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ooteca · Apr 30, 2025

o gelo da primavera

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Juliana Cajives · ooteca

escrito e postado sem revisão e sob efeito de um calmante, que na verdade não parece ter cumprido sua função. insone e com medo.

tenho rinite e asma desde pequena. até os 33 anos já tinha dado para me acostumar e reconhecer uma crise alérgica. mas, depois de viver o frio que chegou a -20 graus celsius, estou conhecendo outra dimensão temporal da vida longe do equador. a chegada da primavera traz a saliência (lá no norte que embora esteja agora em meu sul, sempre será norte, saliência quer dizer uma forte expressão sexualizada) das árvores em forma de flores paralelamente às tempestades alardeadas como numa imitação de filme hollywoodiano (aqui, o sonho americano é viver o fim do mundo com cercadinho branco), mas que não chegam aos pés das que temos no cerrado brasileiro. as flores, que brotam e apanham do vento e brotam de novo, rebrotam sempre mais violentas do que um alerta de tornado. o pólen causa um tipo de crise alérgica que eu ignorava: tontura, fraqueza, enxaqueca, pele inchada. eu soube que há risco, que é perigoso. aqui se gosta do perigo mas não do compromisso com a aventura. a asma pode me estrangular, mas não cultivo fetiche por esse risco: comprometo-me com a liberdade aventureira de andar sempre com medicação.

aqui, de longe do equador, o perigo é real e não está em um outro continente, em outro território distante. a realidade é tão material que a sinto pelo tato, nesta mesma pele que já tocou muitas das pessoas que me leem, que guardou tantos tatos e os trouxe aqui. você consegue sentir daí, na sua pele, o que eu não sei bem mas está à espreita? bem diante das flores de risco cheiroso e livre, o perigo se mascara da cabeça aos pés e gosta da dissimulação. hoje, um perigo agarrou uma pessoa no centro da cidade sob o nome de um outro perigo. sempre mudando de nome, o gelo escorregadio (the slippery one) agora caminha por entre as árvores que solidificam a primavera verde. ser escorregadio é um perigo que os gelos de ontem e de hoje têm prazer em caracterizar. para sair de casa no inverno, são muitas camadas de roupas, mas para sair de casa no gelo da primavera, são muitas camadas da minha vida impressa. pode ser rasgada, molhada, levada pelo vento.

estava pensando sobre frustração, sobre a sensação de que a qualquer momento eu terei a certeza de que não estou deixando tudo o que gostaria de ter deixado neste mundo antes de não poder mais estar nele. e não poder estar no mundo, neste caso, é permanecer viva sem existir. frustração é não poder conhecer todos os caminhos possíveis para a vida. a gente se frustra pelo caminho cortado que não chegamos a conhecer, pela interrupção de uma expectativa. todo caminho tomado é um caminho que se segue em resignação pela frustração de todos os outros. a plenitude das coisas é uma pele que nunca chegamos a tocar, mas o tato sente o vento e a presença de fantasmas. eu trouxe para correr um perigo enorme todos os vestígios dos caminhos que não percorri e isso é de minha responsabilidade.

pode me acontecer como aconteceu com aquele alguém não identificado no centro da cidade e também pode ser que não, que eu não escorregue no gelo ao sol. mas o medo já faz sua grande parte como um exemplar funcionário do Gelo Quente Raspadinha de Laranja. o assombro obsidia os coelhos que visitam o quintal, as frutas que deixo para eles, o contêiner de lixo que precisa ser ciceroneado toda segunda e terça, as espécies de pássaros que tanto me dedico para conhecer pelo canto, as plantas que estou aprendendo a identificar em admiração, as pessoas com quem me conecto e me pergunto a que ponto essas conexões representam uma ameaça, já que, como eu, pensam e falam sobre o que se passa em países distantes de outros continentes (a maioria dessas pessoas, de outros territórios).

quem está em um país distante sou eu, mesmo colocando os pés nele, estou distante. permaneço dentro do meu país, permaneço habitando e levando-o comigo. em tudo o que encosto, meu lugar também toca, meu tato é estendido a todas aquelas pessoas que são o meu lugar. você sente daí? levo comigo muitos outros países distantes. mas o gelo precisa com muita pressa retirar de sua superfície toda sensação tátil que não seja cristalina. se esquece o gelo de que é translúcido quanto mais derrete e que lá embaixo, quando ele derrete, o que aparece é a última primavera em lama fértil.

abaixo, um trecho do meu livro.

na toada dos créditos o namorado se levanta me beija a testa me olha com o mesmo olhar de um cidadão simples daqui deste país que vê alguém sofrer numa guerra distante de outros países difíceis de pronunciar portanto de propor tratados de paz dou fé de que espero que a ajuda humanitária chegue logo para eles, pensa o namorado

(pausa)

de onde é o povo de outro país? o namorado tinha alguma porcentagem inglesa no sangue e nos dentes mas não era inglês eu não sei dos cálculos percentuais de meu sangue se dentro de mim há fronteiras e alfândegas meus rins produzem pedras enquanto filtram 

dizem que é estresse

quando tenho notícias de horrores

me alivio sabendo que se passam

do outro lado daqui

assim tranquilizo os rins

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