Uma das minhas alunas de escrita criativa, sempre que nos encontramos, fala alegre “eu não imaginei que teria coragem de escrever, de assumir tudo que estava sentindo”. Acho incrivelmente bonita essa potência, trabalho para isso: fazer com que as pessoas tenham mais coragem de escrever apesar de acharem que o domínio das palavras lhes escapa. Na minha busca por coragem, acumulei uma porção de técnicas impulsionadoras da escrita, porque: as escolas nos tiram o tesão, a academia nos humilha. Fazem com que pensemos, a todo momento, que talvez não saibamos muito bem escrever. Mas, lendo algum livro sobre escrita que já não lembro qual é, percebi onde reside a maior fonte da minha coragem em escrever (e parece ridículo). Comecei a escrever, desde muito pequena, quando rabiscava micro cadernos com desejos e amores, enraizada na covardia em dizer. Talvez seja por isso que, dizem, sou muito boa em ajudar a destravar a escrita do outros. A angústia vem de dentro de mim e, como uma grande simbiose, acredito que todos nos sintamos assim: somos covardes demais, precisamos escrever. É isso ou não sei, a loucura é uma opção.
Há muito dentro de mim, como há muito em todos nós. Só que eu tenho esse ímpeto, essa vontade, essa necessidade estranha que acomete as pessoas da arte: compartilhar. Os meus cúmplices precisam me ler e participar dessa coisa amorfa que é sentir para não boiarmos sozinhos na existência; para fazermos algo além do habitual — juntos, nessa teia tramada pelas palavras. Se eu não puder falar, escrevo. Se me dói falar, escrevo. Se é demais falar, escrevo. E ainda bem que, se não falar, escrevo. Por algum lugar precisa sair. Porém, em algumas situações, é um tanto quanto ridículo.
Antes de uma viagem (que achava perigosa) em 2022 , fiz uma lista de pessoas para quem eu escreveria uma carta; pessoas que eram importantes para mim, mesmo que não soubessem. Percebi que o tempo era curto para tamanha presepada, então só escrevi acima da lista:
Muito antes disso, um dia briguei com o meu pai: eu queria morar fora durante a minha faculdade, mas ele não aprovava a ideia. É complexo explicar, reside um embolado de sentimentos nesse fato. O importante aqui é eu ter ficado muito chateada, principalmente por saber que no fundo daquela discussão residia um grande afeto. Nós nos amávamos, porém não sabíamos dizer. E eu não poderia dizer, claro, então escrevi. Escrevi uma longa carta com um conteúdo agora embaçado na memória, mas garanto ter sido uma rasgação eterna de mim. Escrevi para o meu pai que menosprezava até os meus bilhetinhos que acompanhavam o presente de aniversário, para quem a escrita não era assim tão grande coisa. Falar era uma grande coisa, escrever não. Com certeza ele não leu. Essa escrita da covardia. Entregar uma porção de palavras em algumas porções de papéis e esperar que tudo se resolva sem encarar as consequências frente a frente, sejam elas grito, lágrima, muco ou abraço. Há lugares em que a escrita não chega.
Em outro momento, cansada de me esconder atrás das palavras-papel, escolhi as palavras-voz. Era um momento marcante — eu estava namorando sério uma mulher e queria encarar contar, ouvir o som que a descoberta faria. As palavras saíram totalmente tortas e eu falei para além do que precisava. Cruzei as pernas das palavras, ressuscitei sentimentos e acontecidos, avalanchei o que estava preso. Foi a sessão de terapia mais conturbada da minha vida. O que era para ser simples (e que eles, por sinal, nem ligaram tanto), o fato de eu estar namorando uma mulher, virou um emaranhado de não ditos ditos de uma vez. Fiquei doente por meses depois disso: eu não conseguia mais dormir, a minha voz me atormentava.
Vindo para o presente: estou me preparando para uma despedida há alguns meses. Me angustia ter de falar com as palavras bêbadas, as que saem melecadas por sentimentos. Então eu lembrei: nossa, posso escrever uma carta de despedida! Por um tempo, me aliviou — ufa, poder escrever. Mas não há mais volta: da escrita, nessas situações, me salta o ridículo. É simples: apenas falar. É pior. E fico nessa enquanto não escrevo, enquanto não falo — cozinhando as ações. Provavelmente, vou me dobrar à escrita; ela só precisa, mais uma vez, vencer.
A escrita, essa que tem um peso denso. Quando, durante a pré-escola, queimei no banheiro de casa todas as cartas de uma amiga que havia me chateado, senti que meu pai — ao descobrir a fumaça saindo pelo vitrô e abrir a porta — veria o monstro que sou tendo ali na pia o corpo carbonizado da minha amiga. Quando começo a gostar de alguém dá para saber: tudo começa em uma carta e, nela, o corpo vivo do amor latejante em mim. Se a pessoa não ligar muito para o que escrevi, sinto minha carne rejeitada; se ela não me escrever nada, apenas eu doei meu corpo. O peso da escrita, o corpo da escrita. Não à toa, acredito que o texto é um corpo.
Mas, para além da escrita ter corpo, queria que minha voz também tivesse. Não esse corpo meio bamboleante no qual não confio, um corpo firme. Não vai ser possível — a escrita é pedra, a fala é água. A escrita eu consigo controlar, a fala não. Esse meu vício pelo controle. Uma cumplicidade. Controlo a escrita e ela me forma uma carapaça para proteger a fragilidade que sou. Se tirar todas as camadas de palavras encrostadas em mim, vai encontrar uma coisinha meio torta e gosmenta no meio da escuridão.

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