tem uma coisa estranha acontecendo.
os problemas continuam.
o trabalho ainda aperta.
existem decisões esperando resposta.
o corpo cansa.
a saudade não avisou que ia embora.
e, ainda assim,
alguma coisa mudou.
antes, qualquer coisa me atravessava inteira.
um e-mail.
uma notícia.
uma conversa.
uma lembrança.
parecia que tudo encontrava um caminho direto até o peito.
eu reagia antes de entender.
agora existe um intervalo.
não é grande.
às vezes dura poucos segundos.
mas ele está ali.
entre o que acontece
e o que faço com o que aconteceu.
é um espaço pequeno.
mas nele eu consigo respirar antes de responder.
o curioso é que, justamente agora,
apareceu uma tristeza.
ela acorda comigo.
fica perto enquanto preparo o café.
encosta na pia enquanto lavo uma xícara.
senta ao meu lado durante o trabalho.
às vezes me acompanha até o jiu-jítsu.
em outros dias,
aparece quando vejo o Francisco inventando uma história qualquer.
ou quando a Maria fala alguma coisa
e eu percebo que ela está crescendo.
ela continua ali.
mas não está gritando.
não pede socorro.
não ameaça levar tudo embora.
ela simplesmente existe.
durante muito tempo,
achei que qualquer tristeza fosse sinal
de que alguma coisa estava errada.
que eu precisava consertar.
marcar terapia.
mudar a rotina.
dormir mais.
produzir mais.
rezar mais.
como se tristeza fosse sempre uma emergência.
não gosto de romantizar a dor.
conheço bem demais o tamanho que ela pode alcançar.
mas começo a desconfiar da pressa
com que tentamos expulsar qualquer tristeza
antes de escutar o que ela veio fazer ali.
esses dias descobri uma novidade pequena.
eu posso acordar triste.
posso trabalhar.
rir com as crianças.
escrever.
treinar.
tomar café.
amar quem está comigo.
e continuar triste.
uma coisa
não cancela a outra.
não preciso vencer a tristeza.
nem desaparecer dentro dela.
às vezes,
basta perceber que ela chegou.
abrir a janela.
preparar o café.
lavar o que ficou na pia.
e seguir.
— R.
a pia tá limpa, por hoje.

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