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Caracteres com espaço · Dec 6, 2024

Só cozinho com medida – e é ideológico

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Tem a ver com criar 3 filhos homens e ter trabalhado com a Rita Lobo

Não faço nada “no olho”. É intencional. Até sei, mas escolho não fazer. Tenho 3 filhos. Entendo que meu papel de mãe vem com um plus: tentar criar três homens menos machistas. Não é fácil.

Por isso (entre outras coisas) só cozinho com medidas. Inclusive retro-calculo receitas pra parar de fazer no olho. Exemplo recente, pra cozinhar cenoura, segui essa receita aqui. Panela pequena, duas cenouras cortadas em rodelas de 1 cm, 1/4 xic de chá de água, uma colher de sopa de manteiga, 8 minutos fervendo. Fica ótimo.

Por que? Porque a ideia de cozinhar no olho é a maior furada.

Quando alguém fala que cozinha sem medida, no geral a pessoa vem com um modo de preparo que inclui coisas como: vai pondo até dar o ponto. Que ponto? O quanto baste. Quanto basta? Tem que sentir. Sentir o quê?

Fica parecendo que existe um conhecimento escondido, coisa de “escolhidos”, ou melhor: escolhidas.

Dois causos breves.

1. A vó do Tomé faz um mingau de fubá tostado que ele ama. Pedi a receita. “Não tem medidas. Torro o fubá na manteiga até mudar de cor e reservo. Derreto o açúcar. Volto o fubá, ponho o leite e misturo até engrossar.” Se eu não fizesse outros mingaus toda hora provavelmente ia desistir. Mas tô ligada que tem uma proporção mais ou menos (1 colher de sopa do que engrossa – amido, aveia, o que for – e 1 colher de sopa de açúcar pra 1 xícara de chá de leite). Fui ajustando e hoje tenho uma receita pro mingau de fubá. Na hora de fazer, deixo o pote de fubá cru do lado da panela.

O Tomé já veio fuçar:

- Mas muda de cor como?

- Você consegue olhar e me dizer como?

- O fubá cru é amarelinho e o fubá tostado tem cor de palha.

Pra mim, isso é uma vitória. Um pequeno passo pra receita, um grande passo para ele se tornar um adulto viável.

2. Acabou de passar o Thanksgiving aqui. Eu e uma amiga formamos o time torta de abóbora. Eu faço a massa, ela faz o recheio. Ela não consegue fazer a massa. Perguntei o porquê. “Minha mãe faz a massa perfeita, mas não tem receita. Ela fala que tem que sentir a massa. Já fizemos duas tentativas de ela me ensinar na prática mas é muito frustrante porque ela não consegue explicar e eu não consigo entender o que tenho que aprender.” (Obs. essa minha amiga é professora universitária e ensina jovens de 17 anos a ler e escrever grego antigo e latim. É muito sério ela dizer “não sei o que tenho que aprender”.)

“No olho”, cozinhar fica parecendo sensibilidade. Mas você só ganha essa sensibilidade depois de cozinhar. E no geral quem aprende a cozinhar cedo?

Meninas.

Pessoal cansado desse papo de gênero

Ai, mas você acabou de contar uma história de uma mulher que não faz torta. É verdade.

Ai, mas eu sou homem e aprendi a cozinhar cedo. Parabéns.

“Ai, só meu filho de três anos faz massa folhada pra produzir seu próprio pain au chocolat?”

Só o seu

Croissant dourado

Mini Master Chef

One in a million

Cédric Groletzinho

Voltando.

Meus filhos vivem comigo na cozinha, fazendo lição de casa na mesa, brincando, conversando, essas coisas. Às vezes eles ajudam a cozinhar. Mas todos os dias eles me vêem cozinhar.

E o que eles vêem é uma combinação de:

  • consultar receitas;

  • usar medidas;

  • ligar timers.

O que será que eles veem na verdade?

Sei fazer panqueca de cabeça? Claro. Decorei. Mas pego a receita sempre que vou fazer, falo as medidas em voz alta, peço ajuda pra achar as medidas na gaveta.

Arroz é o mais difícil de sair do automático, são muitos anos fazendo. Pra resolver, escrevi as proporções e os passos no pote do arroz. Todos os arrozes da minha casa têm a receita escrita no pote de vidro (Todos os arrozes? Branco, integral, basmati e calrose - pra sushi. Arbório é muito caro aqui, não tem na minha casa).

Ovo cozido? Pego a receita, consulto a tabela de tempos e ligo o timer.

Macarrão? Meço o sal pra salgar a água, leio o tempo de cozimento na embalagem e ligo o timer.

Mesmo que eles não estejam prestando muita atenção, é isso que eles veem o tempo todo. Consulta e medição de ingrediente e de tempo. (Dá mais trabalho? Não. Nenhum. E dá menos bosta.)

Minha esperança é que entendam que cozinhar é algo que eles podem fazer a qualquer momento, desde que tenham uma receita e um jogo de xícaras e colheres medidoras.

Morro de alegria quando vejo o Tomé preparar o molho da salada. Toda vez: três colheres de sopa de azeite pra uma de vinagre balsâmico, uma colher de chá de mel e uma pitada de sal. Mistura e prova.

Cozinhar e ler.

Eu nunca teria pensado em nada disso se não tivesse passado anos trabalhando com a Rita Lobo (sou fã&amiga). Ela vive falando que cozinhar é como ler e escrever, todo mundo devia aprender. Faz um tempão que ela fala tudo isso e faz um tempão que eu ouço tudo isso. Mas há pouco tempo me deu um estalo.

Tô lendo um livro sobre como ajudar crianças a se tornar leitores de livros. O autor faz uma distinção entre duas habilidades:

  • decodificar palavras e frases;

  • ter o conhecimento necessário pra entender as relações entre as frases.

Pra demonstrar a segunda habilidade, ele dá o seguinte exemplo:

Heloisa derrubou o café. Tomé foi pegar o pano.

Pra entender a relação entre essas duas frases você precisa saber que:

  • derrubar o café faz sujeira;

  • quando faz sujeira, a maior parte das pessoas limpa;

  • para limpar o café é comum usar um pano.

Parece tudo muito óbvio. Mas não é.

Se alguém diz: cozinha o arroz até secar e desliga o fogo. Você precisa saber o que é o arroz secar. Não é secar de verdade. Ele não fica seco.

Se alguém diz: cozinha o arroz até não ter mais água no fundo da panela. Pra conferir, pega o garfo, afasta os grãos e olha. Você consegue fazer, mesmo que não saiba que o “o arroz secar” é na verdadae “o arroz absorver a água”, que é diferente (ou o oposto) de perder a água (o real significado de secar).

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