Não se assustem há muito a se falar sobre o nada, principalmente na era de que todos sabem um pouco de tudo. A imagem que me vem é a de todos conectados em seus celulares, pinçando imagens, enchendo-se de conteúdo. Inflando seus cérebros com fofocas, fragmentos de falas, de livros.
No silêncio eu consigo escrever algo que preste ciente de que talvez não seja lida, mas não me importo.
O silêncio é interrompido pelos pensamentos enquanto caminho. Na mesma rua com poças da chuvarada pretérita. Diante do meu tênis a folha seca boia e a imagem dela e de outros personagens retornam. Vejo Matias com seu ar sério perquirindo a paisagem em busca de Vó do Caco. Ele não desconfia nem um dedinho sequer que ela partiu. Juju está no topo da árvore centenária girando a cabeça em 360 graus, olha para o mar e grunhe. Apresso o passo, as corujas são premonitórias, virá uma tempestade pior e talvez a ventania quebre todos os vidros lá de casa.
Torno a desejar o vazio, a ausência do pensamento. No muro branco que vejo nesse exato instante pode estar o que me move. Precisa a escritora de histórias ou precisa somente mergulhar no nada e deixar-se levar pelo prazeroso ou não ato de existir, deixar-se sem aguardar o retorno, somente contemplar.
Tudo isso porque liguei o celular todos os dias da semana passada, sequer me permiti uma folga. A cabeça estonteou, as vísceras sentiram, a tosse seca e insistente ocupou o espaço da fala. A solidão disfarçada de seguidores, a infinidade de bobinas de dopaminas, gatilhos estranhos que em mim causa um desprazer sem fim.
Sinto-me melhor lendo, escutando um LP inteiro ou escrevendo. E adoro escutar a voz de amigos queridos ao telefone, sim, os verdadeiros amigos que me chamam para suas casas e perdemos a noção da hora. Nas redes tudo é de plástico, fake, sinapses recortadas sem nenhuma contextualização.
Não pense você leitor que eu estou alienada no meu cafofo, estou somente espantada pela velocidade e pela falta de profundidade dos conteúdos. Os temas muito relevantes continuam desabastecendo a humanidade de esperança. Guerra, feminicídio, racismo, xenofobia, desigualdade social e econômica, crescimento estúpido da extrema direita, neofascismo, muros sendo erguidos a todo instante, inúmeros problemas em um mundo avesso ao diálogo e ao desejo real de minimizar tais conflitos.
E a escrita nisso tudo onde fica, ela precisa ficar conectada o tempo inteiro com o momento atual?
Do nada, depois de ter finalmente terminado o meu romance Onda Cabocla, de ter escrito uma novela infanto-juvenil, o mês de Agosto veio com o gosto de ressaca.
Não chamaria de ócio criativo muito menos de falta do que dizer. Preciso mais do que nunca e talvez esse texto seja o primeiro de muitos que virão de me conectar com o papel em branco, com as sinapses perdidas. Perguntei a mim mesma o que vi na tela em branco depois de meditar por meia hora. Senti a brisa oxigenar meus neurônios.
E brotou aqui uma imagem.
Enquanto digito as bobinas de prazer se dissipam e avisto pessoas se abraçando nas praças, conversam, discutem, perguntam seus nomes, lambem sorvetes, lábios, choram. Questionam ideias, poemas, romances, filmes, peças de de teatro. Escrevem e não mostram, assistem a shows na mesma praça e curtem a música ou não, se deixam levar sem mostrar ao mundo o que sentem e o que consomem. As pessoas vivem e não representam, e acreditem exibem sorrisos sinceros ou ficam coléricas . Elas passam a viver de fato.
Utópica imagem? certeza que sim. Mas eu tento o tempo inteiro permanecer nessa praça, a praça é o mundo que eu gosto de ter e sentir cá dentro. Um sopro, unguento de que vale à pena remar contra a maré dos internautas. Bobinas de prazer estão no abraços reais, no choro ao escutar nossos ídolos cantarem.O celular? Esquecido e com pouca memória repousa numa quina qualquer de mesa. Onde o deixei? Amanhã, talvez, amanhã, eu o procure porque mal ou bem preciso ler as mensagens, respondê-las e só.
sigo o fluxo das águas
de mim mesma
meus dedos seguem o compasso
das batidas do coração

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