Uma das coisas mais bonitas que morar na Irlanda me proporcionou — ou intensificou — foi o meu orgulho absoluto de ser brasileira. Orgulho mesmo, paixão desgarrada, um misto de amor incondicional pelas quatro cores da bandeira, o verde, amarelo, azul e branco, a lágrima que rola no rosto toda vez que vejo a nossa música, o nosso teatro, o nosso cinema, esporte, economia sendo reconhecidos mundo a fora, o brilho nos olhos de encontrar outros brasileiros por aí, dando o sangue, lutando, fazendo acontecer. Esse sentimento imenso e cheio de nuances já existia dentro do meu ser, mas, ao longo dos anos na Irlanda, se transformou em algo quase fora do controle. Talvez seja a nostalgia, a saudade, a mistura de tudo isso ou o fato de que, por aqui, todos os dias, eu consigo ver como somos diferenciados. Do melhor jeito possível.
Porém, esse orgulho também tem um lado bem difícil de lidar. Eu fico absolutamente em choque quando vejo outro brasileiro ou brasileira falando mal do nosso país. Da nossa cultura. Das nossas pessoas. Esbravejando, falando para os quatro cantos o quanto somos isso ou aquilo. Cara, qual é teu problema?
Vocês querem saber quantas vezes eu já vi um cidadão irlandês parar seu precioso tempo para escrever um esculacho a respeito de seu povo e jogar no Twitter? Ou um colega francês ir esbravejar no LinkedIn a respeito de como seu povo é isso ou aquilo? Ou ainda algum estadunidense parar pra falar mal de seu país num fórum, num blog, num conteúdo por aí? Gente, é bem sério, nós precisamos parar de fazer esse barulho ridículo pra falar mal de nós mesmos. Porque isso só coloca a gente pra baixo.
E não porque outros países não tenham do que reclamar. Cara, existem problemas em todo canto do mundo e aos milhares. Aqui na Irlanda, tem moradores de rua. Tem crise habitacional. Tem violência doméstica. Tem assalto, tem trânsito, tem gente pilantra. Como em qualquer lugar do mundo.
Mas tá aí… o que sempre vejo falar são os problemas gerais, os desafios que cada país enfrenta, o que tal ou tal grupo político tem feito, por que as opiniões X e Y podem ser questionadas… então, não é o povo irlandês inteiro que é de mau caráter, abusador ou mesquinho, é o Conor McGregor que é um imbecil. Não é todo mundo dos Estados Unidos que tem tendências fascistas; são os Trump-supporters que não se arrependeram em 2025.
Então, por que é que, quando uma criadora de conteúdo vê seu trabalho ser copiado por uma outra pessoa e denuncia, tudo o que se tem a dizer a respeito do caso é que a tal criadora (ou casal de criadores) que a copiou é brasileira e, é claro que é brasileira; brasileiro é tudo pilantra.
Porra gente, não! Eu vi a repercussão do caso como muitos por aí viram, e que raiva, gente. Acho absolutamente absurdo uma pessoa ter a coragem de fazer algo assim, na cara dura, copiando o conteúdo dos outros e submetendo o trabalho para receber prêmios, sem a menor vergonha. É errado, sim, e que os responsáveis paguem pelo seu erro. Mas gente, nós não somos todos pilantras, não somos todos copiadores, não somos todos mesquinhos, maldosos, cheios de segunda intenção, não somos os maiores malandros do planeta Terra, não somos as pessoas mais desprovidas de vergonha na cara que existe. Somos um país cheio de gente boa, honesta, educada e de bem, de gente criativa, de gente inovadora, de gente que faz o bem sem olhar para quem. E temos as exceções, as pessoas que são mesquinhas, maldosas, malandras, preguiçosas. Como qualquer outro país tem. Em todo o planeta. Em todo cantinho, pode procurar; você vai achar um filho da puta, não tem erro.
Porque é que a gente tem essa tendência tão feia de achar que tudo é pior do nosso lado? A grama é mais verde no vizinho mesmo? Que a gente não tem jeito, que tá todo mundo fodido, que não tem futuro o país do futuro?
O complexo de vira-lata, cunhado pela primeira vez por Nelson Rodrigues, continua nos atasanando, como uma praga que não cessa de perseguir, de fazer presente e de tirar o brilho das nossas mais incríveis conquistas.
Quer saber do que mais? A gente acabou de mandar pra cadeia uma caralhada de general de 7 estrelas e um ex-presidente da república. Por tentativa de golpe de Estado. Sabe quem queria muito ter feito isso? Isso mesmo, uma grande parcela da população Norte-Americana. O sistema judiciário deles não fez o que o nosso fez.
A gente também acabou de sair das Olimpíadas com uma delegação majoritariamente feminina (274 atletas) e trouxe pra casa 20 medalhas: 3 ouros, 7 pratas e 10 bronzes. Diversas delegações de todo o mundo mandaram atletas com mais patrocínio, mais tempo de treino e mais investimentos e não conseguiram tantas medalhas quanto a gente.
Acabamos de encerrar uma COP histórica, no coração da Amazônia, com a participação de povos originários pela primeira vez desde que a conferência existe.
O mundo inteiro arregou para as tarifas impostas por Donald Trump, mas o Brasil foi lá e, com estratégia, foco nos nossos produtores locais e negociações, conseguiu se livrar delas. E o mundo inteiro tá falando disso.
A gente inventou o avião, porra! O relógio de pulso, a urna eletrônica, a máquina de escrever (essa é polêmica, mas é nossa), descobrimos a doença de Chagas e a esquistossomose, criamos o primeiro soro antiofídico do mundo, inventamos (e somos muito orgulhosos) do nosso chuveiro elétrico (que sinto falta com frequência na vida de boilers e esperar pra esquentar a água da Europa), o brigadeiro, o escorredor de arroz, e tantas, e tantas outras coisas.
O mundo inteiro quer ser latino-americano. O mundo inteiro celebra o Brasil e a América Latina o tempo inteiro, com a nossa música, culinária, cultura, moda e jeitinho de ser. E aí, vou eu, do meu canto do universo, falar mal de brasileiro porque eu não aprovo a atitude do fulaninho de tal e, é claro, todo mundo aqui é igualzinho ao tal fulano? Meu amigo, me desculpe, eu tenho mais o que fazer…
PS 1: Eu não estou, de forma alguma, defendendo o plágio ou qualquer uso não autorizado de conteúdo original. Como jornalista, eu já tive diversos conteúdos meus copiados pelo mundo afora e não é legal — mesmo. Só que isso não significa que porque uma pessoa fez, todo mundo vai fazer igual (meu problema aqui é a generalização, só pra ficar explícito).
PS 2: Eu sei que o Brasil não é um conto de fadas. Mas também sei que não é a história do bicho-papão que muita gente pinta por aí.
PS 3: Tadinhos dos cachorrinhos vira-lata, mas por falta de termo melhor, tive que usar esse aí. Perdão!
1 - Ludov: parando para ouvir meus discos antigos, lembrei da minha cópia lindinha de Miragem, o disco do Ludov de 2014. Não é o álbum mais popular da banda, mas Na fila do B52's e Quem cuida da Casa são canções que sempre terão um lugar especial demais no meu coração. Ok, Disco Paralelo ainda é o meu álbum favorito, não tem como, mas esse aqui é um ótimo lugar pra o segundo posto, sim senhor.
2 - Terry Pratchett: estou lendo algumas obras desse muso inglês e eu só posso dizer que o omi sabia das coisas. Você provavelmente o conhece mesmo sem saber, porque ele é coautor de Good Omens (sim, com o Neil Gaiman), então você já sabe que é incrível. Quero trazer uma review mais completa de um de seus trabalhos nos próximos posts, mas poxa vida, corre aí e dá uma chance pro cara desde já!
Fico por aqui e até a próxima!
Rakky *&)

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