Na primeira metade do século IV a.C. foi escrito o livro do profeta Habacuque, que entre suas indignações, temores e tremores, nos traz o verso que pauta minha vida cristã há muito tempo:
Olhe para os arrogantes, os perversos que em si mesmos confiam; o justo, porém, viverá por sua fidelidade a Deus. Habacuque 2:4
O ministério pastoral vive na eterna batalha entre se envaidecer, tornando-se arrogante e perverso que em si mesmo confia, e ser achado fiel diante de Deus. Quanto mais o pastor aparece, menos Cristo é visto. Quanto mais o mensageiro é destacado, menos a mensagem se destaca.
Viver pela fidelidade é viver no ostracismo da irrelevância em uma sociedade da aparência e do engajamento. Viver pela fidelidade é viver na certeza do chamado para a vida de entrega a Cristo e sua Igreja. É assim que chego aos vinte anos de pastorado na data de hoje.
Vinte anos de pastorado não são resumindos em datas e cargos; mas sim expostos em rostos, em portas que se abriram e fecharam, em noites de oração, em conversas nas mais diversas circunstâncias, em nascimentos e em lutos, em pequenos e grandes acontecimentos que costuraram minha trajetória.
Nascido em Belo Horizonte em 1979, batizado em abril de 1980 e tendo feito minha profissão pública de fé em 1996, minha caminhada ministerial se iniciou a partir da candidatura oficial ao pastorado em dezembro 1999, seguida da licenciatura em janeiro 2005 e se consolidou no dia 4 de março de 2006, quando fui ordenado Ministro da Palavra e dos Sacramentos pelo Presbitério Ipiranga, Sínodo Borda do Campo, da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil.
Essas duas décadas são, para mim, um testemunho de fidelidade a um chamado que se expressa em relacionamento, formação e serviço em comunidades que me acolheram.
Formação e identidade teológica
Minha formação é ampla e plural, convergindo para um ministério pautado pela Tradição Reformada e por uma sensibilidade contemporânea. Estudei Teologia no Seminário Teológico de São Paulo da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil e sou bacharel em Teologia pela Faculdade Unida de Vitória. Busquei também uma Licenciatura em Filosofia pela Faculdade de Educação Paulistana e me aprofundei em áreas que dialogam com comunicação: MBA em Design Gráfico, Neuromarketing e Semiótica e Análise do Discurso pela Faculdade Metropolitana. Somam-se às formações acadêmicas uma dezenas de cursos que ampliaram minnha visão ministerial e atuação pastoral.
Esses estudos não foram meros acúmulos de títulos; responderam à necessidade de compreender a fé em suas múltiplas dimensões doutrinária, pastoral, estética e comunicacional.
A Teologia Reformada alimenta minha liturgia e minhas mensagens; a filosofia amplia meu olhar crítico e ético; o estudo do design e do discurso orienta como levo a Palavra e como a comunidade percebe sinais e símbolos. Essa síntese me permitiu produzir materiais de apoio litúrgico e textos que dialogam com a tradição e com os desafios do presente.
Início do ministério e aprendizado pastoral
Os primeiros anos de ministério foram intensos em aprendizado prático sobre como pastorear em contextos urbanos e diversos. Em 2006 e 2007 servi como pastor auxiliar na Igreja Presbiteriana Independente Sacomã e na Igreja Presbiteriana Independente Central de Votorantim, experiências que consolidaram em mim a prática do cuidado compartilhado, da escuta pastoral e do trabalho em equipe com presbíteros e líderes. Nessa fase formativa, aprendi que o pastorado é essencialmente relacional: ouvir mais do que falar, construir com a igreja mais do que impor soluções individuais. Foi tempo de forjar hábitos de acompanhamento, de preparo de mensagens e de atenção litúrgica que passaram a marcar meu estilo ministerial.
A partir de 2008 fui pastor titular na Igreja Presbiteriana Independente de Grajaú, em São Paulo, até 2012, onde vivi o aprofundamento do vínculo com uma comunidade local. Em 2013 assumi a Igreja Presbiteriana Independente de Araraquara, permanecendo até 2017, período em que amadureci pastoralmente e ampliei meu trabalho litúrgico e formativo. De 2018 a 2024 pastoreei a Igreja Presbiteriana Independente do Tucuruvi, onde a frase Hans Bürky ganhou significado real O Reino de Deus é um reino de amigos; e, em 2025, servi na Quinta Igreja Presbiteriana Independente de Sorocaba, que me permitiu ser pastor num momento de transição pessoal familiar e um novo momento da comunidade em suas relações pastorais.
Cada igreja trouxe desafios e riquezas próprias, realidades econômicas diversas, perfis geracionais distintos, demandas ministeriais específicas e com elas a oportunidade de contextualizar o cuidado, respeitando a identidade local sem abdicar da herança Reformada.
Princípio pastoral de relacionamento
Ao longo desses anos, um princípio orientou minha prática: acredito no pastorado de relacionamento. Pastorear, para mim, é caminhar ao lado; é partilhar dores e alegrias; é ouvir antes de propor.
Essa postura se traduz na maneira como construo ações pastorais: em parceria com a igreja, com espaço para a participação de presbíteros, líderes e membros, reconhecendo que o ministério pastoral é obra comunitária e não iniciativa solitária.
Esse modo de agir produziu frutos concretos, decisões tomadas em conjunto, liturgias pensadas com e para a comunidade, um ambiente onde conflitos são tratados com escuta e moderação teológica. A escuta pastoral também alimentou minha produção de estudos, mensagens e materiais de apoio litúrgico, sempre com ênfase na Teologia Reformada, mas atentos ao diálogo com a realidade cultural e existencial das pessoas.
Produção intelectual e expressão artística
Minha atuação extrapola os cultos e as reuniões presenciais. Mantenho a newsletter mensal Café com Alecrim e o Podcast Café com Alecrim, espaços nos quais procuro oferecer formação e reflexão contínua. Escrever e gravar ampliou o alcance do meu ministério, alcançando leitores e ouvintes que, por diversos motivos, não estão fisicamente nas igrejas que pastoreei, mas que se alimentam das reflexões e do cuidado espiritual oferecidos por esses canais.
Publiquei sete livros: Ser Igreja; Deus lá em casa; Jesus Ressuscitou e dai; Para entender e fazer liturgia; Caixa de Versos; Caderno Verde de Poesias; Você já leu poesia hoje?. Esses títulos revelam duas dimensões do meu ministério: a preocupação com a formação e organização da vida congregacional e a sensibilidade poética que reconhece a arte como via legítima de expressão da fé e da experiência humana. O diálogo entre rigor teológico e imaginação estética me permite comunicar a fé tanto ao intelecto quanto ao coração.
Serviço institucional e participação eclesiástica
Além do trabalho local, atuei em instâncias institucionais da denominação: diretoria de Presbitério e Sínodo, Secretário do Portal e Secretário de Música e Liturgia da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil. Tais responsabilidades exigiram de mim equilíbrio entre governança, comunicação e cuidado com a vida litúrgica das igrejas. Servir em níveis mais amplos da igreja ampliou meu campo de visão e me proporcionou aprendizado sobre administração eclesiástica, coordenação de atividades e a importância de normas que promovam unidade sem sufocar as expressões locais. Acredito que o pastor também serve à igreja como corpo ampliado, contribuindo para políticas e práticas que sustentem o testemunho coletivo.
Desafios enfrentados e lições aprendidas
Vinte anos de ministério trouxeram provações inevitáveis. Enfrentei dores pessoais e comunitárias, acompanhei crises, vivi mudanças sociais e tecnológicas que impactaram a vida congregacional. Em tudo isso, aprendi a permanecer firme na Palavra, mas flexível nas formas; a priorizar o cuidado pastoral sem negligenciar a formação doutrinária; e a reconhecer meus limites, buscando apoio e capacitação quando necessário. Conviver com diferentes gerações nas igrejas me ensinou a linguagem da paciência e da criatividade: é preciso preservar a tradição da fé e, ao mesmo tempo, comunicá-la de modo que toque corações em contextos novos.
Os desafios também me lembraram que o ministério é sustentado por pequenos gestos cotidianos: visitas, telefonemas, celebrações simples, presença em momentos de dor e festa e que a fidelidade pastoral se mostra mais no dia a dia do que em grandes performances.
Frutos do ministério e olhar para o futuro
Os frutos dessas duas décadas são visíveis em vidas transformadas, em lideranças formadas, em liturgias mais conscientes e em um legado que combina ensino, arte e cuidado. Vejo frutos nas pessoas que cresceram na fé, nos ministérios que surgiram e se consolidaram nas comunidades, e na difusão de materiais e reflexões que alcançaram além das paredes denominacionais e romperam as fronteiras eclesiásticas.
Ao completar vinte anos de pastorado, olho para o futuro com gratidão e expectativa. Quero continuar aprendendo, renovar formas de comunicação, formar novos líderes e aprofundar o compromisso com a formação teológica e pastoral. Mantenho o desejo de que meu ministério siga sendo um ministério de escuta, parceria com as comunidades e fidelidade à tradição reformada, sem medo de adaptar linguagem e métodos para alcançar novas gerações. Vejo também a oportunidade de cultivar mais espaços onde poesia, estética e liturgia dialoguem, reconhecendo que a experiência religiosa é ao mesmo tempo, racional e sensível.
Reflexão pessoal
Pastorear durante vinte anos me ensinou que cada pessoa e cada instituição têm algo a me ensinar. Minha vida familiar, o casamento com Tatiana e a paternidade de Antônio e José nutre meu ministério com humanidade e responsabilidade.
Ser pastor não é função separada da vida; é vocação entrelaçada com as relações mais próximas, com alegrias e tensões do convívio familiar. Essa experiência pessoal acrescenta profundidade ao cuidado pastoral porque o pastor que também é esposo e pai entende as demandas reais das famílias que acompanha. A eles minha profunda gratidão e meu sincero pedido de perdão, público, pelas inúmeras falhas ao longo dos anos.
Minha trajetória acadêmica e ministerial mostra que a formação contínua é aliada do cuidado eficaz: estudar, escrever, pensar e praticar retroalimentam-se constantemente. Não há como ser pastor sem ser eterno estudante, eterno aprendiz.
Agradecimento às igrejas e concílios
Agradeço com profundo reconhecimento e honra a cada igreja que me acolheu:
Igreja Presbiteriana Independente do Sacomã, São Paulo, SP, no ano de 2006 (pastor auxiliar)
Igreja Presbiteriana Independente Central de Votorantim, SP no ano de 2007 (pastor auxiliar)
Igreja Presbiteriana Independente de Grajaú, São Paulo, SP de 2008 a 2012
Igreja Presbiteriana Independente de Araraquara, SP, de 2013 a 2017
Igreja Presbiteriana Independente de Tucuruvi, São Paulo, SP, de 2018 a 2024
Quinta Igreja Presbiteriana Independente de Sorocaba, SP, de 2025
Sou igualmente grato aos Presbitérios Ipiranga, Sorocaba, São Paulo, Araraquarense e Bandeirante e Sínodos Borda do Campo, Sul de São Paulo e Ocidental que me confiaram responsabilidades, às equipes ministeriais que caminharam comigo e a cada irmão e irmã que, com confiança e fraternidade, fizeram parte desta trajetória. Obrigado por serem espaço de formação, lugar de desafios e fonte de alegria pastoral ao longo desses vinte anos.
Em minha caminhada, carrego comigo o abraço de pessoas que provaram que o Reino de Deus é um Reino de amigos.
Sigo vivendo meu ministério sabendo que onde há Evangelho, ali há liberdade.
Continuo adiante minhha jornada de vida, aprendendo com Jesus a leveza de viver.
Reverendo Giovanni Campagnuci Alecrim de Araújo
Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil
Ribeirão Preto-SP, 4 de março de 2026

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