Os olhos estão doendo de tanto tentar mantê-los abertos apesar e por causa da noite difícil que tive: a minha cabeça contra mim, de novo. Mas tento usá-los mais um pouco, dessa vez para algo que me acorde o dentro: escrever. Não posso mais falar “abri uma página do Word”, porque agora uso WPS Office graças a uma restauração do notebook mal feita por mim; perdi o pacote Office, e é caro demais para comprar. O WPS Office de graça, bonzinho, bem parecido com o Word, apesar de a verificação ortográfica ser feita por IA e, dentre as sugestões, querer que eu troque “notebook” por “bonitote” e “Word” por “gordo”. Estou tão cansada que nem consigo rir disso, só me bate um desespero de onde o mundo vai parar - que piora porque não sei como colocar travessão aqui, o meu amado travessão. Enfim, abro o meu WPS Office, coloco em Arial 12, espaçamento 1,5 e justifico. Organizaçõezinhas que me ajudam a pensar, embora venham da minha formação acadêmica a qual me faz arrepiar só de pensar na possibilidade de escrever com Times New Roman - ódio seletivo.
Escrevo tudo isso tentando engatar, tentando fazer as pazes com a escrita, ela que deixei um tanto de lado porque precisava (um) arrumar dinheiro e (dois) tomar decisões difíceis. Nas minhas brechas de vida, estava acostumada a escorrer energias pensando em como alcançar essas duas coisas. Isso não me deixava ler, isso não me deixava escrever. E luto para que deixe agora. Apesar de já ter tomado as decisões (e ações) difíceis, ainda sigo em busca do dinheiro, porque essas decisões me fizeram precisar de mais e mais dinheiro. Que canseira. E eu sei, escrevi sobre isso na última newsletter: é justamente nesse momento que é preciso de arte; no meu caso, de literatura. Mas escrever é uma atividade de reflexão, você precisa estar aqui no Word ou no WPS Office e só. Você não pode se sentir como na floresta, perseguida por animais. Escrever não é multitarefa como a vida capitalista nos faz ser. E isso me fez lembrar desse tapa na cara que levei dando aula de redação da Fuvest para os meus alunos no final do ano passado:
Ou você come ou você reflete. Ou você escreve ou você corre incansavelmente atrás de dinheiro. Depois que li o trecho do Byung-Chul Han, comecei a observar mais a minha gata Luna e, realmente, ela não come em paz, qualquer barulho faz ela virar a cabeça agitada; às vezes, ela até esquece que está comendo e sai correndo por puro nada. Eu não quero continuar assim meio Luna. Então, tento estar apenas aqui, espremo os olhos e as palavras para que eles escorram algo que valha a pena. Um início, talvez.
Estou tentando me reconectar com a escrita de várias formas e acho que este texto seja sobre isso. Comecei a ler mais e o que está funcionando é ler em voz alta para abafar os atravessamentos. Além disso, para além das palavras aqui, que podem sumir facilmente com a desinstalação de um Word, voltei a escrever em cadernos - sentir as palavras saindo e permanecendo no papel. E queria mostrar para alguém além de mim:
Esse é o meu caderno de escrita livre: logo pela manhã, quando consigo, escrevo ou sobre meus sonhos e minha noite, ou sobre meu dia anterior, ou sobre os sentimentos, ou sobre reflexões e descobertas, ou sobre situações que não estão me deixando em paz...Enfim, se assemelha a um diário, mas também do qual me aproveito para tirar uma ou outra ideia que pode virar texto fora dele.
Esse é o caderno preto: eu gosto de chamá-lo assim “caderno preto”, como um caderno proibido (o da Valeria Cossati em “Caderno Proibido” também era de capa preta, acho). Sinto que tudo o que escrevo é proibido, mas nesse incubei um perigo mais específico: escrever minhas ficções pessoais mais perturbadoras. Fiz uma lista desses desgostosos embriões e alimento-os sempre que possível.
Esse é o caderno do romance: estou escrevendo um novo romance e gostei muito da ideia que a Anita Deak apresentou no CLIPE: escrever, junto ao romance, um caderno do romance. Lá, faço anotações de estudos e ideias; e, quando bate o desespero de não saber ao certo o que ou como escrever, recorro a ele para escrever sem culpa, uma escrita livre dentro da história mais ou menos determinada do romance.
Esse é o caderno de livros lidos: anoto todas as leituras que faço e escrevo pequenos textos sobre o que achei. Para resenhar no sigilo.
Esse é o caderno de estudos: todo curso que faço ou texto que leio sobre escrita tem um espaço nesse caderno, onde reúno essas informações para revisitá-las às vezes.
Além disso, criei uma comunidade de escrita para as mulheres da minha cidade e da região, uma forma de não me sentir tão sozinha lidando com as palavras. Se quiser saber o que é, entra neste link.
Acabo por aqui este texto meio chocho, talvez uma prova para mim mesma que estou fazendo algo. E escrever ou voltar a escrever é assim: você começa meio bosta para se elevar, a certo custo, um pouco acima dela. Treino e afinidade. Quero (ou não) voltar mais por aqui, principalmente agora que existe uma comoção geral entre os escritores de que: rede social é horrível para gente, que fala demais, escreve demais, querer divulgar qualquer coisa; e de que: newsletter é uma boa para isso.
Mesmo em fevereiro, desejo um feliz ano. Que a gente consiga existir mais em 2025.

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