O v(6), n(27) foi manufaturado em manhã de chuva fina e clima fresco, algo frio. Ou seja, em uma bela manhã.
A vida solitária de Noboru - Noboru era assim: tímido com as mulheres, extrovertido com os amigos. Talvez muitos de nós sejamos como ele. De estatura mediana, mais ou menos um metro e setenta e dois centímetros, o descendente de japoneses usava sempre o cabelo curto, meio que reforçando o estereótipo que os brasileiros fazem dos japoneses há décadas, a despeito…das décadas.
Após formar-se em Engenharia Eletrônica - olha o estereótipo aí! - foi trabalhar em uma fábrica de aparelhos de som. Isso era lá nos anos 80, tempos em que as famílias eram loucas por um “3 em 1” (rádio, toca-discos e toca-cassetes). Sendo um trabalhador diligente, não demorou muito a ocupar um cargo de direção na fábrica. O salário era bom, permitindo-lhe uma vida confortável: viajava uma vez por ano pelo Brasil, nas férias, para conhecer o pais que atraiu seus pais (e os traiu com Getúlio Vargas na época da Grande Guerra do Pacífico?).
Noboru não fumava, mas curtia uma boa cerveja. Sempre dizia que era feliz por ter a oportunidade de se deliciar ao mesmo tempo com churrascos e temakis. Sempre que podia, alternava suas refeições diárias entre as duas gastronomias de sua vida. Não raro, podia-se encontrar em sua mesa, no almoço, um saboroso yakissoba seguido de uma lasanha no jantar (e cachorro-quente à tarde, quando estava em casa).
A rotina de Noboru dividia-se em 80% do tempo em casa, sozinho e 20% com os amigos, após o serviço ou no karaokê e foi lá que, um dia, conheceu Leila, a nova garçonete, loira (ou apenas pintava os cabelos? Ninguém nunca sabe realmente a cor dos cabelos de uma mulher…), branca como a neve - o que, sempre que a via, trazia à sua mente a palavra japonesa Yukinko (embora ela não fosse uma youkai…digo, acho que não era…ninguém nunca sabe…).
A primeira vez que a viu foi no balcão, quando foi pedir uma cerveja e uma porção de fritas. Espantou-se ao não encontrar a tia Yumiko e sim uma jovem mulher tão bela - pelo menos para ele - como nunca antes viu em seus quarenta e poucos anos. Tamanho foi o encanto que Noboru cantou como o rouxinol do imperador naquela noite (como se Leila fosse apreciar aquela música em língua tão estranha…).
Foi a noite em que Noboru mais vezes foi ao balcão fazer pedidos. Ora uma cerveja, ora uma porção de fritas, ora um sunomono…pediu até uma dose de whisky que, prudentemente, não tomou, embebedando a pobre planta que ficava próxima à escada…
Seu coração encheu-se de uma paixão curiosa (qual paixão não é curiosa, não é mesmo?). Entretanto, sua timidez o impedia de se aproximar de Leila para uma conversa que não fosse um pedido de algum item do cardápio. Naquela noite, Leila conseguiu o maior 10% de gorjeta da história do karaokê, como você pode adivinhar…
Noboru voltou para casa pensando em como iria abordá-la.
(continua)
Copa do Mundo - Letícia tem uma observação muito boa sobre a Copa.
Aliás, a Letícia também curtiu o comportamento da torcida japonesa.
Em seu Samurais Azuis, livro de 2022, o jornalista Tiago Bontempo afirma que este hábito de recolher o lixo teria começado em 1985, após alguém da torcida Ultra Nippon, ao final do clássico entre Coréia do Sul e Japão, observar uma senhora sul-coreana recolhendo o lixo ao final do jogo (na p.174 do livro, para ser mais exato).
A origem pode até ser esta, mas não explica porque a torcida sul-coreana não ser conhecida como aquela mais preocupada em retirar seu lixo após um jogo, no lugar da japonesa. Assim, fica uma lacuna em sua explicação.
Imigração é para todos? - Peter Boghossian tem um bom ponto.
Trecho:
(…) If we are going to accept refugees, we have a responsibility to ensure that they are able to function in what is to them, an alien society. In the UK, all unaccompanied minors are automatically given a court-ordered social worker who sits down with them, listens to their story and their trauma, and gives them a path, emotional and professional, towards a functioning life in the UK. To close that path to older asylum seekers risks repeating attacks like this one.
Responsible policymakers should be investing more money to immigrants in the form of social and integration services like professional training, and in the form of social workers who are able to guide them through the process of assimilation. We did not do that. We gave in to moral impulses without also doing the boring, tedious, and essential work of making sure those moral impulses are girded by responsible policymaking. We are now facing the natural consequences of that mistake in the form of markedly elevated crime rates among asylum seekers from high-violence regions.
Não tenho do que discordar. Imigração não é cheque em branco…
A moralidade da economia de mercado - Um livro interessante do IEA (think tank britânico) aqui. São tempos de críticas irracionais (até de alguns conservadores brasileiros que confundem liberals com liberais…erro básico que é indesculpável após todos os esclarecimentos que fizemos desde os anos 90 do século passado…) e publicações como esta são bem-vindas. Vários autores e uma diversidade interessante na temática ao longo dos capítulos.
A vantagem do estigma para empreendedores - Um excelente resumo de um artigo científico. Eis uns trechos.
The conventional perspective focuses on the demand side of markets. Moral disapproval discourages consumption. Some consumers avoid transactions because they regard them as unethical, while others fear social sanctions from peers, employers, or family members. Still others face practical obstacles created by moral opposition, such as advertising restrictions, reduced access to payment systems, or heightened transaction costs. Moral stigma frequently reduces demand.
However, stigma also operates on the supply side. Morally contested markets are often difficult to enter. Investors may hesitate to provide capital and manks may refuse services. Professionals may avoid employment in stigmatized industries. Large corporations may fear reputational spillovers that could damage their broader businesses. Politicians and regulators may create additional uncertainty. Potential entrants therefore face obstacles that are absent from more socially accepted markets.
From an economic perspective, these obstacles resemble barriers to entry. They reduce competition by discouraging participation. Entrepreneurs who are willing and able to bear the costs of operating in stigmatized environments may therefore enjoy advantages unavailable in conventional markets. The same moral disapproval that makes a market difficult to enter may also make it attractive to those who have already entered.
This observation suggests that stigma has two opposing effects. It suppresses demand, but it also restricts supply. Whether stigma ultimately benefits or harms incumbent firms depends on the relative strength of these effects.
Faz todo sentido! Leia mais aqui:
A Suécia tinha razão - Parece que a abordagem sueca para a Covid-19 foi mesmo uma das melhores. É o que diz este artigo científico. O autor tem um argumento técnico: os contrafactuais que mostravam o oposto tinham problemas (mas a imprensa não está nem aí para isso quando divulga seus estudos a favor da gordura, contra a gordura, a favor do ovo, contra o ovo…né?).
Aliás, lembro que Ciência é feita de consensos contestáveis. Caso contrário, não seria Ciência, mas Doutrina e não teríamos cientistas, mas fiéis. Aliás, acabo de me lembrar do “Planeta dos Macacos”, em que os cientistas eram também guardiões da fé pois, claro, não podiam permitir que alguém descobrisse que os homens haviam dominado a Terra antes deles. Este discurso moralista-xiita é exatamente o da ultra-esquerda brasileira, quando ocupa cargos em instituições de ensino superior. Não à toa, tentam expulsar quem pensa diferente.
Até mais ler!
(*) até mais ler” foi plagiado do Orlando Tosetto, cuja newsletter, aliás, você deveria assinar.
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Talvez você seja novo por estas bandas. Rapidamente: publico geralmente às quartas. Eventualmente há algumas edições extraordinárias. Assinar (custo = R$ 0.00 + valor do seu tempo para apertar o botão subscribe com seu endereço de e-mail lá…) me ajuda bastante. A temática? De tudo um pouco.
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