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ooteca · Apr 22, 2025

apesar do cálice

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Juliana Cajives · ooteca

Como pessoa que se envolve na manufatura literária, o exercício poético é meu ofício de prazer e tem sido por mais tempo do que minha memória alcança. Como percorre pelos becos meméticos da internet, tal poeta poderia ter usado uma única palavra naquele momento, mas olha só que bonito como ela usou essa descrição cheia de figuras de linguagem! Eu posso falar que sinto medo, mas tenho dito que ando fazendo um mergulho infinito ao centro do estômago, que treme indeciso como um sismógrafo, calculando com que intensidade o porvir perfura as camadas do tempo. Contornar as palavras dessa forma não é desviar-se delas, mas dar a elas um contorno. Tão pequena é cada pessoa que coloca uma palavra ao lado da outra para destacar aquela que não está, num exercício de coragem, de dizer e construir o dito. A poesia não é essa coisa solene que toma conta das vozes de muitas pessoas que vejo recitando por aí, a poesia (e não estou falando apenas do gênero vertical) é trabalho manual, braçal. É na feitura que o trabalho poético evidencia as coisas enquanto as confunde porque é um trabalho de palavra.

As inteligências artificiais comportam-se em função de médias, dão significados pelo reconhecimento estatístico de significantes. O rastreamento de pessoas pelo uso dessas ferramentas é feito com a identificação de palavras e imagens que as colocam como figuras de determinados grupos, inimigos ou não da mão que direcionou a mira do software. É pelo uso de palavras e imagens que se toma decisões a nosso respeito – não mais opiniões e sim decisões. Há um poder que se engrandece ao delegar a leitura de palavras às entidades dos grandes dados, da interpretação estatística. Todo o processamento dessas palavras culmina naquela que é o tremor dos estômagos. Já sabemos, com nossos sismógrafos internos se agitando, que determinadas junções de letras ou de cores usadas em nossas comunicações retangulares-luminosas estão o tempo todo fazendo parte das decisões estatísticas que nos levam para dentro dos grupos a serem inconfundivelmente um ponto só, certeiro. 

O comportamento algorítmico dos poderes, porém, é decisão orgânica e anterior. Dizer determinadas palavras, usar combinações de cores, identifica os grupos no olhar humano antes da decisão que não passa mais por retinas. Outro dia, em um evento de uma instituição de ensino aqui de onde estou, uma estudante apareceu usando dois broches fixados em uma camisa branca: um estampava o desenho de um coração dividido ao meio, com as cores azul e amarelo; o outro, também com um coração, porém com as cores vermelho, verde, branco e preto. Quando se deu conta da presença de uma fotógrafa no local, ela retirou o segundo e depois pediu à fotógrafa que não utilizasse fotos que tivessem sido feitas antes dessa ação. Pois para a imagem capturada pelo sensor e enviada a um computador, a combinação de cores do segundo broche a colocaria em um grupo mais arriscado. Porém, a tensão sobre as imagens de seus broches já estava construída antes disso, os grupos já haviam sido feitos pelo olhar de cada pessoa presente. Aqui não se tem falado palavras que, paradoxalmente, parecem se repetir à exaustão, a todo momento. Algumas palavras se repetem mais nesse silêncio do que outras. Nas redes, com a consciência do agrupamento ativo, contornamos palavras e imagens num exercício desesperado de figuras de linguagem. Pronunciar algumas palavras tornou-se um meio de coragem dentro do jogo em que a postura amedrontada é uma necessidade para manter a reserva de uma coragem mais demorada. Estávamos em uma sessão no cinema e, no momento do debate, o homem que pediu a palavra ousou dizê-las todas, convidou-as a confrontar os desvios, a chamar a situação pelo seu nome. Dias depois, eu alertava um grupo de pessoas, do mesmo país e língua que eu, a não andar por certo endereço – escrevi exatamente o nome da rua – para evitar a comunhão de palavras que aconteceria ali em algumas horas. Era a nossa condição de pequenez.

Pelo meu pouquíssimo poder eu tenho justamente a liberdade para dizer com a força dos pulmões, porém é por esse pouco poder que estou agora em uma situação de apequenamento que me coloca no lugar de medo da fala. Sinto-me uma covarde, tão covarde quanto quem é grande e, justamente por isso, faz desvios e contorna as palavras em um projeto de tirar delas os contornos. Mas são duas coisas diferentes: nós, os apequenados, usamos corajosamente os desenhos dos significados para rodear a circunstância; já os engrandecidos, covardemente tentam encobrir aquilo que enxergam apenas como significante.

Ontem, uma jornalista (aquela dos terraços de Roma) escreveu e leu em tom solene, uma longuíssima redação para contar a história do líder religioso que partiu em direção ao lugar que sua sacralidade promete. Foi uma vida marcada por corajosos atos de perfurar os silêncios do consenso com os nomes das coisas e, por isso, ele foi alguém maior do que sua religião, ainda que apequenado por ela. A jornalista, em sua escrita constrangida, desviou-se da palavra que ele pronunciou inúmeras vezes e encheu de vírgulas sua distorção dos fatos. Evitando apenas uma palavra, um nome de lugar, de uma etnia, de pessoas, ela desvirtuou a maior negativa que aquele homem postulou. Nesse jogo semântico, foi colocada na boca de um homem morto a palavra que ele negou: guerra. Aquele assunto ali, em que ela tremeu como um terremoto, para ele, não constituía uma guerra. É que a sacralidade desse homem obriga àquelas pessoas que desprezam tudo o que ele defendia a reservar ainda algum virtuosismo, mesmo que para isso devam desvirtuar. Tanto a jornalista como a empresa em que ela trabalha podem dizer exatamente as palavras que eu evito. Nenhuma inteligência artificial irá identificá-los e ameaçar suas caminhadas pelo mundo, pois embora eles digam a palavra, eles fazem o silêncio. 

Aqui, não sabemos mais se as palavras escritas em um livrinho azul carimbado ainda nos garantem alguma coisa. Nossos livrinhos azuis podem não valer mais nada e só descobriremos isso se pessoas sem rostos e sem nomes colados às camisas nos derem voz de calar. Por um breve momento me senti uma grande covarde, mas logo me lembrei da minha fortuita infimidade de operária das palavras. O trabalho é feito sem cerimônia, sem pronúncias demoradas e entre hesitações como que entre as rachaduras deixadas nos monumentos de um mundo trêmulo. Mantenho o estranhamento das palavras dentro de um lugar que chama de liberdade uma estátua.

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Read the original on cajives.substack.com

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