1.
Um Pequeno Pônei é um bonequinho colorido de uns 15 centímetros feito de plástico suave, com uma crina que às vezes tem as cores do arco-íris – a internet me informa que as crinas eram monocromáticas em 1983 e passaram e ter múltiplas cores em 1984. Eu tive vários desses pôneis. Tive esses pôneis em excesso porque tive brinquedos em excesso, o que estranhamente na época não me pareceu uma coisa anormal. Hoje eu sei que foi, e talvez a parte mais fora da curva ainda tenha sido manter esses brinquedos em um ótimo estado de conservação por tantas décadas, não porque eu continuava olhando para eles, cuidando deles, mas simplesmente porque eles estavam armazenados nessa espécie de museu da vida íntima que se tornou o apartamento da minha mãe. Um apartamento de nostálgicos, de gente avessa às mudanças.
Agora eu estou sentada no chão de outro apartamento em Porto Alegre, ar condicionado ligado a toda e uma dúzia de pôneis de todas as cores ao meu redor. Há pequenos pentes também, e fitas coloridas. Eu tenho 43 anos e estou penteando a crina de pôneis com a minha esposa, que é muito melhor do que eu em pentear crinas de pôneis. Hoje é também o dia em que estou ligada a um aparelho de pressão arterial que monitora minhas sístoles e diástoles a cada quinze minutos.
Vou tentar vender os pôneis nos Estados Unidos. Provavelmente terei que tomar remédio para pressão alta.
2.
Os pôneis são a ponta do iceberg – taí uma frase que nunca pensei que eu fosse escrever. Um ano atrás, paguei por uma mala extra e trouxe comigo um monte de brinquedos que pareciam ter um valor interessante no ebay. Foram 25 vendas naquela temporada. Descobri que as coisas dobravam de valor quando tinham as caixas, e esse era o caso da maioria dos meus brinquedos. Descobri que ainda ter os acessórios de bonecos articulados era raríssimo e extremamente valorizado. Eu tinha os acessórios, as minúsculas arminhas de plástico que encaixavam em mãozinhas fechadas de soldados e guerreiros e geralmente se perdiam em quintais ou casas de amigos ou no anonimato das caixas de outros brinquedos. Eu tinha sido uma menina muito organizada e filha única e talvez meio obsessiva que brincou com brinquedos de menino.
3.
Então uma segunda vez em Porto Alegre sabendo que nem tudo pode ser posto em uma mala. A vez do monitoramento da pressão arterial. Separo os Pequenos Pôneis e as Moranguinhos acreditando no exotismo dos itens – um pônei raro Made in Brazil! – e também ciente de que vendas intere$$ante$ foram recentemente feitas. Esperando, enfim, que não tenha sido algo fora do padrão; a pônei noivinha, com o véu intacto, foi vendida em dezembro por 275 dólares. Eu tenho a pônei noivinha.
Acrescento a esse pequeno lote quatro jogos de Nintendinho – caixa, manual –, dois jogos de disquete com caixas – The Day of the Tentacle e Indiana Jones: Fate of Atlantis –, um Batman, um Coringa e um Penguim dos anos 80 (com acessórios).
Para o grande volume das coisas, chamo o pessoal de uma loja para dar uma olhada.
4.
A dupla pai-e-filho não demonstra uma empolgação excessiva porque precisam ser negociantes frios e calculistas. É só pelo Instagram da loja que descubro que aquele é o maior lote de brinquedos que a Cacaredo já comprou. Uma semana depois, eu sou a “mulher que mora nos Estados Unidos” em uma matéria da Zero Hora intitulada Tesouro encontrado em apartamento de Porto Alegre.
5.
Na matéria, Ricieri Cunha, proprietário da Cacaredo, declara que “hoje, os brinquedos dos anos 1980 e 1990 são os [objetos] mais procurados. As pessoas querem matar a saudade ou realizar um sonho de infância.”
6.
A fenda no tempo é interessante. É insuficiente. É decepcionante.
7.
No livro On Longing: Narratives of the Miniature, the Gigantic, the Souvenir, the Collection, Susan Stewart propõe uma bela definição de souvenir. E estou aqui tomando a liberdade de considerar um brinquedo do passado – da sua cultura ou do seu passado íntimo – como um exemplo de souvenir.
O souvenir envolve o deslocamento da atenção para o passado. O souvenir não é simplesmente um objeto que surge fora de contexto, um objeto do passado que sobrevive incongruentemente no presente; sua função é, antes de tudo, envolver o presente no passado. Os souvenires são objetos mágicos por causa dessa transformação. No entanto, a magia do souvenir é uma espécie de magia falha. A instrumentalidade substitui a essência aqui, como acontece no caso de todos os objetos mágicos, mas essa instrumentalidade sempre opera uma transformação apenas parcial. Para que o desejo seja gerado, o local de origem deve permanecer inacessível.
8.
O local. A época de origem. Quando vendemos as coisas do apartamento dos meus avós, lembro de ter visto, logo no dia seguinte, um saleiro que pertenceu a eles sendo vendido em uma banca de antiguidades do Brique da Redenção. Aquilo me deixou transtornada e triste. Era 2017. Eu ainda não aceitava o ir e vir dos objetos. Eu tinha nascido em uma família de acumuladores, ou melhor, de guardadores. Tudo o que tocavam, precisavam guardar. Demorou muito tempo para eu perceber que nem todo mundo era assim.
Quase dez anos depois desse episódio do Brique da Redenção, passo diante da loja da Cacaredo no Shopping Total e vejo alguns brinquedos que foram meus. Passei a ver mais a falha do que a magia. Não sei se isso é bom ou ruim, mas é certamente mais leve.
Como vocês todos já devem estar sabendo, esse ano o Clube Nevoeiro alternará leituras de romances com leituras de contos. Nos encontros sobre narrativas curtas, vou fazer uma introdução com cara de aula, um pouco nos moldes do que faço nos meus eventuais cursos, olhando com minúcia para o texto, destacando aspectos da estrutura, da construção de personagens, do estilo, do espaço ficcional. E a partir daí seguiremos com a discussão do grupo. Os encontros sobre romances seguem a mesma toada dos últimos anos: descontraídos, minuciosos, abrindo mil direções de leitura. Venha nessa com a gente! Os encontros são sempre às 19h, e ficam gravados para quem não conseguiu assistir ao vivo.
Dia 26/1, “Bem-vindo à comunidade”, conto de Samantha Schweblin que está no livro O bom mal.
Dia 24/2, O quarto de Giovanni, James Baldwin
Dia 19/3, “A fugitiva”, conto de Alice Munro que está no livro A fugitiva.
Sonho de trem, Denis Johnson
“Sargento Garcia”, conto de Caio Fernando Abreu, que está no livro Morangos mofados
A autobiografia do algodão, Cristina Rivera Garza
“O ponto do marido”, conto de Carmen Maria Machado, que está no livro O corpo dela e outras farras
O americano tranquilo, Graham Greene
“O recado do morro”, conto de Guimarães Rosa, publicado originalmente no livro Corpo de baile
Por acaso, Ali Smith
“Os mortos”, conto de James Joyce, que está no livro Dublinenses.
Kairos, Jenny Erpenbeck
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