A cidade de Porto Alegre continua sob alerta de cheias. Muitos municípios vizinhos, fustigados pela chuva e pelas ventanias na enchente passada, passam a pedir novamente a declaração de calamidade pública. Os porto-alegrenses, em quase três semanas seguidas de intensas chuvas, estão preocupados com o nível do Guaíba, que se eleva, podendo engolir parte da cidade mais uma vez.
Enquanto isso, na seca, salva e não muito sã bolha nerd e privilegiada, os olhos se voltam para o filme do Homem-Aranha, com o subtítulo Um Novo Dia, o quarto da franquia estrelado pelo acrobático Tom Holland, carinha de bebê. Meu amigo Alexandre tem feito seu esforço para me tirar de casa. Não tenho me sentido muito saudável ultimamente, arrastando-me para manter alguns compromissos depois de ter encerrado a minha bolsa de pós-doutorado. Acredito que o Homem-Aranha seja o super-herói favorito do Alexandre, porque estamos combinando de ver este filme desde que vimos o último filme da Marvel. Ele está bem empolgado para o filme. Eu nem sei o que esperar. Afinal, minha praia são os quadrinhos; filmes e séries são só consequência.
Encontro ele no shopping quase em cima da hora, compro uma pipoca e o religioso chá gelado e entramos na sessão. Logo em seguida entra um trio de nerds amigos, um deles trajando uma máscara de plástico do Homem-Aranha. Tem algumas pessoas no cinema com camisetas estampadas do Homem-Aranha, mas não chegam a configurar cosplay. É a pré-estreia, mas eu nem me dou conta disso. Sei que nesse shopping a que fomos não é comum nem cosplayers nem as pessoas irem de bando assistir a filmes de ação. O cinema tem um perfil mais cult, tão cult quanto um cinema multiplex consegue ser.
Isso me remete a 2004, mais de vinte anos atrás, quando estreava o segundo filme do Homem-Aranha, interpretado por Tobey Maguire. Eu e meus amigos do estágio costumávamos comprar os ingressos uma semana antes do filme estrear e ficar duas horas sentados na frente da sala de cinema para pegar bons lugares na sala de cinema. Naquela época, os trailers começavam a ter estalidos e pruridos de contar toda a história. Era uma coceirinha e não uma massagem, como é hoje em dia, e já foi pior. Também o cosplay não era uma prática tão comum, pelo menos não em sessões de cinema e numa capital como Porto Alegre. Foi uma alegria nessa mesma sessão quando vimos uma pessoa fantasiada de Homem-Aranha pulando e saracoteando por toda sala de cinema (quando as salas de cinema eram enormes), tentando fazer uma performance acrobática. Hoje esse Homem-Aranha amador deve estar com tantos problemas ósseos e musculares quanto eu.
Eu e o Alexandre saímos satisfeitos do cinema, achando Homem-Aranha: Um Novo Dia o melhor dos quatro filmes do Tom Holland. Particularmente, achei uma mistureba heterogênea que por acaso deu certo. Tipo aquela receita em que você por acaso coloca um ingrediente que parece que não combina com o prato, mas acaba agradando pelo inusitado. Li o título de uma crítica dizendo que o Peter Parker do filme estava descaracterizado. Realmente, não é um Peter Parker clássico, com suas marcas essenciais. Mas com tantas aranhas no Aranhaverso, pode o verdadeiro Peter Parker, por favor, se levantar? Também li que o filme se parecia com um quadrinho ao estilo Marvel Team-Up (Grandes Encontros Marvel), e acho que pode ser algo assim, se o quadrinho tivesse sido publicado no Mês dos Editores Assistentes (entendedores entenderão).
Corta para sexta-feira, estou com meu amigo Gustavo na abertura da Livraria Libris, que fica ao lado do cinema deste outro shopping. Ali também, muita gente na estreia do filme do Homem-Aranha, muita gente da Geração Z e alguns Millennials usando roupas com o Homem-Aranha e seus incríveis amigos estampados. Inclusive algumas Mary Janes usando o uniforme do Aranha colante e algumas Mary Janes com suas Aranhas como namoradas (sim, flexionei o gênero correto). Corta mais uma vez para vinte anos atrás e como era difícil encontrar camisetas com nossos super-heróis preferidos, mesmo se eles fossem superstars como o Homem-Aranha.
Estamos no final de julho e no começo de agosto, época de férias escolares. Os ventos e os temporais deram uma trégua. É sábado e quando saio de casa, faz trinta e um absurdos graus em pleno outono quase inverno porto-alegrense. Vou fazer meu ranchinho da vez de quadrinhos em outro shopping (sim, sou rolezeiro de shopping, um dos lugares da cidade em que pessoas como eu, queer e nerd, se sentem mais acolhidas e seguras, e me sinto assim principalmente se tiver bancas ou livrarias). O shopping está ainda mais lotado, afinal, é final de semana e as pessoas querem aproveitar os poucos dias de férias e de tempo estável e, claro, aproveitar para ver o filme do Homem-Aranha, que está tão bem falado, né? Mais Gerações Z usando roupas do Homem-Aranha, mas agora também temos crianças e seus pais trajando acessórios e vestimentas aracnídeas.
Só que dessa vez minha experiência antropológica, minha etnografia de consumidores, me trouxe novos dados. É muito difícil encontrar novos leitores em bancas. Nas lojas da PaniniTM isso é mais comum, afinal, é todo um ambiente propício para isso. Mas as bancas e livrarias com quadrinhos são mais (ou menos) frequentadas por gente mais calejada. Na primeira banca em que eu entrei, no primeiro shopping, um guri de uns quinze anos (e meio) tentava convencer a mãe a comprar gibi e a mãe tentava convencer ele a não comprar. Mas esse gibi nem é do filme! Mas, mãe, isso é diferente, é quadrinho, não a história do filme! Mas nem é gibi do Homem-Aranha, tu veio aqui pra ver o filme! Mas, mãe, tem outros personagens! De repente, a mãe deu um perdido e o guri ficou lá vendo se a mesada dele dava pra comprar o gibi que ele queria, que custava uns vinte e cinco pilas.
Fiz meu ranchinho (como chamamos aqui quando acumulamos compras) e parti para a outra banca no shopping ao lado. Afinal, a distribuição de quadrinhos é tão boa, que os que chegam numa banca, nem sempre chegam na outra. Lá tinha um menininho de uns cinco anos olhando os gibis e conversando com eles, até que se encantou por ter percebido que conhecia um personagem: olha, o Hulk! Depois, fui na parte de quadrinhos da Livraria Paisagem. Lá tinha um jovem sentado no chão, de uns dezoito a vinte anos, escolhendo quadrinhos da estante, quadrinhos especificamente de super-heróis. Saiu de lá com um exemplar do Homem-Aranha de qualidade duvidosa. Pensei em alertá-lo para a qualidade do material e sugerir outro, mas não estava no meu dia mais interativo. Além disso, pode ser o primeiro quadrinho dele e ele pode amar. Isso costuma acontecer mesmo com os piores quadrinhos. Ele estava escolhendo os quadrinhos com tanto esmero e carinho, que achei bonito e me encheu de esperança.
Então esse texto sobre filmes e experiências de compras vem para mostrar a força dos filmes e as adaptações de personagens de quadrinhos para outras mídias, como os games. Assim como o sol de trinta e um graus que estabilizou o temporal depois de semanas em Porto Alegre, ainda resta um raio de esperança para o mercado de quadrinhos, para as bancas e livrarias. São espaços em que tanto amamos passear e fazer esse safari urbano, conhecendo novos mundos ficcionais e abraçando velhos personagens conhecidos.
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