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Caracteres com espaço · Feb 4, 2025

Papinho de portão e o mal-estar do presente

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Heloisa Lupinacci · Caracteres com espaço

Se essa newsletter fosse um espaço, seria a calçada perto do portão. Aquele lugar em que antes de dar tchau e fechar a porta, você conta uma historinha boba e irresistível.

Papinho de portão é anexar, na despedida, esse .exe que faz a pessoa passar dias pensando no assunto. É das minhas coisas favoritas, essas conversas que parecem abobrinha, mas ficam reverberando.

Importante distinguir papinho de portão do assunto-da-maçaneta – um termo que vem da terapia/medicina pra definir aquela bomba que o paciente solta quando já tá com a mão na porta, pronto pra sumir. O momento pode fazer os dois parecidos, mas eles são opostos na motivação.

O papinho de portão é um pedaço de mim que entrego pra um amigo porque não quero dar tchau, quero continuar conversando pra sempre, mas preciso cuidar da vida. O assunto-da-maçaneta é uma coisa que você quer que a pessoa saiba, mas de preferência esqueça que foi você que falou.

*

Pois aconteceu de eu ter um papinho de portão há poucos dias. Sabe, tá difícil manter a leveza sendo uma imigrante com filhos imigrantes no país do Trump.

Tava falando disso com um amigo bem íntimo, antigo, aquela amizade que tem o tamanho de um continente, a profundidade de uma fossa abissal e a abundância de camadas de um croissant perfeito.

Ele mandou um papinho de portão em sua melhor forma. Olha só:

Por excesso de esporte, ele machucou a unha do dedão. Na noite antes da posse do Trump, a unha tava naquele cai-não-cai, ele tirou a meia e viu que ela tava presa por um fio.

A unha pendurada foi dando agonia, ele foi ficando tomado (ao mesmo tempo percebendo a infantilidade da coisa, estamos falando de um homem brilhante).

“Passei o dia seguinte – o dia da posse – no maior mal estar. Chegou uma hora que eu não sabia mais se era o Trump ou a unha. A sensação era a mesma.”

Aí ele obviamente fez todas as ressalvas, que sabe que são dimensões muito diferentes, mas o mal-estar. “O mal-estar físico e constante.”

Pra terminar:

“Quanto à unha, no dia seguinte fui no podólogo, ele tirou a unha, não tá doendo e já tem outra crescendo.”

Quantos assuntos, que riqueza. Minha cabeça foi indo:

Primeira parada, essa ilustração que o Edel Rodriguez fez pra Time Magazine.

Agora, pra mim, essa é a impressão digital do dedão do pé do meu amigo. De um lado o Trump, do outro lado, a unha presa por um fio.

Segunda parada: “saúde é o silêncio dos órgãos”. Dor no pescoço, unha encravada, furúnculo. Hemorróida, espinha, picada de mosquito. Essas coisas desestabilizam porque aquela parte do seu corpo fica fazendo ruído. Saúde é nem lembrar que você tem unha.

Terceira parada: “vamos aproveitar o tédio”. Na mesma linha que bom é não pensar da unha, quando começou o governo Biden um comentarista político que eu gosto disse algo como “que semana maravilhosa, todas as notícias são entendiantes, não tem nada explosivo para comentar, vamos aproveitar o tédio”.

O que eu posso dizer? Vou tentar achar a graça das coisas pequenas pra continuar escrevendo, sinto falta e gosto de achar que é recíproco. Fico torcendo pra essa grande unha cair e outra nova crescer no lugar. Acho que todo mundo vai gostar de saber que neste mês é aniversário da Leonor e ela me convidou pra ir tomar mimosas numa segunda-feira na casa dela pra comemorar (é feriado, mas ainda assim segunda-feira).

PS. O Capelas, da ótima Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais, adicionou uma quarta parada:

“Parafraseando a grande Laerte, ‘a grande unha, um dia ela vai cair’.”

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