Quando o cego perguntou, Você que enxerga, como sabe se chove, não escuto água e estamos a tantos quilômetros de nos molhar, respondi que é como camada de ruído, uma interferência sutil no que é habitual. Apresenta-se em baixa fidelidade a paisagem à distância. No ônibus que pego há anos, reparei que o mesmo ocorre com fumaça.
[Portas Abrindo.]
Dois ônibus da mesma linha cruzam percurso em sentidos opostos e se acenam buzinando, os motoristas gritam entre risos entre si;
sentado no assento do meio da última fileira, vejo os puxadores de mão dançando sincronizados durante a curva no viaduto, como naquele filme do Cao;
a vez que o motorista desceu pra comprar salgado na ida;
quando ainda havia cobrador, ele batia moeda ou chave duas vez no metal tlin tlin e as portas fechavam-se em seguida, sem necessidade de conferir retrovisor – depois disso já vi motorista fechando porta em menino engessado;
o passageiro com tourette e vergonha dos tiques;
a vez que o motorista acionou o freio de motor e desceu pra sacar o ordenado na agência da Caixa, na volta;
quando a porta da frente parou de funcionar e o motorista seguiu viagem, apontando o polegar rumo ao chão, como imperador moderno, ao janelar todos os passageiros possíveis nos pontos lotados do centro.
[Portas Fechando.]
Reparei que o mesmo ocorre com fumaça enquanto ouvia um podcast sobre bruxaria na História, dos romanos a salém — o que não acho que tenha a ver, mas foi o que aconteceu: percebi a textura pra lá da janela. Névoa branca em tarde de sol forte. Parou onde deu na Av. Amazonas e descemos todos. Motor fundido no primeiro dia da greve do metrô, que acabou privatizado.
O motorista deu sinal para o ônibus qualquer de rota parecida e explicou, corporativamente, a situação ao seu colega desinteressado. Subimos pela porta do meio, os passageiros transplantados, puxando conversa com aquela camaradagem momentânea de algo inusitado experienciado em conjunto. No dia seguinte, no horário de sempre, botei mais uma vez os fones e fingi não reconhecê-los.
Estava decidindo o próximo envio e calhou de na semana passada eu e J. ficarmos ilhados em outro ônibus. Dessa vez o motorista nem explicou nada. Só assobiou apontando pra porta do meio, sabendo que subiriam mais pessoas no próximo do que desceram do dele. O defeito é catraca livre no espírito dos funcionários cansados.
Agradeço a professora Laura Cohen e os colegas que editaram ao vivo uma primeira versão deste texto, à época em versos livres e influenciado pelo filme Paterson.
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