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Do outro lado · May 5, 2026

Fim de semana, vamos no orelhão.

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Rakky Curvelo · Do outro lado

Faz um tempo já que eu vi a notícia da Anatel: até 2028, o Brasil será um país sem orelhões. E assim, esse marco de design, mas também de assessibilidade no Brasil dos mil acessos e mil jeitos, chega ao seu fim.

A primeira cena que me veio na cabeça foi a minha procissão mensal, com a minha mãe de guia e meus irmãos de acompanhantes, até o orelhão mais próximo de casa - que primeiro era só três quadras pra cima de onde a gente morava, perto da casa do Celso, da igreja, e depois ficou mais perto, na frente do bar do Ferreira. O motivo era sempre o mesmo: passar uns 30 / 40 minutos (ou o tempo que as fichas, depois substituídas por Cartões Telefônicos nos permitissem) falando com a minha tia e meus primos, lá de São José do Egito, no Sertão do Pajeú, em Pernambuco.

Obviamente, na época, a Rakky de 7 pra 8 anos de idade não entendia a dimensão dessa distância, mas era a gente, 4 pessoínhas na última rua que aparece no mapa de Caieiras, São Paulo, ligando, ouvindo, conectando, com a minha tia que estava a pelo menos uns 5 dias de viagem de ônibus de distância. Viagem inclusive que fizemos, quando eu tinha 5 pra 6 anos, pro batizado da minha irmã mais nova - meus tios maternos foram padrinhos.

Eu só achava mesmo era fantástico ter aquela viagem, colocar a ficha no telefone - minha mãe revezava, cada ida no orelhão, cada ficha nova era um filho diferente que colocava no aparelho, esperar o tom chamar, aguardar a minha vez de ouvir a voz daqueles familiares distantes, passar o telefone adiante, voltar pra casa. Eu também achava chique demais a minha tia ter telefone fixo na casa dela e a gente poder ligar para um número num horário qualquer e saber que ela é que ia atender. Sei que nem sempre foi assim, e que as irmãs trocavam cartas combinando o dia de ligar, o horário certo e o orelhão onde uma estaria esperando a ligação da outra.

Lembro da alegria da minha mãe de ouvir as novidades da família, de contar as nossas pequenas notícias o mais rápido que podia, marcar a próxima ligação, revezar os filhos para dar oi pra tia… E eu ali, uma das crias pegando o telefone, ouvindo aquele barulho meio estático e a voz longe da tia, das primas, dos primos, do tio… vozes que eu só tinha como vozes sem corpo por um tempo e que depois vim a conhecer de fato. A família brasileira, separada por sonhos, por luta, por dificuldades, mas unida na saudade que faz a gente fazer tanto…

No começo dos anos 2000, finalmente conseguimos ter dinheiro o suficiente pra termos, também, um telefone fixo em casa. Ai as viagens até o orelhão acabaram e as madrugadas usando a internet discada estavam para começar (mas isso é papo pra outro blog). A mudança entre preparar todo mundo, pegar a carteira da mãe, subir todo mundo as ruas até o bar do Ferreira e discar o DDD 087 e sentar no sofá, desligar a TV (ou abaixar o volume) e ligar fizeram a minha adolescência mais “rápida” do que os dias da infância. Hoje em dia, é só apertar um botão no WhatsApp e eu tenho vídeo da Tia Teca, das primas, dos filhos do primo, da família inteira. Tá tudo a um toque de distância, mas também a uma distância tão maior que os 5 dias de viagem de ônibus… imagina, o que na época era o insonhável 3 horas de avião + 3 horas de carro / ônibus / van, agora são no mínimo 16 horas de avião…

Eu sempre guardei um carinho gigante pelo orelhão, alli da esquina. Lembro até da surpresa do dia que tiraram o velho orelhão da frente do bar do Ferreira, o que eu não sei se foi uma reforma ou algum pedido específico, mas deixou um vazio na área. Aquele não será um dos mais de 38 mil orelhões que serão removidos até 2028, ele não existe mais fisicamente (só na minha memória mesmo). Aquele orelhão, os tantos de cartões e fichas, e essas histórias de minutos contados me ajudaram a criar um laço mais forte com a família da minha mãe, uma conexão da qual eu sempre vou ser extremamente grata. Em 2012, quando eu fui à São José do Egito pela segunda vez na vida, as vozes dos meus parentes eram muito mais do que apenas vozes - mas a minha criança interior tinha lembranças dessas vozes de outros tempos mais.

Depois de 55 anos da criação quase impossível da arquiteta Chu Ming Silveira, o orelhão tem seu fim anunciado. E eu não podia deixar de homenagear o objeto, que eu sei que faz parte tanto da minha infância como da consciência coletiva de milhares de brasileiros. Eu acho que vai demorar um tanto ainda pra cair a ficha…

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  1. “O Telefone Tocou Novamente” — Jorge Ben Jor (1970) : eu não tenho como não falar do ben, ben, ben, quero mais do ben, quero mais do ben, depois de um texto desse. O clássico da MPB do perfeito Força Bruta não é só a cara do Brasil, mas é uma representação lindíssima da aflição de esperar uma ligação de quem se ama. Eu também amo a melancolia dessa música, porque eu sou dessas.

  2. Clair Obscur: Expedition 33: esse jogo fez um ano e é exatamente o tipo de coisa que prende qualquer ser humano no console por horas a fio. A história, que de primeiro relance parece apenas mais um jogo de lutas, baseado em algum tipo de RPG, ganha nuances a cada novo game-play, com diversas reviravoltas de deixar qualquer um de queixo caído, desenrolares surpreendentes e até dois finais possíveis, em um cenário extremamente bonito, com um set a lá Belle Epoquè e uma trilha sonora mais que perfeita.

  3. Sentimento do Mundo: Carlos Drummond de Andrade: finalizei esses dias a releitura desses poemas do Drummond e me reapaixonei pelo mineiro. A coisa mais incrível é que Drummond, ali no distinto 1940 já estava tão isolado e tão conectado ao mundo quanto a gente quer ser daqui, do nosso bonito “futuro” em 2026. De Itabira para o Rio, Drummond falou diretamente comigo do Brasil pra Irlanda em Elegia 1938, Ode no Cinquentenário do Poeta Brasileiro, Congresso internacional do medo, Os Mortos de Sobrecasaca e vários outros poemas. Obrigada Drummondzinho, um beijo!


    E eu fico por aqui. Até a próxima.

Read the original on dooutrolado.substack.com

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