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Efeito Prisma · Aug 13, 2026

Lidando com pensamentos intrusivos

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Rodrigo Pegoraro, Efeito Prisma · Efeito Prisma

O barulho mais intenso, muitas vezes, acontece por inteiro dentro da nossa própria cabeça. E o texto de hoje tem para mim um valor muito especial, porque ele é o fruto da minha própria história. Por isso, peço a sua licença para gastar um pouco mais de tempo falando sobre mim antes de falarmos de assuntos teológicos.

Por um longo período, convivi com a minha mente tomada por um turbilhão de pensamentos e achava que aquilo tudo era normal. A busca por um apoio psicológico ou psiquiátrico nunca foi algo inacessível para a minha família, porém o assunto sempre funcionou como um tabu entre nós. Até então, ninguém entre os meus pais e os meus irmãos tinha precisado desse tipo de acompanhamento. Porém, no ano de 2017, passei por um momento de forte pressão e de severa privação do sono enquanto dividia a minha rotina entre a faculdade em tempo integral, o meu serviço no Exército e o tratamento do meu pai contra o câncer.

Com o passar do tempo, entrei em um estado depressivo que veio acompanhado de uma tristeza profunda, de crises diárias de choro e de um sentimento constante de desesperança. Depois de um longo período de sofrimento, compreendi a possibilidade de estar enfrentando a depressão. Até aquele momento, eu olhava para os transtornos psiquiátricos com um certo preconceito e acreditava que ter uma doença mental indicava fraqueza. Porém, eu tinha uma amiga que já lidava com um transtorno e eu via a força com que ela caminhava no dia a dia. Assim, pedi a ajuda dela e agendei uma consulta com o psiquiatra que ela me recomendou.

O atendimento médico superou todas as minhas expectativas e trouxe o diagnóstico do Transtorno Obsessivo-Compulsivo, o chamado TOC. A princípio, essa notícia me causou um estranhamento, pois eu imaginava que o TOC se resumia aos tics e às manias de organização. Como o meu quadro se manifestava sem rituais físicos, como lavar as mãos sem parar ou checar as trancas das portas, levei um tempo para compreender. Na verdade, as minhas compulsões aconteciam de uma forma puramente mental.

Melancolia, 1894. Edvard Munch.

Conforme fui aceitando o meu diagnóstico ao longo dos anos, percebi que essa história fazia todo o sentido para mim. Afinal, eu já apresentava os sinais de uma predisposição ao transtorno desde quando eu era muito novo. Além disso, esse quadro acabou se desenvolvendo em ambientes marcados por uma forte rigidez e pelo legalismo. O meu aprendizado para lidar com os meus próprios pensamentos exigiu anos de uma boa terapia, de tratamentos adequados e de leituras diárias. Hoje, consigo me desvencilhar dessas ideias e entender que o conteúdo involuntário da minha mente difere daquilo em que realmente acredito.

Por isso, este texto nasce diretamente da minha vivência de lidar com os pensamentos intrusivos na minha rotina há bastante tempo. A minha intenção com esta conversa é trazer uma palavra de esperança tanto para quem já tem um diagnóstico quanto para quem nunca pisou no consultório de um médico. Afinal, percebo na caminhada da nossa igreja e nos momentos de aconselhamento que muitas pessoas sofrem em silêncio com as ideias invasivas. Isso vai desde a necessidade de checar a todo momento se existe um inseto no quarto até os pensamentos assustadores sobre machucar o próprio bebê, o que pesa na rotina e afeta diretamente as relações com as pessoas que a gente ama.

Aqui no Prisma, a gente entende que a estrutura da mente humana é uma criação boa e perfeita de Deus, pensada exatamente para o exercício do nosso pensamento e para a nossa comunhão com o Criador. Porém, a Queda alterou a direção das nossas faculdades humanas e trouxe desordem e ruído para a nossa vida interior. Assim, reconhecer que a nossa mente preserva uma estrutura criada para o bem nos dá a esperança real de reorientar os nossos afetos e de encontrar caminhos práticos para lidar com o barulho que existe do lado de dentro.

Afinal de contas, o que é um pensamento intrusivo? De uma forma bem simples e direta, trata-se daquela ideia, daquele impulso ou daquela imagem assustadora que surge de repente na nossa cabeça, de um jeito totalmente involuntário e sem a nossa autorização. Esses pensamentos brotam do nosso próprio universo de cognição e da bagagem cultural que nós carregamos no dia a dia. Por exemplo, no meio católico, é muito comum observar pessoas sofrendo com a escrupulosidade e com medos invasivos em relação à figura de Maria, justamente porque ela representa uma figura sacra nessa tradição. Para mim, como evangélico, esse tipo de pensamento sobre Maria nunca fez o menor sentido e chega a parecer algo bizarro. Por outro lado, no nosso ambiente evangélico, é extremamente frequente o pavor de ter cometido a blasfêmia contra o Espírito Santo. A pessoa é assaltada por uma dúvida terrível sobre ter pensado algo imperdoável, o que gera uma ansiedade profunda no coração.

O Lactea fez um vídeo que exemplifica exatamente como tudo isso funciona na prática. O vídeo tem alguns palavrões, mas acho que vale a pena assistir porque os palavrões são justamente os pensamentos intrusivos surgindo no meio da oração dele. O QUE É MUITO COMUM! De qualquer forma, se te incomodar, fique à vontade para pular o vídeo e continuar a leitura por aqui

É importante dizer que esses pensamentos não são neutros. Como cristão, compreendo que a presença dessas ideias torturantes na nossa mente é um resultado direto da Queda e da corrupção da nossa natureza humana. Em Mateus 15:19 o próprio Jesus nos ensina que é do coração que procedem os maus pensamentos. Como a nossa natureza foi afetada pelo pecado, o nosso interior se tornou um terreno propenso a gerar esses ruídos desordenados. O próprio Cristo, por possuir uma natureza perfeita e sem o pecado original, viveu uma experiência bem diferente da nossa. Quando Ele foi tentado no deserto, a provocação aconteceu totalmente de fora para dentro, trazida diretamente por Satanás. No nosso caso, as intrusões mentais muitas vezes surgem do nosso interior decaído, embora isso não signifique de forma alguma que elas definem a nossa verdadeira identidade ou o que nós realmente cremos e pensamos sobre algo.

Há muitos anos passo pela Terapia Cognitivo-Comportamental, a famosa TCC, que me ajudou demais a entender e a manejar os meus próprios pensamentos na prática cotidiana. No entanto, no meio cristão, eu sempre procurava por leituras que juntassem essa minha fé com a realidade dos pensamentos intrusivos, mas quase não encontrava nada que tratasse do assunto com a profundidade necessária. Essa minha busca começou a mudar de verdade recentemente, quando iniciei os meus estudos em uma pós-graduação na área de Psicoteologia. Foi nesse curso que tive um contato abençoado com a sabedoria dos antigos Pais do Deserto. Ao estudar sobre o que eles chamavam de logismoi — um termo em grego para definir os “pensamentos-assalto” —, percebi que aqueles monges do século quarto já entendiam a nossa mente de uma forma impressionante.

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Quando um logismos — aquele pensamento-assalto do qual a gente conversou — surge do nada na nossa cabeça, o nosso cérebro entra numa espécie de estado de alerta máximo. A gente sente uma urgência quase física de resolver aquilo na hora. Se a ideia for algo feio, assustador ou blasfemo, o pavor aumenta e a tentação imediata é tentar discutir com o pensamento, provar para nós mesmos que não somos aquilo, ou nos punir por termos pensado algo tão absurdo. O problema é que, tanto para os monges do século quarto quanto para os terapeutas de hoje, essa tentativa desesperada de "consertar" a cabeça é exatamente o combustível que faz o pensamento intrusivo crescer.

Lá no deserto do Egito, os antigos Padres do Deserto já observavam o funcionamento da mente com uma precisão cirúrgica. Eles perceberam que o grande erro nunca foi a ideia bizarra bater à porta da nossa mente, mas sim a gente abrir a porta e puxar uma cadeira para conversar com ela — o que eles chamavam de syndiasmos, o acoplamento ou a conversa com a tentação. Quinze séculos depois, a psicologia moderna descobriu exatamente a mesma coisa no laboratório. O famoso experimento do "urso branco" e os estudos sobre o TOC provaram que, quanto mais a gente tenta suprimir ou combater um pensamento à força, mais o nosso cérebro entende que aquela ideia é "perigosa" e nos devolve a imagem com o dobro de intensidade.

E é aqui que entra um ponto crucial para a nossa caminhada de fé, onde a gente precisa ter um cuidado muito especial: o perigo de transformar a oração em uma nova compulsão. Quando uma pessoa é assaltada por uma ideia invasiva ruim, a reação quase automática do cristão é tentar "limpar a consciência" fazendo uma oração rápida, quase como um ritual de purificação. A pessoa pensa: "Nossa, veio um pensamento horrível, preciso orar correndo para Deus não ficar bravo comigo". Só que isso não é oração de verdade; é um comportamento de segurança e uma compulsão disfarçada de piedade. Quando a gente faz isso, a gente está dando papo para o pensamento e ensinando ao nosso cérebro que aquela ideia involuntária realmente tinha o poder de nos poluir. A oração verdadeira é um lugar livre de comunhão e amor com o Pai, e não um sabão espiritual para lavar pensamentos automáticos.

Unindo a sabedoria do deserto com as melhores ferramentas da psicologia, a gente encontra um caminho de verdadeira leveza para o dia a dia:

  • Deixar a caixa passar (Nepsis): Em vez de brigar com a ideia, a gente aprende a praticar a nepsis, que é essa vigilância sóbria e tranquila. Você nota o pensamento chegando, entende que ele é só uma caixa fechada que veio e que vai, e não precisa abrir a tampa, não precisa se culpar e nem investigar o conteúdo. Ele é só um visitante chato, não o dono da casa.

  • Redirecionar a vida sem criar rituais: A gente simplesmente aceita a presença daquele ruído temporário e volta a atenção para o que estava fazendo — para o trabalho, para a conversa, para a rotina. Se você for orar, ore sobre a sua vida, sobre a sua gratidão a Deus e você pode até falar sobre os pensamentos que tem te assaltado, mas nunca ore “por causa” do pensamento intrusivo, para não alimentar o ciclo do ritual.

  • Trazer à luz na comunidade (Exagoreusis): Os Padres do Deserto ensinavam a revelar os pensamentos a um pai ou mãe espiritual, o que a psicologia chama de quebrar o segredo. Falar sobre essas ideias invasivas com um pastor, mentor ou terapeuta de confiança tira o monstro da penumbra. Quando a gente coloca a palavra em voz alta diante de alguém que nos acolhe com compaixão, a vergonha perde a força na mesma hora.

No fim das contas, a grande libertação que essa caminhada nos oferece é a permissão para parar de guerrear contra a nossa própria cabeça. A gente não precisa esterilizar a mente para ser amado por Deus. Saber que um pensamento involuntário não tem o menor poder de definir o nosso caráter nos devolve a paz para viver Coram Deo, diante da face de Deus, sabendo que a nossa vida e a nossa verdadeira identidade já estão perfeitamente seguras na graça de Cristo.

Muito obrigado por ter caminhado comigo até o fim deste texto! Espero do fundo do coração que essa nossa conversa tenha trazido um pouco de alívio e de esperança para a sua vida. Se estas palavras fizeram sentido para você, ou se fizeram você lembrar de alguém que pode estar enfrentando essa batalha silenciosa na própria mente, não deixe de compartilhar este artigo. Ajude a levar essa mensagem de graça, leveza e libertação para mais pessoas que precisam ouvir isso. Um grande abraço e até a próxima!

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Read the original on efeitoprisma.substack.com

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