Todo sonho não realizado torna-se um fardo.
(Não sei quem disse isso, mas tinha razão.)
Essa semana desisti de um grande sonho. Não me venha com “você não devia desistir”, eu sei. Mas estou cansada e vou te convencer de que tenho razão. Ou não. Escuta só:
Era um sonho que já vinha desde 2019 e que se realizou parcialmente. Contrariando todas as expectativas, consegui o emprego dos sonhos como assistente na repartição do Império Além-Mar. Ainda assistente, fiz ótimas entregas e chamei atenção do chefão. Até elogio em dinâmica interna eu recebi: em um post-it amarelo, com uma caligrafia corrida de quem escreveu apoiando na própria mão.
Guardei como se fosse uma carta de recomendação de ouro. Isso tudo no período de experiência, veja bem.
De acordo com todo o meu time, dos seis assistentes da vez, se alguém fosse efetivado, eu era a concorrente mais forte. E eu estava feliz com isso, embora soubesse que dependeria de abrirem uma vaga para efetivação — leia-se, algum efetivado sair e abrir espaço para que eu ficasse. Se isso não acontecesse, a porta da rua seria serventia da casa, mesmo contra a vontade do time inteiro.
Orçamentos são escritos em pedra, entende?
No entanto, veio a Calamidade. O mundo pegava fogo, os animais enlouquecendo. Estávamos reféns de objetos voadores que não conseguíamos ver. Todo mundo teve que aprender magia e alquimia em tempo recorde para proteger suas casas.
Quem não conseguisse impedir a entrada dessas criaturas invisíveis, pereceria.
No meio disso tudo, meu tempo de contrato chegava ao fim. Um fio de esperança brilhou alguns dias antes da data final, no fundo da minha caixa de correio. Ele amarrava uma carta me avisando que com a disponibilização de orçamento para emergências climáticas (como a Calamidade), abririam espaço para mim temporariamente.
Eu ganharia uma pequena promoção e mais alguns meses de emprego. Fiquei feliz, afinal, a Calamidade não estava sendo fácil para ninguém.
As barreiras de proteção que fiz ao redor da minha casinha minúscula não impediam a entrada da fuligem e dos cheiros da morte que vinham de fora.
Mas por mais algum tempo, eu ainda teria dinheiro para continuar viva.
Minha família respirou aliviada. O patriarca liderava as tropas do Oeste no combate à corrupção que se aproveitava da Calamidade, enquanto também tentava proteger seus soldados dos inimigos invisíveis. Um ótimo líder, não perdeu ninguém. Me aconselhava que talvez eu devesse voltar para a casa deles, onde ele também poderia me proteger.
Não quis. O mundo nunca seria tranquilo, mesmo se se recuperasse da Calamidade. Eu precisava aprender a me virar e viver sozinha. Então, naqueles meses extras que havia ganhado, continuei fazendo minhas entregas excelentes e me destacando.
Até que chegou a hora do fim.
Eles ainda tentaram me transferir para outra repartição, para que eu não ficasse desamparada. A cultura organizacional lá também era boa, mas ninguém me conhecia direito e eu não me sentia em casa. Não me importava; o importante era conseguir trabalhar. Mas seis meses depois, a repartição foi destruída por uma invasão e eu nunca mais ouvi falar deles.
Sozinha, na minha casinha minúscula, fiquei esperando dias a fio por algum contato para retomar o trabalho, mas ele nunca veio.
Desesperada, me agarrei à primeira oportunidade que apareceu. Não sou de me arrepender das minhas escolhas, mas essa vou admitir que deveria ter deixado passar.
Por fora, era um trabalho normal, na repartição de outro Império, um do Oriente.
Por dentro, era um apanhado de trabalho técnico, sessões de tortura velada e lavagem cerebral. Comecei a enlouquecer.
A única coisa que me dava forças para seguir buscando algo melhor era a lembrança da outra repartição.
Fiquei um ano e meio. Quando finalmente consegui sair, meu coração estava à beira do colapso, meu corpo inchado pelo afogamento constante e, meu cérebro, danificado e sem conserto.
Todas as noites que passei chorando, sonhava em voltar para minha querida repartição, com meus queridos amigos e um chefe que apreciava minha criatividade.
Desde então, se passaram anos.
Toda vez que uma oportunidade na repartição do Império Além-Mar aparece, me inscrevo e torço para alguém ainda lembrar do meu potencial, da jovem que fui antes de tudo. Mesmo apenas uma sombra, sinto que só preciso que alguém acredite em mim outra vez.
Hoje meus sonhos estão se transformando, mas a saudade de ter um futuro brilhante pela frente sempre faz meu coração pesar. Toda vez que vejo uma oportunidade de voltar à minha querida repartição, onde fui tão feliz, aquela pequena faísca dos sonhos mais antigos reacende meu peito.
Lembro de tudo que fui, faço promessas ao Universo que, se dessa vez der certo, farei de tudo para voltar a ser aquela pessoa cheia de futuro. Mas meu currículo não mostra mais essa pessoa; apenas a sombra dela.
O fio de esperança nunca mais brilhou na minha caixa de correio.
E eu me decepciono todas as vezes, mesmo que após a terceira tentativa, a ficha tenha começado a cair.
Então, essa semana desisti.
Decidi que preciso assumir quem me tornei, mesmo que apenas uma sombra.
Como as sombras sobrevivem se o objeto atrás do qual se escondem desaparece por completo?
Me mandaram romantizar a vida, mas não acho que deu certo. O texto de hoje é sobre as carreiras que a Calamidade desviou. Se alguém souber para onde ir, avisa o coleguinha do lado.
📺 Para assistir: A Diplomata (série)
🎧 Para ouvir: Good Years - ZAYN
👀 Para ler: Onde o vento faz a curva - Larissa Brasil

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