[A Café com caos está em um breve recesso até o dia 19 de janeiro. Até lá, estou enviando alguns textos antigos, muitos deles publicados na minha antiga página do Medium. Em janeiro, voltamos com os textos inéditos!]
Um tempo atrás, comprei na internet um combo daquelas canetas de aquarela. Recebi, amei, lindas, mas eu não conseguia abrir os recipientes de água de jeito nenhum. Tentei de tudo. Fiz muita força. Rodei. Puxei. Nada. Passei vários dias com elas no estojo, mas sem usar, simplesmente porque não conseguia abrir. Eis que um belo dia estou na faculdade conversando com um amigo meu e conto a ele sobre as canetas. Tiro do estojo, mostro muito certa de que elas estavam com algum defeito intransponível e não tinha mais solução: “viu como não abre?” E ele (Fábio. Beijo, Fábio) me olha e pergunta: “será que você não está girando para o lado errado?”
Eu estava. Dias e dias girando no sentido anti-horário, enquanto o grande truque era pura e simplesmente girar no sentido horário (sem força, sem mistério, sem nada). Girei e abriu. Foi simples assim. E essa simplicidade estranha que me pegou de surpresa acabou ficando na minha cabeça e se espalhando para outras áreas da vida. Eu, que gosto tanto de insistir em plantas que já morreram com a esperança de que elas não tenham morrido totalmente, eu, que muitas vezes desperdiço o meu tempo com casos perdidos, que acho difícil largar o osso, que preciso dar 538 murros em ponta de faca até perceber que não tem jeito (altura em que a minha mão já está toda estropiada), eu mesma, rainha da teimosia, talvez esteja insistindo em girar para o lado errado coisas que podem ser facilmente resolvidas com uma mudança de sentido.
Desde esse dia (que já faz tempo), a frase do Fábio fica se repetindo na minha cabeça a cada situação que parece empacada, difícil, travada: “será que você não está girando para o lado errado?” Porque às vezes a gente está. Às vezes o problema não é a relação, é você estar tentando estabelecer ela com uma pessoa que não está disposta. Às vezes a questão não é encontrar uma forma de fazer aquele caminho X dar certo, mas perceber que existem outros caminhos e talvez o X não seja o ideal para o seu momento. Em muitas áreas da vida, a gente insiste em girar para o lado errado, faz força, puxa, culpa a empresa que criou a caneta, decide que veio com defeito, tudo para não ter que encarar o fato de — talvez, quem sabe, pode ser — a gente estar simplesmente insistindo em um sentido inviável.
Não é de hoje que eu falo sobre esse tema de abandonar casos perdidos e saber reconhecer quando aquilo não está funcionando. Em outro texto antigo, falei sobre a necessidade de deixar as coisas morrerem — e seguir girando para o lado errado é também uma incapacidade de enxergar que nós estamos insistindo no erro. Como alguém que recentemente passou pelo que eu acredito ser o retorno de Saturno, insistir no erro foi um tema recorrente esse ano para mim. Retomei questões que parecem ter marcado presença quase que durante a década inteira, ruminei e ruminei e ruminei dilemas que já estavam com gosto de guardado, mas que eu ainda não era capaz de digerir. Teimei e teimei e teimei em abrir a caneta — e a vida — pelo lado errado.
Metaforicamente falando, é, inclusive, simbólico eu insistir em não abrir a caneta, porque, quando eu conseguisse abrir, eu teria que efetivamente usá-la (não foi para isso que eu comprei?), e usar a caneta de aquarela para fazer aquarelas talvez me obrigasse a enxergar que eu não sou tão boa quanto gostaria com aquarelas. Talvez me obrigasse a encarar aquarelas horrorosas que em nada se parecem com as aquarelas que eu idealizei na minha cabeça. Talvez me obrigasse a encarar a minha falta de habilidade, a minha imperfeição, o meu perfeccionismo obsessivo, a minha necessidade de controle. Insistir em não abrir a caneta é também uma forma de autoboicote (e autoboicote é outro tema em que eu praticamente tenho um pós-doutorado).
Mas não tem nada mais gostoso e terapêutico que um fim de ano para a gente tirar um tempo, encarar essas repetições e entender o que está rolando por trás. Tudo o que volta certamente volta por um motivo. É a chance de refazer os caminhos, repensar estratégias, desarticular as nossas formas habituais de fazer as coisas e buscar formas novas. Buscar até mesmo dilemas novos, questões novas, quebrar a repetição e permitir que esse feeling de recomeço também nos empurre para as possibilidades ainda não exploradas, para a coragem de experimentar formatos inéditos, rumos inusitados — e, é claro, errar diferente, errar em outros testes, errar em diferentes experimentos, errar com mais liberdade (que alívio).
Afinal, não dá mesmo para pintar aquarelas, boas ou ruins, com a caneta fechada (e não tem quem faça aquarelas incríveis sem antes fazer várias péssimas). Insistir na caneta fechada é confortável, mas descobrir todo o potencial que ela tem estando aberta é que é verdadeiramente transformador. Que no próximo ano a gente abra mais as canetas — e saiba desapegar dos sentidos que não chegam a lugar nenhum.
E somos 3000!
Estou de recesso, mas não poderia deixar de abrir um espacinho aqui para comemorar que: somos 3000! Esse era um desejo meu para 2024, chegar a 3000 inscritos, mas — considerando que passei a primeira metade do ano com a newsletter em um hiato permanente — imaginei que não fosse rolar. E não é que rolou? Agora temos, mais especificamente, 3024 pessoas neste cantinho caótico. Que loucura. Muito obrigada! A Maíra de 12 anos que se trancava sozinha no quarto pra encher caderninhos com textos e mais textos fica muito contente de saber que agora tem quem leia o que ela escreve. 🥲
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