recebi o mesmo vídeo duas vezes.
na primeira, veio de um amigo com quem trabalho falando sobre homens, cuidado, violência, presença e transformação.
assisti como quem recebe uma referência. um material importante. uma chave. mais uma peça para pensar o trabalho que tentamos fazer com outros homens.
terminei o vídeo pensando no mundo. nos homens. na cultura. na dificuldade que a gente tem de escutar.
era tudo verdade.
mas ainda estava longe.
na segunda vez, o vídeo veio de alguém com quem eu vinha construindo uma troca mais íntima.
a tela era a mesma. o vídeo era o mesmo.
eu, não.
dessa vez, não consegui assistir como conteúdo. deixei o celular na mão por mais tempo do que precisava.
quando chegou por ele, pensei no mundo.
quando chegou por ela, pensei em mim.
não foi bonito.
meu primeiro impulso foi procurar uma saída. uma explicação. uma nuance. algum lugar onde eu pudesse me proteger de mim mesmo.
a velha frase apareceu rápido:
os homens também sofrem.
e sofrem.
eu sei disso. trabalho com isso. escuto isso. também carrego isso.
mas, às vezes, essa frase chega cedo demais.
antes da escuta. antes da responsabilidade. antes da pergunta mais difícil:
e se, dessa vez, o problema também for eu?
fiquei ali, olhando para a tela apagada.
não me vi no homem que grita. não me vi no homem que ameaça. não me vi na figura óbvia da violência.
isso tornou tudo mais difícil.
eu me vi no silêncio. no recuo. na ambiguidade. na presença que aparece e desaparece. na dificuldade de sustentar um desejo até o fim.
no gesto que não parece controle, mas deixa a outra pessoa sozinha tentando entender o que aconteceu.
há formas de poder que não fazem barulho.
algumas chegam como ordem. outras como confusão. algumas empurram. outras somem.
algumas deixam a outra pessoa tentando adivinhar onde pisa.
foi isso que me atravessou.
não como acusação. não como sentença.
como espelho.
e espelho, quando chega de surpresa, raramente é gentil.
há muitos anos eu falo sobre homens. sobre silêncio, cuidado, presença. sobre o quanto precisamos aprender a sentir sem transformar tudo em defesa.
mas saber nomear uma coisa não significa estar livre dela.
às vezes, o poder só muda de roupa.
tenho desconfiado cada vez mais dos homens que parecem prontos.
os que falam bonito demais sobre escuta, cuidado e vulnerabilidade sem deixar aparecer o chão instável onde tudo isso ainda está sendo aprendido.
desconfio porque também posso querer ser esse homem.
o homem que entendeu. o homem que leu. o homem que fez grupo. o homem que parece ter atravessado.
mas talvez ninguém atravesse de uma vez.
talvez a gente só aprenda a perceber mais cedo quando está repetindo.
o trabalho começa aí.
não no discurso público. não na frase bem colocada. não na resposta certa diante de outros homens.
começa na vida íntima.
no intervalo entre uma mensagem e outra. na conversa que dá vontade de evitar. na hora em que alguém diz que algo doeu e a primeira vontade é explicar que não era essa a intenção.
a intenção quase sempre chega limpa.
o efeito, nem sempre.
amadurecer talvez seja suportar essa diferença.
não dizer rápido demais que não foi por mal. não transformar o próprio sofrimento em álibi. não usar a palavra processo como esconderijo.
o processo só vale alguma coisa quando muda a forma como eu fico.
como eu escuto.
como eu respondo.
como eu reparo o que causei, mesmo quando não tive intenção.
não sei bem o que fazer com tudo isso ainda.
por enquanto, é não fugir tão rápido. ficar um pouco mais diante do incômodo. escutar sem preparar a defesa.
aceitar que uma mulher, justamente por ter sentido o efeito, possa me devolver algo que eu preferia não ver.
o vídeo precisou chegar duas vezes.
na primeira, para que eu entendesse com a cabeça.
na segunda, para que eu sentisse no corpo.
há uma distância enorme entre falar sobre transformação e ser transformado por aquilo que a gente fala.
eu ainda estou nessa distância.
não para virar um homem pronto.
esse homem talvez nem exista.
mas para não usar a ideia de caminho como desculpa para permanecer igual.
quando o vídeo chegou pela segunda vez, não trouxe uma resposta.
trouxe um espelho.
a pergunta é se a gente vai conseguir ficar ali.
sem transformar o reflexo em defesa.
sem quebrar o espelho.
sem sair antes da conversa terminar.
— R.
a pia tá limpa, por hoje.

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