Esta é uma edição extra cujo objetivo é apenas escrever para lidar com a perda de um chefe e amigo, um mentor, do qual não ouvia novidades há muito. Vamos chamá-lo por seu login no sistema do banco, lá pelos anos 90: JECA (ou Jeca). Foi enterrado em 22/10/2020, há mais ou menos 6 anos…e só agora fiquei sabendo…
Corrigido às 15:08 por conta de um trecho incompleto e um erro de datilografia.
Jeca, como vai?
Tudo bem? Estou em dívida com você. Jamais poderei pagá-la - e vou saber disso para sempre - mas, por favor, permita-me falar um pouco de você e de como foi importante em minha vida pessoal e profissional.
Nos anos finais da graduação, Jeca, não sei se vai se lembrar, cheguei ao Departamento de Planejamento Econômico, do lado do seu - e meu futuro - Departamento de Planejamento Estratégico como um recém-contratado estagiário. O único que, na entrevista coletiva, disse que não sabia jogar xadrez (à época eu imaginei que o Clube de Xadrez de BH estava naquela sala…).
Logo descobri que nosso diretor trabalhava muito, mas muito mesmo. Um outro estagiário me recebeu e desenvolvemos uma amizade temporária, mas muito sincera. Os outros funcionários, bem, eu me lembro bem de alguns. Havia um que mal falava e só lia jornal o dia todo. Um outro passava o tempo todo em supostas articulações políticas. Alguns outros eram mais preocupados em que aprendêssemos algo. Boas pessoas.
Eu dividia a sala com a outra estagiária que havia entrado junto comigo à tarde. Pela manhã ficava o outro estagiário. Eventualmente a gente se encontrava à tarde. Você sabia vagamente disto, não é, Jeca? Afinal, vez ou outra, não sei por qual motivo, você passou a conversar comigo, quando visitava meu diretor. Nunca me lembrei bem de como nos conhecemos, mas sei que passamos a falar de coisas que nem sempre - pelo menos era o que eu pensava - tinham a ver com o trabalho.
Sua área era rica em relatórios mensais que não estavam no sistema - o famigerado Open Access II, que era uma espécie de Office para DOS. Nunca o vi em outro lugar que não o da empresa. Você deve se lembrar de como eu gostava do computador e de como eu falava, com entusiasmo, de fazer uma regressão múltipla com dados sem, nem ao menos, saber direito o que era aquilo. Eu era apenas um estudante do 5o ou do 6o período.
Talvez por isso você tenha mirado em mim, já que, além do QI elevado (do qual você se gabava….o Hildeberto falava sempre, não sem rir muito, que esse era o perigo: você era inteligente…e sabia disso), você gostava de nerds (ou assim eu lhe pareci, embora não soubesse jogar xadrez…).
Sim, sim, Hildeberto, o famoso “Debinha”, seu diretor, que também nunca mais vi. Outra pessoa entusiasmada com Economia. Aí, um belo dia, você apareceu na minha sala e me propôs mudar de departamento e, algum tempo depois, lá estava eu, na sala ao lado, do outro lado do corredor.
Myriam (ainda tenho um livro que ganhei dela), Fátima, Fernandinha, Hiram e, posteriormente, o arquiteto Rodrigo, dos que me lembro mais próximos de mim, fisicamente (eu dividia a sala com Myriam e Hiram e o Rodrigo ficava em outra, contígua). Eis a equipe que você comandava, Jeca.
Sempre que recebia alguém você me colocava junto em sua sala, para eu aprender a identificar a demanda e, com você, aprendi que as pessoas nem sempre chegam com demandas bem elaboradas. Lembro de ficar ansioso, achando que perdia tempo do meu trabalho e como, com o passar do tempo, aprendi que aquilo era, talvez, a parte mais importante do mesmo.
É, Jeca.
E os pacotes de cigarros que você escondia nos dutos do ar condicionado para, segundo você, “poder fumar em qualquer sala do departamento”? Você era dado a estes rompantes, gostava de se ver - e era - como um rebelde, um cara que não tinha medo de falar coisas que não se fala, mas que também sabia a hora de se conter.
Lembra de quando chegou com um disquete cheio de pequenos programas e mandou que eu parasse tudo e priorizasse aprender a mexer em cada um deles, entendê-los? E a minha regressão teve que esperar porque, claro, você me disse que eu tinha a tarefa de colocar tudo em planilhas (sem falar que eu tinha que aprender a organizá-las). No fim, se bem me recordo, fiz a tal regressão…que não fazia sentido algum.
Você não tinha horário. Quantas vezes chegou na hora do almoço e ficou até umas 22 h? Em algumas delas, eu, você e os vigias éramos os únicos no banco. Lembro-me que só me dava carona até o ponto de ônibus, ali na frente da TV Alterosa. Sacanagem, Jeca, mas, ok. Você morava ali pertinho e eu, à época, na Cidade Nova.
Depois de um tempo, até sua casa frequentei. Uma? Duas vezes? Você deve se lembrar melhor do que eu, Jeca. Ali conheci sua namorada e fui tratado como um filho…
Houve uma vez em que uma demanda te estressou e você passou a tratar mal a equipe. Foi quando eu resolvi arriscar tudo e ir até sua sala falar com você de como todos gostávamos de trabalhar ali e de como estávamos chateados. Nunca contei isso em detalhes, mas seus olhos lacrimejaram ali, diante de mim, em sua sala. Você me agradeceu e, dali em diante, o meu tempo restante ali - o meu e de todos - voltou a ser como antes.
Ah, Jeca, eu me lembro de como você odiava depender da Informática. Aprendemos com você a nos virar e talvez fôssemos o departamento que menos precisava de ajuda deles. Culpa sua. Mérito seu.
Jeca, o tempo passou e fui efetivado como um terceirizado graças a vocês. Meu primeiro emprego! Só que eu queria fazer um mestrado e o tempo com você e com todos era contado: tinha fim certo se eu passasse na prova da Anpec e assim foi feito.
A despedida, se me lembro de algo, foi muito emocionante. Jeca, eu procurei, mas não achei a única foto sua que tenho, algo tremida, creio que na casa do meus pais, onde eu residia. Creio que nesta mesmíssima despedida.
Você não sabe, mas me casei e me divorciei e ainda tenho comigo aqueles livros de Matemática da época. Falávamos muito sobre isto e, aliás, agora, lembro-me de como você me contou que, no colo da sua mãe, ainda criança, intuiu o que era uma integral. Naquele tempo, a moda era falar de Caos, o tal Caos Determinista. Tínhamos aqueles programinhas que faziam belos fractais no computador. Lembra de como falávamos sobre isso? Bem, eu me lembro, Jeca.
Outra coisa incrível: você adorava imprimir muita informação em um papel que deveria caber na palma da mão. Passamos muito tempo aprendendo a configurar a impressora e ainda tenho - sim, ainda tenho! - alguns destes pequenos pedaços de papel com piadas, dicas de impressão, medidas de conversão etc. É, Jeca. Eu guardei quase todos eles porque eles me lembravam de você. Alguns ficavam em minhas carteiras até que, há poucos anos, troquei a surrada carteira por uma menor e tive que guardar aquele monte de papéis. De certo modo, você sempre esteve comigo, veja só, na carteira…
Você foi meu segundo pai, meu pai profissional, Jeca. Não sei se alguma vez te disse isso, mas acho que você, lá no fundo do seu coração, sempre soube porque, como você descobriu após o dia em que entrei na sua sala arriscando meu estágio, é verdadeira a frase de que “és responsável pelo que cativas”. Talvez não exatamente ‘responsável’, no sentido de que tem que cuidar do que plantou no coração dos outros, mas de ser o causador de mudanças nas atitudes e pensamentos alheios. Você fez isso comigo e, creio, com todos estagiários e funcionário que por ali passaram.
Ao longo de tudo isto, também melhorei como pessoa. Você me ajudou a melhorar em muitos aspectos, com conselhos bem inusitados ou que me eram passados daquele seu jeito algo sério, algo espalhafatoso.
Fiquei te devendo esta visita, Jeca. Eu quis tanto reencontrá-lo, mas não o suficiente para procurá-lo com afinco. Falhei com você, meu amigo. Pelo menos compensarei uma parte desta dívida impagável que tenho com você em breve, em frente ao seu túmulo. Vamos falar dos velhos tempos e rir um bocado. Aguarde, Jeca. E não me venha com ‘churumelas’ (como você sempre dizia)! Senão eu te responderei com seu famoso: ‘vá prá peida’!
Você faz falta. Fique bem e me aguarde para, com sorte, tomarmos um chopp por aí.
Até mais ler, Jeca. Desculpe-me o atraso no envio desta.
(*) até mais ler” foi plagiado do Orlando Tosetto, cuja newsletter, aliás, você deveria assinar.
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