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diatribes modernas · May 27, 2026

o que minha alma vai assombrar?

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Giovanna Lobato · diatribes modernas

Já visitei as casas de grandes artistas e tenho uma lista de outras que quero visitar. Já passei pela casa do Pablo Neruda e do Carlos Páez Vilaró, tenho vontade de conhecer a de Jane Austen, mas foi a do Hemingway que me pegou essa semana.

Vi uma foto online de alguém num tour e a guia dizia algo como “não pode subir nos móveis, mas os gatos não sabem ler. E tá tudo bem, porque a casa é deles, na verdade”.

Imediatamente olhei para meus quatro gatos, numa cena rara, reunidos na minha cama e percebi algo dolorido.

Mesmo que eu me torne uma escritora gigante, não haverá um museu da minha casa… simplesmente porque esse lugar não existe.

Eu morei em algumas casas marcantes, em apartamentos bons e outros ruins. Mas já perdi as contas de quantos endereço tive em toda a vida. Na infância, minha família tinha até uma superstição de que teríamos que nos mudar assim que colocássemos quadros nas paredes. Aconteceu algumas vezes, então a decoração era só na tinta, mesmo.

Um dos meus sonhos de criança era ter uma casa para plantar uma árvore que pudesse visitar quando fosse mais velha.

Não sei exatamente de onde veio essa vontade, mas ela me persegue até hoje — ainda que eu já tenha entendido que não vai acontecer. Então penso em proporcionar isso aos meus filhos (que nem existem), mas sei que eles podem não ligar para isso. E eu devia evitar criar expectativas sobre pessoas que nem nasceram ainda.

Para eles uma casa velha pode não ser importante. A história deles pode ser escrita de tal forma que nunca nem sintam falta de raízes.

Mas a minha não é.

Eu sou parte da primeira geração da família a ir para longe, mas ainda cresci parcialmente perto. Só o suficiente para sentir falta. Pra ver, de longe, tudo que perdi pela distância. Às vezes, acho que doeria menos ir embora cortando relações, mas não consigo.

A cada mudança, sinto mais dificuldade de largar as coisas, mas também tenho ficado boa em discernir o que vale carregar e o que vale deixar ir embora. Não ter raízes não é de todo ruim, afinal.

Me tornou adaptável, me deixou mais livre para conhecer lugares novos e transformou minha mente numa massa flexível que vê um problema, analisa de várias perspectivas e considera que mudar de lugar pode ser a melhor solução.

Também me ensinou a fugir dos problemas (literalmente), a fugir das coisas boas para não ter que me despedir depois e a viver só. E que mesmo em um lugar incrível, a gente sempre vai sentir uma falta. Ou várias. Comecei a evitar comprar livros e fazer amigos.

Me tornei a pessoa mais insatisfeita que eu conheço.

Eventualmente, cansei de viver torturada e fiz um experimento.

Escrevi um pequeno devaneio, imaginando como seria minha vida num lugar só. Tentando ser realista, claro. Não funcionaria se eu pensasse só nas partes boas — e, nelas, eu já tinha pensado, de qualquer forma. Provavelmente eu estaria por perto para as brigas de parentes. Não teria para onde fugir no fim das férias, quando cansasse dos primos chatos. A árvore que eu queria plantar quando era criança poderia nunca ter crescido ou até apodrecido e precisado ser cortada.

No fim das contas, o maior problema para mim seria nunca ter saído no lugar.

A maior vantagem seria não saber como teria sido bom sair, porque a ignorância é uma bênção.

Pesando as duas opções, nunca ter saído do lugar seria pior.

As melhores oportunidades e experiências da minha vida não aconteceram ficando parada. Talvez as oportunidades fossem aparecer em qualquer lugar, mas as que vi chegarem para quem nunca saiu não me atraem. O que sempre me atraiu mesmo foi a viagem, o estranho e o novo.

Talvez a culpa seja da minha personalidade curiosa. Talvez eu só seja curiosa porque pude ver o mundo de vários ângulos e investigar… vai saber.

De qualquer forma, a solução achada na terapia foi me adaptar… outra vez. É quase irônico que eu precise me adaptar a ser adaptável, né? Mas o alinhamento de expectativas é importante.

A árvore dos sonhos se tornou um jardim de potes. Algumas plantas sobrevivem bem, outras não. Tenho algumas já fazendo aniversário de 5 anos e outras que sigo tentando fazer sobreviver mais de 5 semanas.

Aceitei que a parte mais pesada e preciosa das minhas mudanças serão meus livros e voltei a comprar livros físicos. Minha biblioteca também será viajante.

Eduquei meus gatos a serem adaptáveis. O mais velho deles já morou em 4 ou 5 endereços diferentes em 7 anos e é o gato mais de hábitos mais tranquilo do mundo. Podemos mudar móveis, trazer visita, mudar o horário da ração, etc. Ele só se estressa quando fica sozinho… por isso tem 3 irmãos. Sim, tem mais gato que gente aqui em casa.

Ah, essa é uma outra coisa que aprendi. É importante criar sua comunidade, mesmo pequena. E cultivar suas relações. As boas vão perdurar mesmo à distância. As melhores você vai acabar levando contigo para o próximo lugar.

Quanto ao museu da minha casa, espero que, se um dia ele for criado, seja nômade também. Para que a minha memória (e o meu espírito, caso eu resolva assombrar algo) siga viajando. E que tenha gatos vivendo lá para fazer companhia à minha alma penada.

Se um dia você se encontrar numa situação em que precisa se livrar da minha alma — à la Supernatural — e não souber o que queimar… a resposta seria minha coleção de livros. Mas você realmente quer ser a pessoa que queima livros?

Read the original on diatribesmodernas.substack.com

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