Na pronúncia de algumas sílabas do veredeiro Santino ouvi a voz de meu tio-avô J., sua fala corrida contando histórias de tantos anos de trabalho em roças do Vale do Mucuri, como o protagonista sempre a carregar a faca na bainha de couro na cintura, ele que ensinou os sobrinhos-netos como se faz para abrir coco verde no chão — pá-pancada e sai seu irmão F. rumo à cozinha “buscar o instrumento adequado para a operação”, gira o coco pá-pancada e está aberto, no terceiro passo seu irmão entende que na verdade busca colheres, e entendemos nós, os sobrinhos-netos, sessenta anos da rivalidade fraternal — Tio J. era homem do seu tempo e se dizia meio cigano, no Natal abafado em Teófilo Otoni, entre elogios inadequados, leu o futuro nas linhas da mão de minha ex-namorada, que rica não vai ser, mas em todo o resto anda bem encaminhada, J. Sommerlatte, produtor de queijo, licor e aguardente, que quando o alambique fechou, não sei se por escolha idade ou bancarrota, passou a engarrafar e vender qualquer branquinha com os rótulos que sobraram da sua cachaça Sarajá, neles impresso seu sobrenome carregando as consoantes dobradas que a família foi perdendo com as gerações, consoantes e terras, Tio J. afetivamente, pra mim, a voz roseana por excelência. Agora descansa.
Começo com este o envio de alguns escritos da pós graduação, finalizada mês passado. Agradeço a professora Flávia Péret pelos comentários numa primeira versão do texto que incluía essa passagem.
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