Era o homem na verdade, ao mesmo tempo tão poderoso, virtuoso e magnífico, tão vicioso e torpe? — Frankenstein, de Mary Shelley (Trad. de Miécio Araujo Jorge Honkins)
Uma conta falsa nas redes sociais, um encontro com uma adolescente inexistente, um assassinato no escuro, contorno de imprevistos, uma cova em local muito, muito distante e a arma do crime enterrada longe do corpo.
Perfeito. Eles nunca seriam pegos. Não tinha como saberem. Seus nomes não foram mencionados nas conversas, não fingiram ser ninguém conhecido, a foto de perfil era feita por uma inteligência artificial qualquer de uma mocinha que não existia e no caminho planejado não haviam câmeras de segurança. Riram juntos ao falar disso. Até parece que ali teriam câmeras de segurança… Mal tinha gente. Quando arriscavam duvidar da própria capacidade, logo respiravam fundo e se centravam. Ia dar certo.
Executaram tudo perfeitamente. Quando um deles se feriu na briga corpo a corpo com a vítima, criaram uma história convincente para contar no hospital. A equipe médica não suspeitou que costurava mãos que haviam rasgado uma vida inteira.
Se em uma semana não fossem descobertos, estariam livres.
Três dias após o crime, a primeira manchete saiu:
Jovem de 18 anos está desaparecido após sair para encontro marcado através de rede social
Família busca informações com comerciantes locais para determinar trajeto feito pelo filho antes do desaparecimento; a polícia não tem pistas
Um mandou mensagem para o outro com a matéria: “viu?”. Não queria escrever muito, para não correr risco de criar provas contra si.
“Vi. Muito triste”, o outro respondeu em código. Haviam combinado algumas palavras-chave após jogar o último punhado de terra laranja sobre o corpo ainda quente da vítima. Triste = relaxa.
Não tranquilizou o primeiro, que era assombrado pelo espírito que havia forçado para fora da existência corpórea. Mas o segundo estava despreocupado. A família não encontraria nenhuma filmagem. Os comércios por onde passaram não os conheciam. Tudo corria como o planejado.
O primeiro passou os próximos dias suando frio. Ouvia a voz dele sussurrando em seu ouvido. A mesma voz que gritara por socorro, agora o chamava de assassino, culpado, vagabundo. Ele andava como se carregasse nas costas todo o peso do corpo que ajudou a carregar. A mãe, com quem morava, estava preocupada e convencida de que aquilo era doença. Nunca o havia mimado tanto. Fez as comidas favoritas do filho para o almoço, levou pão francês fresquinho com Toddy na cama de manhã. Fez questão de obedecer os horários do remédio que a amiga, cujo filho teve uma virose parecida, havia recomendado. Nada adiantava.
O segundo, vivia orgulhoso como se tivesse descoberto um talento que o renderia rios de dinheiro. Os espíritos que o acompanhavam se alimentavam do sabor da vitória macabra. O ajudavam a carregar o ferimento da mão como um troféu. No dia do fato, haviam sussurrado em seu ouvido a história perfeita: machucara a mão caindo de skate em cima de uma garrafa quebrada. Se fortaleciam nas mentiras, nas más vibrações e, toda vez que ele ameaçava se arrepender, faziam questão de encher seus pensamentos de justificativas para mantê-lo arrogante.
E aí… a maré mudou.
Vídeo mostra jovem em restaurante pouco tempo antes de desaparecer
Anderson Ribeiro, de 18 anos, foi captado em câmeras de segurança do local na noite de seu sumiço
Não fossem pelas pontas soltas, a dupla de assassinos teria passado ilesa.
A conta falsa de rede social que usaram para montar a armadilha? Rastreada até o computador do primeiro.
O restaurante onde marcaram o encontro falso? Alguns funcionários os viram observando a vítima e foram até a polícia quando a primeira notícia saiu.
O caminho escuro que seguiram enquanto a vítima estava desacordada? Não tinha câmeras, mas o vigia de um galpão próximo os achou suspeitos e apontou para onde haviam ido.
A cova em local distante? Era rasa e uma chuva leve fez a terra escorrer ao redor do corpo da vítima, que foi visto por trabalhadores a caminho do ponto de ônibus nas primeiras horas da quarta manhã.
O facão usado como arma do crime? A polícia encontrou facilmente ao investigar os arredores da cova.
Ao primeiro, restou pedir ajuda da mãe. De coração partido, ela o entregou. Quando o filho foi levado, ela ainda tentava conciliar as imagens de assassino e de filho, tão conflitantes em sua mente. Pensava sobre ter passado a última semana cuidando do jovem amado e sempre tão doce — enquanto ele se recuperava de ter tirado o filho amado de outra mãe.
O segundo, graças ao caguete do primeiro, também foi levado à delegacia. Sua família não estava em casa, então ao menos teve chance de evitar aquela vergonha. Vergonha de ter matado alguém? Não. Vergonha de não ter sido inteligente o suficiente para evitar ser pego.
Foram presos preventivamente. O primeiro, após ser interrogado, se encolheu no canto da cela, chorando copiosamente pelo último olhar que trocara com a mãe horrorizada. Era aquele olhar de mãe que te endireita de uma vez só. Quem lhe dera o tivesse visto antes de cometer o crime, pensava. Não teria feito. Certeza. Tudo aquilo para quê? Por uma moto que eles nem sabiam de fato quem havia roubado.
O segundo, enquanto era levado para o interrogatório, vendo a situação do comparsa, começou a se arrepender. Queria ter pensado melhor antes de fazer tudo. Mas não tinha mais jeito. Passou a pensar em viagem no tempo, no que teria feito diferente, que rota teria tomado.
Decidiu que não envolveria o primeiro, se tivesse outra oportunidade. Sabendo da reação do amigo ao crime, não queria que passasse por aquilo. Tinha compaixão, afinal. Pensou na própria família, que descobriria tudo e não saberia onde enfiar a cara.
Em um breve momento de clareza, pensou na família da vítima que, assim como a dele, teria que encontrar uma forma de seguir em frente.
Contou tudo isso ao policial, complementando que gostaria mesmo de ter conseguido o crime perfeito — mas que sabia que não dava para alcançar a perfeição sem treino.
Na manhã seguinte, a manchete era:
Assassino confessa morte de jovem desaparecido e diz que repetiria o crime
Anderson Ribeiro, 18 anos, foi vítima de emboscada. Polícia avalia que um dos acusados possui personalidade voltada à banalização da violência extrema
Esse texto foi um exercício de escrita baseado por alto no método de Moacyr Scliar para escrever crônicas. Ele lia matérias no jornal e criava narrativas fictícias sobre elas. Sendo assim, o texto também é baseado em fatos reais, infelizmente.
📺 Para assistir: Pessoas que conhecemos nas férias (dir. Brett Haley)
🎧 Para ouvir: These Walls (feat. Pierre de Maere) - Dua Lipa
👀 Para ler: Barquinho de papel - Jadna Alana

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