemplado aquilo que nenhum vivo deveria contemplar. Talvez essa seja a verdadeira conquista da Odisseia: além do retorno para casa, a conquista de um olhar.
Os deuses enxergam tudo o que acontece entre os vivos, mas lhes falta a experiência que organiza silenciosamente todas as outras: a possibilidade de morrer. Sabem muito e ignoram aquilo que toda criatura humana aprende cedo ou tarde. Existe um conhecimento que só pertence aos mortais. No Hades, pela primeira vez, a experiência humana deixa de ser comentada pelos deuses. Ninguém intervém, ninguém recompensa, ninguém pune. A morte suspende a teologia da epopeia.
Os primeiros encontros de Odisseu parecem organizar essa descoberta. Surge Elpenor, o mais jovem dos companheiros, morto na véspera depois de cair, embriagado, do telhado da casa de Circe. Não morreu em batalha, não realizou qualquer feito digno de memória: caiu. Sua aparição lembra que a morte raramente possui a dignidade que os poemas costumam lhe atribuir. Elpenor pede um funeral, uma pedra com seu nome e o remo que manejava em vida. Mesmo a morte mais banal deseja deixar um sinal entre os vivos.
Depois vem Tirésias. Ao contrário do que Odisseu imaginava, o adivinho não lhe entrega um mapa, mas algo mais desconcertante: o anúncio da própria morte. Ela chegará distante do mar, quando o herói já estiver velho e cercado por um povo próspero. A profecia fala menos do instante final do que da vida inteira que ainda falta viver. Pela primeira vez, Odisseu escuta o fim da própria história sem que esse conhecimento lhe roube o presente. Tirésias não indica apenas uma rota; concede ao viajante a estranha possibilidade de imaginar a si mesmo depois das aventuras.
Então aparece Anticleia, e tudo muda de escala. Odisseu não sabia que a mãe havia morrido. Ela lhe fala do pai, consumido pela espera, de Penélope, que continua resistindo, e de Telêmaco, que cresce sem pai. Durante alguns instantes, a guerra, os monstros e os deuses desaparecem. O maior herói da Grécia escuta notícias de casa como qualquer filho que regressa tarde demais. Quando tenta abraçá-la, seus braços atravessam o vazio. Tenta novamente e encontra o mesmo vazio; insiste uma terceira vez, até compreender que Anticleia não recua nem foge. É assim que são os mortos: perderam a carne e os ossos, conservaram somente a forma. Poucas imagens de luto me parecem tão devastadoras quanto essa, a de alguém que estende os braços para quem ama e os fecha no ar.
A partir desse encontro, o Hades deixa definitivamente de ser um lugar de respostas e se transforma num lugar de testemunhos. É então que começa o episódio que mais me comove em toda a descida: o Catálogo das Mulheres. Muitos leitores passam por ele com certa pressa. Esperam Aquiles, Ájax, Agamêmnon, Sísifo; as mulheres parecem interromper a narrativa principal, como se sua aparição fosse um desvio entre as grandes figuras da tradição heroica. Talvez aconteça o contrário. Aquele catálogo revela o que a própria epopeia manteve durante muito tempo nas margens.
Uma a uma, elas surgem diante de Odisseu, dizem o próprio nome e recordam a própria história. Não falam apenas como esposas de heróis ou mães de reis; falam em primeira pessoa. Epicasta — a quem a tradição posterior chamará Jocasta — conta que se casou com o próprio filho sem o saber e que, ao descobrir a verdade, enforcou-se. Tiro recorda a violência de Poseidon e o silêncio imposto pelo poder do deus. Passam Ariadne, Leda, Erífile e tantas outras mulheres cujas histórias alimentaram linhagens, guerras e façanhas masculinas.
Durante séculos, elas existiram sobretudo como motivo da ação dos homens: recompensa, origem de uma disputa, corpo por meio do qual uma genealogia se prolongava. No Hades, deixam de ser lembradas pelos outros e passam a lembrar de si mesmas. O poema não lhes concede ainda uma liberdade plena (seria anacrônico exigir isso de Homero), mas permite que suas vozes atravessem por alguns instantes a arquitetura masculina da epopeia. Talvez apenas ali isso fosse possível. É preciso descer ao lugar onde os deuses não enxergam para ouvir aquilo que nem os deuses puderam narrar.
Depois das mulheres, voltam os heróis, embora já não possam retornar acompanhados da mesma glória. Agamêmnon sobreviveu a Troia para morrer dentro da própria casa, assassinado por Clitemnestra. A guerra acabara, mas seu destino continuava à espera. Ájax permanece em silêncio. Ainda ofendido porque as armas de Aquiles foram entregues a Odisseu, recusa até mesmo a palavra. É um dos momentos mais belos do poema: já não existe disputa possível, e ainda assim o ressentimento permanece. O Hades não cura o orgulho.
Então vem Aquiles. Talvez nenhum encontro seja mais desconcertante para quem acabou de ler a Ilíada. O maior guerreiro da Grécia, aquele que escolhera uma vida breve em troca da glória eterna, desfaz a própria lenda com uma única declaração: preferiria servir como trabalhador de um homem pobre a reinar sobre todos os mortos. É difícil exagerar a força desse momento. Durante centenas de versos, a epopeia ensinou que morrer jovem pela glória representava o destino mais alto de um herói; basta um encontro no Hades para que o próprio Aquiles coloque essa certeza em dúvida. Homero não destrói a epopeia que criou, mas abre dentro dela uma fissura pela qual se torna possível entrever o preço da glória.
A essa altura, Odisseu já não escuta apenas histórias particulares. Escuta o avesso do mundo heroico do qual ele mesmo faz parte. O Hades não nega o valor da coragem, mas devolve aos feitos aquilo que o canto de vitória costuma apagar: o corpo perdido, a casa abandonada, os anos que não serão vividos. A resposta de Aquiles não anula a Ilíada; faz com que a leiamos novamente, agora sabendo o que o herói dirá quando sua glória já não puder lhe servir.
Depois aparecem Minos julgando os mortos, Orion perseguindo eternamente as feras que caçava em vida, Tântalo cercado pela água que nunca consegue beber, Sísifo empurrando a pedra montanha acima. São imagens tão conhecidas que a tradição acabou por domesticá-las. Tântalo e Sísifo se transformaram em figuras de linguagem, e esquecemos o quanto deviam ser perturbadores quando surgiram pela primeira vez. O que impressiona, contudo, não é somente a variedade dos castigos. No Hades, ninguém explica a dor. Nenhuma divindade aparece para afirmar que ela era necessária ou convertê-la numa lição capaz de justificar a ordem do universo. Os mortos contam e Odisseu escuta.
Essa diferença é discreta e profunda. Na Ilíada, quase toda morte encontra algum lugar dentro de uma rede de causas: há um deus por perto, uma vingança, um destino, uma honra que o canto preservará. No Hades, as justificativas ficam na superfície do mundo. Debaixo da terra restam aqueles que sofreram. Os mortos não discutem se a dor foi justa; contam como ela foi. Talvez por isso o canto XI me pareça o lugar mais humano de toda a Odisseia. Na ausência dos deuses, ninguém precisa defender a ordem do universo.
Odisseu regressará levando consigo essas vozes. Não aprende um novo caminho marítimo nem recebe um segredo dos deuses. Volta carregando histórias, e talvez essa seja a transformação decisiva produzida pela descida. Até ali, era sobretudo um homem de astúcia; depois do Hades, torna-se também um homem de memória. A astúcia permite sobreviver, enquanto a memória permite narrar. Quando volta ao mundo dos vivos, Odisseu não carrega somente a notícia do próprio futuro. Carrega Anticleia, Aquiles, Ájax, as mulheres esquecidas e todos aqueles que encontraram no sangue do sacrifício a possibilidade de falar mais uma vez.
É nesse ponto que a descida deixa de parecer um episódio da viagem e se revela como um dos centros do poema. A Odisseia costuma ser lembrada como uma história de retorno, mas cada vez mais me parece uma história sobre aquilo de que ninguém retorna completamente. O homem que regressa a Ítaca não é idêntico àquele que partiu. Viu o que existe sob a glória, ouviu os mortos e descobriu que toda casa para a qual se volta já foi modificada pelo tempo da ausência.
Falta, porém, um último encontro — ou um último olhar. Depois de Héracles, que atravessa a cena como uma sombra entre sombras, sobe das profundezas o rumor da multidão dos mortos. É então que o poema nomeia um medo de cor estranha: chlōron deos. Os tradutores hesitam diante da expressão. Verde, amarelo, pálido: talvez seja simplesmente a cor que abandona o rosto de um vivo quando a morte se aproxima. Odisseu teme que Perséfone lhe envie a cabeça da Górgona e foge. Manda soltar as amarras, corre para o navio. O canto termina com uma debandada, às pressas.
Sempre me impressionou esse gesto. Ao longo de toda a descida, Odisseu quis ver. Viu a mãe e fechou os braços no vazio; viu as mulheres que a epopeia quase nunca escutara; viu Aquiles arrepender-se da própria glória; viu homens cuja dor sobrevivera ao corpo. Diante da Górgona, entretanto, desvia os olhos. A morte já o cercara durante todo o canto, portanto a ameaça não pode ser apenas morrer. Quem encara a Górgona deixa de ser alguém que vê e se transforma definitivamente naquilo que será visto. Há uma diferença enorme entre morrer e tornar-se pedra. A pedra permanece, mas já não olha.
Enquanto relia esse trecho, comecei a desconfiar de que toda a descida preparava esse instante. O menino que repetia o Credo sem compreender aquelas palavras ainda não sabia o que era o Hades; sabia apenas que existiam lugares para onde a linguagem descia antes de voltar. Odisseu aprende algo semelhante. Nem toda visão deve ser conquistada. Há um limite além do qual o olhar deixa de produzir conhecimento e começa a destruir aquele que olha. Talvez seja essa a única lição que Tirésias, o cego, não poderia ensinar: reconhecer o momento de continuar olhando e aquele em que é preciso desviar os olhos.
Os deuses jamais aprenderão essa medida. Veem tudo e nada lhes custa. A imortalidade torna seu olhar absoluto, mas também o torna leve, pois eles desconhecem o risco que acompanha toda visão humana. O olhar de um mortal possui valor porque pode perder tudo. A Górgona é o preço desse olhar, a figura colocada na entrada da única experiência que Odisseu não atravessa. É justamente por não atravessá-la que ele pode voltar.
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Quanto mais penso nisso, menos me convence a ideia de que o heroísmo de Odisseu esteja em ter visto mais do que qualquer outro homem. Talvez resida em ter reconhecido onde deveria parar. Toda grande narrativa depende desse gesto. Há uma última porta que permanece fechada, uma pergunta que o narrador precisa deixar intacta para que a história continue respirando. O maior narrador talvez seja aquele que reconhece o instante de abandonar o canto antes que o canto o abandone.
Odisseu dá as costas à Górgona e rema de volta para o mundo dos vivos. É lá que as histórias ainda podem ser contadas. Sua descida teve início como uma busca por instruções, mas termina com a formação de uma testemunha. Ele não volta porque venceu a morte. Volta porque ouviu os mortos e ainda possui uma voz capaz de lhes conceder algum lugar entre os vivos. A literatura começa muitas vezes nesse movimento: alguém atravessa a fronteira, escuta aquilo que deveria permanecer em silêncio e retorna para prolongar a conversa.
Muito antes de Homero, eu aprendera sem compreender uma frase que dizia: “desceu à mansão dos mortos”. Durante anos ela foi apenas música. Depois vieram o Hades, Virgílio, Dante, Rimbaud. Hoje suspeito que todos eles já habitavam aquela cadência, escondidos dentro de uma oração que uma criança repetia aos domingos. Talvez a literatura se forme assim, com palavras que chegam cedo demais e permanecem à espera de que nossa vida finalmente as alcance.
Há, por fim, um verso de Ricardo Reis que rondou estas páginas desde o começo e ao qual somente agora abro a porta: “A resposta está além dos deuses”. Odisseu foi procurá-la exatamente onde eles não alcançam. Encontrou mortos que ainda desejavam falar, histórias que a glória deixara para trás e um limite que nenhum mortal poderia atravessar sem perder o próprio olhar. Depois voltou, porque toda descida à mansão dos mortos depende, em algum lugar, da esperança de que a conversa ainda não tenha terminado e algo me diz que muito se falará, ainda, de Homero.
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PS 3: Estarei na FLIP e prometo contar um pouco do que terei visto e apreciado por aqui, em um boletim diário.

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